Papo Afinado: Maria Alcina

📷 Robson Fernandes/Estadão

Há 50 anos, a esfuziante menina magrinha, recém chegada aos 22 de idade, colocava o público que lotou o ginásio do Maracanãzinho, literalmente, no bolso. Era a última edição do FIC (Festival Internacional da Canção) e “Fio Maravilha”, de Jorge Benjor, não podia ter melhor intérprete. Naquela época os festivais de música tinham, no público, o mesmo impacto e interação que tem hoje um programa como o BBB, por exemplo. Tinha torcida por determinada música, todos comentavam o assunto nas ruas, tinha faixa e vibração(e também vaias históricas) na plateia. Aquela noite foi o lançamento nacional de Maria Alcina e, de lá pra cá, a alegria dessa grande artista permanece. E é também com grande alegria que a recebemos aqui, pra um papo bem afinado. Agradecemos ao amigo e produtor cultural Rodrigo de Araujo que fez a ponte entre nós e a artista.

FCEF – Fale um pouco sobre sua infância em Cataguases e como a música chegou em sua vida.

MA – A minha infância foi e é, porque a gente carrega a infância a vida toda, muito feliz. Eu fui uma menina que brinquei muito, no quintal, na rua. Menina fuzarqueira mesmo, né? E a música entra, exatamente por isso. Na escola onde estudei, o Grupo Escolar Cel. Vieira, nós tínamos aulas de canto, que eu gostava muito. No 4o ano primário (atual ensino fundamental), eles iam fazer uma coroação (ritual da igreja católica em que pessoas colocam uma coroa em uma imagem de Maria) e selecionaram algumas crianças para ver quem ia fazer uma parte da coroação e a minha voz sobressaiu porque é contralto. Uma menina com voz de contralto. Eu era muito magrinha, com aquele vozeirão…então chamei atenção e fiz a coroação. Me lembro que eu estava com uma roupa branca e segurava um coração vermelho. Começou assim. Na verdade, eu começo a cantar, descubro a música em mim, na escola, estudando canto. Cantávamos os hinos, coisas assim. D. Margarida Pondé era nossa professora de canto. E ali eu comecei a desenvolver. Cantei na Igreja Santa Rita de Cássia, no coral…onde tinha festa eu estava cantando. E aí comecei, até encontrar outras pessoas, grupos de teatro, poesia, cinema e fui me desenvolvendo até chegar aqui, nesta entrevista. É muito bacana.

FCEF – Quando e onde você pisou em um palco pela primeira vez?

MA- Com a questão do desenvolvimento da percepção, da música, onde tinha festa, na escola, no grupo, por exemplo, eu estava cantando. Tinha festa junina e eu cantava. Principalmente no Parque Santa Rita. O palco desse parque era um lugar onde eu sempre cantava. Eu tinha uma colega que também cantava e dançava. A gente era meio que uma dupla. Outra coisa que acho muito bonito na minha carreira é ter feito a minha plataforma de trabalho, de desenvolvimento, todo em minha cidade, com os amigos, com os músicos, com tudo que me aconteceu. Aí teve o 1o. Festival Audiovisual de Cataguases, onde estiveram artistas consagrados da música brasileira, júri e participei. Foi uma coisa maior, onde as pessoas me viram. Mas eu cantava no Parque Santa Rita, na praça. Onde tinha uma festa me chamavam e lá ia eu cantar.

FCEF – Como foi o convite pra cantar no FIC, em 1972?

MA- Eu fui descoberta pelo dono da boate “Number 1”, do Rio de Janeiro, o Mauro Furtado. Eu estava cantando na boate, há alguns meses, e era um lugar muito frequentado por músicos, produtores, empresários e artistas em geral, e o Solano Robeiro (pessoa fundamental na história dos festivais de música do Brasil) me assistou cantando lá no Number 1 e me convidou pra participar. Eu cantei “Fio Maravilha”, hoje também chamada de “Filho Maravilha”. A direção musical foi do maestro Severino Filho e toda uma grande produção que me levou ao FIC. Foi o meu lançamento nacional.

FCEF – Como foi se sentir aplaudida pelo Maracanãzinho em peso?

MA- Foi maravilhoso. E o fato de eu assistir agora, neste tempo, 2021…eu estou sempre olhando, no You Tube. Outro dia eu percebi uma coisa maravilhosa que foi a participação do público junto comigo. Tem bandeira brasileira, faixa, bandeira do Flamengo, a torcida do Flamengo, nossa, é maravilhoso. Não foi só aplauso. Teve a participação do público cantando. Às vezes fico olhando a apresentação e tem um crescendo na parte musical, da primeira pra segunda parte que explode. E, musicalmente, também tem isso. Eu não tinha percebido ainda. Quanto mais eu vejo, mais elementos eu tenho. E aquela explosão da repetição da música, do refrão, é uma coisa espetacular. É um grito, todo mundo dançando, de braços abertos e o som acompanha a harmonia, o coral. Eu danço, pulo muito porque eu fiz o movimento dos jogadores, né? E, ao pular, de repente tudo dança, o Maracanãzinho dança. A roupa pula, o cabelo dança, vai lá pra cima, solta o grampo. Todo mundo aplaude, cantando. É maravilhoso, emocionante demais. Eu acho que nunca vou definir, nem pra mim, que emoção é aquela. Mas que ela existe, existe. Ela está lá. É o aplauso mais um caminhão de emoções.

FCEF – Fale um pouco sobre a censura que sofreu nos anos 70.

MA – Foi em 1974. Censura por comportamento. Eu fiquei sem poder aparecer, nem cantar, nem fazer show durante 20 dias. Respondi a um processo. Foi problema comportamental que aconteceu. Não foi legal porque é uma coisa que te marca muito, mas acho que sobrevivi muito bem a tudo isso, tanto na época, e agora, porque as pessoas só tomaram conhecimento de tudo isso por causa do historiador Rodrigo Faour, que quando a Warner relançou meus cds, ele escreveu no release, senão isso não seria falado, no sentido de que era uma coisa que estava passando. Acho que foi importante trazer à tona um problema que aconteceu comigo, porque às vezes a coisa fica tão abafada e isso também é censura. Já é também o processo de censura. Então ele revelou isso, mas agora é uma coisa que já passou. Foi importante ele revelar pra se tomar conhecimento que tudo é perigoso, mas tudo é divino e maravilhoso também.

FCEF – Como foi a experiência de ficar anos sem gravar?

MA – Foi um tempo em que abri frentes de trabalho, porque não tendo gravação, apareceram outras oportunidades. Eu fui jurada de televisão, sempre fiz shows. Eu tinha minhas músicas de sucesso, e em cima disso, eu montava os shows e desenvolvi muito a questão do palco, porque vivia mesmo dos shows. Trabalhei em todos os lugares que você pode imaginar, e desenvolvendo sempre o personagem. Já na televisão eu investi muito na parte do visual para marcar a minha figura, pra não deixar o público esquecer de mim. Eu buscava lugares pra cantar, não deixava de fazer isso, mas foi difícil mesmo. Porém eu peguei uma experiência que foi muito boa pra mim já que consegui fazer um trabalho desenvolvido em cima de tudo isso, um personagem mesmo. Uma cantora, a pessoa que vai à televisão, que se comunica de outras formas. Foi um aprendizado.

FCEF – E a retomada das gravações, como foi?

MA – No início da década de 2000, eu fui convidada, pelo grupo Bojo, através de seu diretor, Maurício Bussab, para participar de um festival chamado “Contradição”, no Sesc Pompéia. O projeto era pessoas da música que se encontravam com quem estava começando. Meu trabalho entrou na internet, musicalmente falando, através desse projeto. Eles me convidaram, eu aceitei e fizemos um belíssimo trabalho, um belo show e gravamos um cd chamado “Agora”. Em 2009, o Maurício produziu “Maria Alcina, confete e serpentina”, com que eu ganhei o Prêmio da Música Brasileira de melhor cantora e melhor cd daquele ano. Foi um acontecimento na minha vida e o Maurício também ficou feliz porque foi premiado. Eu retomo ali. É a música eletrônica, a música brasileira de outra forma. Um trabalho espetacular que eu tenho com o grupo Bojo e passo a ter o público da internet também, que é o público dele. Um trabalho super feliz.

FCEF – De onde veio a inspiração para o seu visual?

MA – Eu sempre tive pessoas que me deram alguns toques, desde o início da minha carreira, no Rio de Janeiro. Eu fui evoluindo e o que eu não sabia, eu inventava, porque isso também é importante. Maquiagem, por exemplo. Eu borrava e continuava. E do borrão eu fazia um personagem. Eu sempre gostei de inventar, roupas de papel, um vestido de vitória régia, enfim, a música, pra mim, sempre tem também a parte do personagem. É uma coisa meio de teatro. Sempre tive pessoas que me deram luz nesse caminho. Atualmente eu tenho um figurinista e maquiador, o Guilherme Rodrigues, aqui de São Paulo, que está fazendo esse trabalho comigo. Foi quando fiz o cd “De normal bastam os outros” em que ele fez todo o trabalho visual e nós continuamos trabalhando juntos e o resultado é estupendo, porque ele pegou a Maria Alcina de volta. Está fazendo algo que se encontra muito com o público. Muito colorido, muito divertido, bonito, criativo. Está indo muito bem o trabalho que o Guilherme Rodrigues está fazendo comigo, aqui em São Paulo.

FCEF – Fale sobre seus lançamentos mais recentes: cd e dvd.

MA – Tenho o cd e dvd “De normal bastam os outros”, o cd em que canto Caetano Veloso, “Espírito de tudo” e o “Maria Alcina in Concert”, que é com a Orquestra SP Pop Symphonic Band, com a condução do maestro Ederlei Lirussi. Esse são os trabalhos recentes. Agora, durante a pandemia, o meu produtor lançou um EP com a música “Eu vou batê pá tu” do Chico Anísio e do Arnaud Rodrigues. Esse é o meu trabalho musical mais recente.

FCEF – É verdade que vem um filme por aí?

MA – Sim! Chama-se “Maria Alcina, a alegria do Brasil”, de Elizabeth Martins, cineasta mineira. Vai falar da minha vida, mas tendo outras interferências artísticas que estão ligadas ao trabalho que faço. Estou muito feliz pelo convite que recebi dela, não tenho nem como expressar essa felicidade. E a Elizabeth é uma cineasta premiada, é muito dinâmica, criativa, então vai juntar essas duas malucas e vai sair uma coisa espetacular. Confio que vai pegar o público com muita alegria e todos vão gostar, porque quando a gente gosta de fazer algo ligado ao trabalho para o público, tudo se concentra e dá um resultado espetacular. Esse filme vai ser uma grande viagem. Nossa e junto com o público. Junto com todos vocês, viu gente? Vamos fazer bastante farra!

FCEF – Em 2016 você participou de um projeto do Sesc em que Filipe Catto também estava. O que você pode nos dizer sobre ele?

MA – Ah, que lembrança boa! Zélia Duncan e o Filipe fez o show depois de mim. A gente se encontrou lá e já fiz mais dois ou três shows em que Filipe também participava, aqui em São Paulo. Filipe é um cantor extraordinário, uma voz diferente. Aquela voz assim, com outra tonalidade. É muito interessante. Minha voz tem um tom, a dele outro. É um homem muito bonito e um cantor espetacular, diferente. Filipe Catto é um cantor diferente. Somos amigos. De estarmos em produções juntos, aqui em São Paulo.E agora tenho acompanhado ele em suas lives. Está fazendo um outro tipo de trabalho, né? Eu adoro isso. Gosto muito disso, vem muito de encontro ao meu trabalho, meu jeito de trabalhar. Bravo, bravo, Filipe Catto!

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NOTA DE FCEF: Sincronicidade absurda! Assim que fechávamos essa entrevista para a postagem, recebemos a notícia que agora, no início de junho, Maria Alcina vai gravar um projeto que tem a ver com a exposição de Madalena Schwartz – Metamorfoses – que está acontecendo no IMS de São Paulo e que terá também as participações de Filipe Catto, Ciro Barcelos e Alma Negrot, com produção de Rodrigo de Araujo. Logo que tivermos mais detalhes, vamos divulgar.

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