Margens e Clareiras

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📷 Daguito Rodrigues

Do Que Falo Quando Falo de Correr na Pandemia

Tem duas características que divido com Haruki Murakami. Infelizmente, nenhuma é o sucesso como escritor — quem sabe um dia? Eu e ele somos apaixonados tanto pela escrita como pela corrida. Foi dele que emprestei o título “Do Que Eu Falo Quando Eu Falo de Corrida”. Nesse livro aí, Murakami divaga sobre o esporte e o ofício de escrever.

Não é o que farei aqui.

Para mim, correr é uma metáfora da vida. Falar sobre correr é falar sobre viver. Sobreviver.

Venho treinando de forma amadora, mas frequente, desde os longínquos anos 2000, tendo participado de uma série de corridas de rua de 10km — jamais conseguirei passar disso aos 40, mas deixo esse assunto para você ler no livro do Murakami.

De volta à metáfora. Para começar, tanto correr quanto viver não são fáceis. Ambos têm altos e baixos, alguns literais, outros alegóricos. No começo, você se anima, se pergunta por que não fez isso antes, até que lá pelos 3 km corridos (que é pouco) a exaustão domina e tudo que você quer é abandonar. É desistir. Tudo que você quer é a sua mãe. Ou um copo d´água. Ou uma piscina cheia de gelo.

A maioria abandona a corrida neste ponto — o primeiro cansaço, o primeiro obstáculo — e sai achando que correr é muito chato e cansativo. Ora, as melhores coisas da vida só vêm com esforço e insistência. Todo bolo delicioso precisa de tempo para assar. Se tirar antes do ponto, ninguém vai comer. Então, encontre seu ritmo.

Esse primeiro cansaço, como na vida, é apenas uma etapa seletiva, um primeiro teste para separar aqueles que ficarão para trás e os que seguirão em frente. Passado esse primeiro cansaço — e desespero —, seu corpo e sua respiração se acostumam e você relaxa e passa a curtir a corrida. Você repara na arquitetura dos prédios, na sombra do poste, naquela loja de chapéus que você nunca tinha visto, escuta as conversas de desconhecidos, descobre a cidade. Ou, no meu caso, redescobre.

Com a Pandemia de 2020, fui privado da corrida de rua. Primeiro, porque minha atual pista permanece fechada desde março — o Minhocão. Segundo, porque mergulhei no isolamento social radical: só saía para compras essenciais.

Mas, o tempo passou, muita coisa mudou, e tive de começar a sair também para o bom e velho Tupã — hoje oficialmente meu cachorro — não ficar doido dentro do apartamento. Por isso, logo retomei minha corrida. De máscara, claro. Parece difícil, mas, de novo: é questão de costume. Hoje nem percebo que tenho essa barreira de tecido sobre o rosto.

O mais interessante foi o roteiro que criei, o que me traz de volta à metáfora da vida. Eu poderia ficar correndo em volta de um mesmo quarteirão — umas vinte voltas — ou pela Praça Roosevelt — cada vez mais cheia de gente aglomerada — ou por alguma grande avenida poluída como a Consolação. Mas, não sou dos caminhos mais fáceis e práticos, não sou adepto da rotina e da repetição, eu gosto de experimentar o viver, então, preferi ser poético e montar um roteiro mais interessante, belo e inusitado. Por que correr tem que ser só uma corrida? Eu quero é ver meus olhos brilharem! Daí, criei um trajeto daqueles que você nem imagina que seria possível.

Basicamente, desço a Rua Augusta e passo pela Avanhandava — que Bia Doria disse ser o único lugar de São Paulo parecido com Nova Iorque. Eu não sei que Nova Iorque é essa que ela conhece, nem entendo isso como um elogio, mas lembro dessa fala toda vez que passo por ali.

Chego na frente da guerreira e saudosa Ocupação Nove de Julho e continuo até o imponente edifício da Biblioteca Mario de Andrade, onde já fui a festas na cobertura nos tempos de Fernando Haddad. Sigo reto até o maravilhoso Theatro Municipal e, ali, viro à direita na esquina do lindoso Shopping Light, entrando no clássico Viaduto do Chá. Nunca sonhei em passar por ali de tênis, short e regata de corrida. Suado e ofegante. Jamais imaginei. Mas lá estou eu. A vida é assim também: nos surpreende o tempo todo, se deixarmos.

Terminado o viaduto, passando na frente da linda Prefeitura de São Paulo (o antigo Banespinha), chego finalmente à Praça do Patriarca. Correndo, ok? Sempre correndo. Lembro de como era essa praça lá no início dos anos 2000: quase um terminal de ónibus, com ruas, pontos, passageiros e veículos. Era poluidíssimo. Uma confusão! Até que a Marta reformou o lugar com direito a obra do Paulo Mendes da Rocha e hoje temos uma esplanada agradável, onde rolavam muitas festas e eventos em tempos de pré-pandemia.

Daí, viro à direita na Rua São Bento e subo até o Largo São Francisco, onde admiro a praça, a igreja e a faculdade. O termômetro da pobreza atual salta aos olhos: barracas, pessoas, chuveiros improvisados. O Brasil está miserável como nunca vi.

Tomo a esquerda pela ciclovia e sigo até a Praça da Sé, sempre cheia, ainda mais em tempos sombrios. Desço na direção do Caixa Cultural, entro na rua do Solar da Marquesa de Santos, viro à esquerda na frente da mansão, contorno os prédios do Ramos de Azevedo e saio no Pateo do Colégio.

Festas, blocos, tantas coisas eu vivi nesse lugar. Teve uma época em que eu e um grupo de amigos sempre nos encontrávamos cedinho para um café da manhã no Centro — o Páteo do Colégio foi um deles — e saíamos andando visitando museus, galerias e bares, muitos bares. Fazíamos um turismo boêmio e cultural pelo Centro de São Paulo. Bons tempos. Agora, quando passo por ali, vejo ainda mais miséria. Existe um acampamento de pessoas em situação de rua. Fome, frio, desesperança. Dá vontade de querer salvar o mundo, mas agora não dá. A gente segue correndo e pensa na panela de arroz com feijão que vai cozinhar para distribuir àquelas pessoas mais tarde.

Depois, passo na frente do risível Impostômetro e, do outro lado, tenho uma visão privilegiada do Parque Dom Pedro. Relembro das fotos e pinturas que mostram a várzea do rio chegando até lá. Como o homem — sim, o macho — é capaz de destruir o que de melhor a Natureza nos oferece? Esse aprendizado na corrida a gente leva para a vida.

Sigo entre arranhacéus antigos e imponentes — me sinto em Manhattan, mas não a de Bia Doria —, passo pela esquina da Ladeira do Porto Geral — leva esse nome porque dava no porto da várzea que citei agora há pouco — e saio no Largo São Bento, onde às vezes sou brindado com o badalar dos sinos. Quando não, me satisfaço com o enorme mural que estampa Raul Seixas e sua guitarra. Olho para o balcão onde Bento XVI fez uma missa e agradeço por termos hoje o Papa Francisco.

Corro sobre o mosaico do viaduto Santa Efigênia, observo a obra em andamento no Vale do Anhangabaú de um lado e a feiura da avenida Tiradentes do outro. Vejo o prédio e a cobertura da Balsa — se não conhece, anota o nome desse bar na agenda — e, ao final do viaduto, chego a um dos pontos mais bonitos de São Paulo.

Calçadão, prédios antigos lindos e a Igreja da Nossa Senhora da Conceição. Um dia esse lugar será revitalizado e teremos mesinhas nas calçadas, árvores floridas e muita segurança para curtir toda a arquitetura do entorno. Se não conhecem, anotem também. Vale a pena.

A essa altura, estou correndo como vivo: aproveitando tudo de belo que me é oferecido, sem virar o rosto para as agruras e dificuldades. Isso é estar presente. Saber tirar o melhor sem se tornar frio e fechado para o que há de pior. Estou suado, estou cansado, mas estou curtindo. Porque, em alguns passos, não estarei mais ali. Se não curtir agora, quando poderei?

Entro na Rua Antônio de Godói, sinto o cheiro da pastelaria improvisada dentro de um Estacionamento, viajo no prédio de varandas agradáveis que, numa outra realidade, seria requisitadíssimo pelo paulistano e passo na frente do túmulo da Ocupação do Paissandu, aquele prédio alto do governo federal que pegou fogo recentemente e desabou matando algumas pessoas. Sete mortos e dois desaparecidos. Parece nada diante dos mais de 80 mil brasileiros mortos pela COVID-19, né?

Saindo do Largo do Paissandu, vejo a Igrejinha onde o bloco Ilú Obá de Mim sempre termina seu desfile, a ruela que dá nos correios onde filmei meu primeiro curta-metragem, a Galeria do Rock onde sempre vou mesmo sem ter nada para comprar, o Ponto Chic onde foi criado o sanduíche Bauru e a Galeria Olido, que ainda será um dos principais centros culturais da cidade. Baita lugar. Na vida é assim, a gente vê lugares e pessoas com tanto potencial e torce para que um dia elas e eles encontrem o caminho que os levará para o brilho que já emanam, mas que está oculto diante das agruras e obstáculos. Somos todos assim, né?

Sigo pela histórica São João, vejo o andar onde um dia foi a balada Trackers, passo por uma ocupação onde já frequentei algumas festas inesquecíveis e cruzo a Ipiranga vendo o clássico Bar Brahma.

É nessa parte onde mais volto no tempo e me revejo como jornalista na Folha de S.Paulo — trabalho que me deu grandes amigos. Um deles, Bruno Lima Penido, que morreu de forma trágica logo no início da Pandemia e cujo luto ainda não terminou.

Passo por uma esquina onde vi, há vinte anos, um carro atropelar uma senhora, que girou várias vezes no próprio eixo, sem sair do lugar, caminhou até a calçada normalmente e desabou desacordada. Lembro de ver o calçado dela a alguns bons metros de onde houve o acidente. Absurdos fazem parte da vida também.

Cruzo a Rua Aurora, onde cobri um incêndio num cinema pornô em 2003 e agi como um abutre do jornalismo, o que me ajudou a abandonar a profissão. Apresso o passo para fugir dessas lembranças e, muito antes de chegar perto da Barão de Limeira, onde fica a sede da Folha, viro rápido à esquerda e chego à rotatória do Largo do Arouche. Eu, que nos anos 90 ouvia sobre esse lugar no programa Sai de Baixo, da Globo, jamais imaginei que um dia ele se tornaria minha pista de corrida.

Passo na frente da Academia Paulista de Letras e penso que jamais vou querer participar de alguma dessas instituições de escritores que mais valorizam a influência do que a qualidade das obras. Vamos lembrar que a Academia Brasileira de Letras, lá no Rio, tem Merval Pereira, José Sarney e Fernando Henrique Cardoso como imortais. Teve até o Roberto Marinho! Para quê, né, gente?

Passo na frente do Le Cassarole, reparo na obra recente que melhorou e muito as condições da praça, deixo escapar um sorriso ao ver a Floricultura Repúplica, dou a volta no Largo do Arouche reparando no misto de predinhos antigos e outros mais novos, vejo os tapumes que cobrem onde um dia foi o saudoso Barouche, vejo o Bar Térreo fechado e, depois de praticamente contornar todo o lugar, viro à direita na parisiense Vieira de Carvalho. Viver é perceber que lugares legais fecharam, que outros foram reformados e mudaram, que o novo toma o lugar do velho, mas que ninguém é capaz de apagar nossas memórias e nos tirar nossas lembranças.

Avenida Vieira de Carvalho. Já quis muito morar lá. Acho que hoje ela vive seu melhor momento, mesmo assim ainda me parece um tanto perigosa à noite. Pode ser só preconceito — a gente tem um monte deles. Vejo uma lanchonete árabe com cara ótima, mas que nunca fui, fico curioso com o aconchegante bar de um hotel que eu não conhecia, anoto mentalmente para conhecer depois e saio na imperial Praça da República. Na minha mente, é o ponto do Centro de SP que mais traz aquele ar imperial do Centro do Rio. Não sei, acho que pela avenida larga e por tudo ser mais amplo. Viagem minha.

Contorno, vejo a estátua do Mercúrio Em Repouso, as fontes abandonadas e cheias de mato do lago artificial, o coreto em restauração e o lindo prédio da Secretaria Estadual da Educação, onde o governador Mário Covas levou cadeirada de grevistas nos anos 90. Quantos blocos de rua não encontrei ali? Shows da Marina Lima, Letrux. Festival Lula Livre. Vejo o lindíssimo edifício Esther, que no topo tem o pedante, mas interessante, restaurante Esther Rooftop e babo para o prédio onde Gil e Caetano moraram nos anos 70. Já o Edifício Itália nunca foi de meu interesse.

Pego a estreita Basílio da Gama, revejo a única farmácia onde consegui álcool gel no início da pandemia, viro para a Praça Dom José Gaspar, lembro das festas Selvagem, Ninho e tantas outras que já fui ali, me encanto de novo com a Biblioteca Mário de Andrade, sinto saudades de comer e beber no balcão do Ramona e de dançar na pista do Alberta #3 e desejo aquele prédio rosa e azul do Artacho Jurado na Avenida São Luís. A gente tem sonhos e objetivos na vida também.

Subo a Consolação, já me preparando para caminhar. Às vezes, entro na galeria do restaurante vegano Toya e compro um dos maravilhosos bolos de pote ou sonhos veganos que a tia Selma faz com tanto amor. As comidas desse lugar deixaram minha quarentena mais cálida e aconchegante. Obrigado!

Quando chego na esquina do Tap Tap, minha corrida já terminou, mas meu passo segue acelerado e entro na minha querida Praça Roosevelt. Viver também é assim: a gente deixa de correr, mas não de se movimentar. Idade e finais de ciclo não significam que acabou de vez. O importante é seguir em frente.

A Praça Roosevelt é um lugar de onde já saíram blocos e passeatas, onde nasceu a Parada Gay de São Paulo, onde Elis Regina cantou em terras paulistanas pela primeira vez, onde já vi peças, shows e comícios, mas que antes da Pandemia vinha decadente e sombria, muito por conta da Associação de Moradores que resolveu proibir festas e eventos culturais.

Ali, já estou em casa. É onde hoje passeio duas vezes por dia com Tupã. É onde converso de longe com outros donos de cachorro, onde tomo sol, onde sinto a brisa, onde vejo o pôr-do-sol.

Às vezes, a gente fica se planejando para só viver quando acontecer tal situação ou quando a gente tiver tal emprego, propriedade ou reconhecimento. Mas a vida é o agora. A vida é o momento da minha corrida. Se eu corresse pensando no jantar que farei ao chegar em casa, teria perdido todas as memórias e reflexões que citei.

Seja correndo, seja vivendo, observe o entorno, veja as pessoas e escute os sons. Sinta o calor do Sol e o sopro da brisa. Repare nas construções e nos buracos. Nas belezas e nas feiuras. Corra e viva. Se quiser parar rapidinho para tomar um fôlego, fique à vontade. Descansar é tão importante quanto seguir em frente. Mas não desista. Não desista e aproveite que você está lá. Aproveite cada minuto. Sorria e tire daquilo tudo de melhor. Por pior que possa parecer a sua corrida, por pior que possa parecer o momento da sua vida, tem sempre coisas incríveis para você tirar dela.

Como quase nove quilômetros percorridos pelo Centro de São Paulo, só me resta chegar em casa, dar um cheiro nas três gatorras e no Tupã e tomar um bom e longo banho. Fiquem em casa, usem máscara e respeitem os artistas e os especialistas.

(Daguito Rodrigues)

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