Cattoterapia – por Daguito Rodrigues

Hoje faz 1(um) ano que a turnê “O Nascimento de Vênus” estreou no Sesc Vila Mariana, em SP.  Hoje é dia de Yemanjá. Não tem melhor dia que hoje pra publicar este texto!

FCEF agradece à gentileza de Daguito em nos presentear com essa maravilha!

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Foto de Alexandre Calladinni

CATTOTERAPIA

Um tratamento pela beleza e pelo amor. Amor pelos outros, pelo mundo e pela natureza. E para que ele aconteça, a CATTOTERAPIA é sempre recomendada e ela começa pelo amar a si mesmo.

Um amor pelo próprio gênero (ou pela ausência ou ambiguidade dele). Pela idade, seja pouca ou já avançada. Pelas escolhas do passado, mesmo as erradas, e pelos objetivos traçados para o futuro, até os que parecem impossíveis. Amor pelo presente, mesmo que não seja aquele que pensamos merecer. Um amor pelos sonhos.

A CATTOTERAPIA começa quando ainda tem gente chegando e as luzes ainda estão acesas, o canto de Kate Bush ecoa no ambiente. Toda sessão é assim. Ali é a hora da preparação e mentalização: deixar a vida com seus percalços de lado para adentrar um mundo lúdico criado pela pureza e pelo belo.

Daí vem a escuridão e a teatralidade do Lago dos Cisnes. O espetáculo vai começar, com toda a imponência e grandiosidade do Universo. Sim, o todo – o cosmos – é enorme. E essa dimensão toda conectada deve ser evocada aqui na Terra. Sempre. Temos o tamanho do Universo inteiro.

Abrem-se as cortinas e surge a força da natureza, nos lembrando o quanto os outros e a sociedade nos dizem que somos nada, as pessoas mais erradas e que perdemos a direção. Mal sabem que não há um caminho único no qual podemos nos perder e que cada um de nós pode construir a trajetória que quiser. Se quiser. E quantas quiser. Por isso, pedimos a atenção de todos, vamos aumentar o rádio e deixar a canção iluminar o céu imenso como um raio.

O tratamento segue numa carta de amor. De paixão e adoração. Embalada por uma linda melodia e poesia do mais alto nível. Felicidade em estado de graça.

Depois, vem a carne. O esquecimento do amor utópico e perfeito: é hora do prazer puro, sem amarras ou expectativas. É hora de viver o presente, não há nada mais importante que isso. Somos melhores que nada, somos melhores que tudo. Porque cada um de nós tem a própria beleza e o poder de receber e dar amor. Que seja por uma noite, que seja pela vida inteira.

Um amor conectado ao cosmos e à natureza, lembra? Capaz de colocar um arco de luz no céu para seu objeto de desejo. Que tal acordar para a verdade?

Mas será eterno? É o que refletimos no próximo passo. O que vão falar de nós depois de amanhã? Com tanto amor e paixão, tanta vida no presente, o que ficará para depois?

Chega a superação. Aquele momento em que percebemos não haver mais motivos para chorar, já choramos até demais. É hora de seguir em frente, de peito estufado e a garganta aos berros.

Daí vem o canto da sereia, mas esta não quer nos levar para o fundo do mar, quer nos levantar para a essência do que mais importa: o momento. Aquele momento que faz parar tudo ao redor. Um momento de calma – e de lágrimas também. Uma catarse apenas interna – explosiva, é verdade – que nos faz conversar com a voz que guardamos no fundo de cada um de nós. A nossa voz verdadeira, que nos diz baixinho nossos nomes. Uma súplica para que tudo pare.

A terapia está feita. Mas há espaço para a magia, de nossos antepassados que aqui estavam. Com swing e um samba desconstruído, com o batuque do xamanismo e a voz das florestas. Ninfa. É hora de receber o passe e absorver a energia do amor puro. De se arrepiar e entender que não estamos ali à toa. Foi um chamado maior.

Explode o vermelho. Pesado, mas não raivoso. Épico, nada doutrinário. Uma multidão de eventos naturais que nos cobre como a força de uma torrente. E que se encerra num mantra lúdico, mas verdadeiro, que nos faz conectar ao planeta e a tudo aquilo que não querem que a gente acredite. Eu acredito.

Respira fundo. É intenso mesmo.

Por isso, chega a hora do amor sensível. Da inocência de Adão e Eva no futuro. É hora de lavar a alma e deixar tudo leve e lindo, viajando pelo espaço na última astronave.

Atingimos ali o amor e a beleza. Estamos leves e plenos. Prontos para um “voz e guitarra” que nos traz recordações do passado, músicas que funcionam como máquinas do tempo. E que nos lembram que somos o protagonista de nossas histórias, de nossas próprias sagas.

Daí é hora de festejar a melancolia da existência, de pedir o que merecemos, de clamar a vinda daquele que irá morar no nosso coração. Com direito a pista de dança em ritmo noventista. Apareça, seja você quem ou o que for, qualquer hora agora.

A CATTOTERAPIA chega na fase final ainda festejando, neste momento os dias e as noites, o Sol e a Lua, ainda numa pista de dança. E nós vamos. Embalados pelo charme e pela alegria de sentir o amor. É tudo comemoração. A vida inteira é.

Porque vivemos para uma só pessoa: nós mesmos. E é a nos mesmos que devemos amar. Amando a si próprio, estamos prontos, carregados de amor para também amarmos o outro. Batemos palma, cantamos em coro. Súditos ávidos.

E então chega o nascimento de Vênus. O amor prometido. A felicidade plena. O bom e o mau. Jesus e Satã. Nos encantamos com as imagens, os sons e os cantos. Levantamos e aplaudimos, certos de que fizemos nascer em cada um de nós a Vênus tão necessária para se viver num mundo torto, bélico e injusto. Tão Marte.

Daí, quando a gente acha que tudo acabou, vem a sensibilidade retrôfuturista de sintetizadores e poesia, de canto afinado e reflexões políticas. Tão importantes para o momento de nosso país. Mais uma vez, vamos às lágrimas, e percebemos que, aqui ou lá, estando sempre de acordo com seus valores e alinhado com aquilo que você é, não importa onde você esteja é sempre o mesmo lugar.

E encerramos aos berros, dizendo ao mundo todo que não aceitaremos mais pouco. Não queremos mais pouco. Merecemos tudo aquilo que desejamos, todos aqueles sonhos nos quais pensamos no começo da CATTOTERAPIA. Somos o que somos, com muito amor e orgulho. E para quem não entender, fica o recado: eu quero mais é que você se foda.

Levantamos e saímos da sessão lavados, ao som de Depeche Mode. Personal Jesus. Porque o retorno do Messias não é através de um novo corpo, de uma nova alma. Mas do todo. Ele já voltou e está dentro de cada um de nós.

Graças ao trabalho da equipe do Filipe Catto Em Foco, temos a CATTOTERAPIA à disposição completa no YouTube. Dedicação e paixão à altura dos mesmos sentimentos e emoções produzidas no palco. Se isso não é amor, o que será? Vida longa!

TEXTO BASEADO NO SETLIST ORIGINAL DA TURNÊ “O NASCIMENTO DE VÊNUS”:

1. Como Um Raio
2. Adoração
3. Canção de Engate
4. Arco de Luz
5. Depois de Amanhã
6. Canção e Silêncio
7. Faz Parar
8. Um Nota Um
9. Torrente
10. Eva
11. Saga
12. Do Fundo do Coração
13. Dias e Noites
14. Só Por Ti
15. Lua Deserta
16. É Sempre o Mesmo Lugar
17. Eu Não Quero Mais

*Daguito Rodrigues é jornalista, escritor, roteirista, é leonino e nasceu em Santos, SP. Tem um romance publicado (Vozes da Rua) e vários contos publicados em coletâneas de escritores e outros tantos premiados. Atualmente trabalha em em novo romance.

 

 

2 Comments

  1. Adorável esse passeio pelas letras das músicas que vêm de Catto, essa modelagem de sons sob a forma de palavra, a personificação dos sentimentos vividos durante o show de luz e voz. Coisas que Catto provoca e engendra em tudo que toca, em tudo que faz.
    O texto de Daguito dá a dimensão do que a arte é capaz de fazer. A equipe do FCEF abre os caminhos pra ninguém esquecer: viver com arte requer que se tenha a arte de viver. Isso é como terapia. Isso tudo vem de Catto.

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