Margens e clareiras:Um ano depois

📷 Klaudia Alvarez


UM ANO DEPOIS

A primeira vez que vi Ricky Scaff, ele não me viu. Eu o conhecia por fotos, ele só de escutar falar de mim. Não conversamos. Eu estava na fila do caixa do primeiro Mundo Pensante, prestes a ser atendido, quando ele surgiu perguntando à funcionária se era ali que se pedia bebida. Fiquei pouco na festa e fui embora.

A última vez que vi Ricky Scaff, mal nos falamos. Eu estava numa reunião online — quem diria que elas se tornariam padrão — e ele passou em casa para buscar o Tupã. Me levantei segurando o lap top, ouvindo a reunião com fones e respondendo às perguntas que me faziam, cumprimentei e voltei pro sofá. Ricky foi para a varanda ouvir o som da cachoeira, como gostava de fazer. Tomou um café com o Filipe e foi embora.

Em 8 de dezembro, eu, Ricky, Filipe e Tupã passamos o dia numa festa de rua — saudades. Como eu e nosso mago gostávamos de fazer quando íamos juntos a ferinhas (era muito comum), fomos de barraca em barraca degustando geleias, pães, torradas, patês e muita, muita cachaça. Bebemos, dançamos, conversamos, sentados em cadeiras no asfalto, numa festa de alguns quarteirões e quatro pistas de música. Gratuita como deve ser. Foi um dia lindo, uma tarde incrível. Foi uma despedida.

Em 8 de março de 2020, Ricky deixava o plano material para se reconectar ao todo, finalizando a eterna busca de sua vida pelo espiritual e por planos mais etéreos.

Ricky não viveu pra ver o Love Catto Live, nem a paixão entre Tupã e Susana, nem a vida em harmonia plena entre Tupã e as Morcecatts. Mas Ricky ouviu o próximo álbum de estúdio do Filipe, ainda em versão demo. Eu me lembro bem.

Escutou atento — era assim que ele gostava de apreciar discos pela primeira vez. Exigia uma caixa de som adequada, silêncio total e atenção irrestrita às músicas. Perfeito. Comentou, elogiou e se surpreendeu. Foi aos prantos na música final — não se sabe se aquela ordem ouvida por ele será mantida — e sorriu. Sorriu muito.

Músicas, lágrimas e sorrisos. Arte e Cultura. Espiritualidade e afeto. Aconchego. Muito aprendizado e muita escuta.

Nada pode ocupar o espaço, o enorme buraco deixado por Ricky Scaff. Mas quem conviveu com ele de verdade, sabe que a melhor maneira de honrar a luz que ele foi na Terra é lembrarmos com carinho de todos aqueles momentos, de todas aquelas histórias. É vivermos do jeitinho que ele nos ensinou: com leveza, liberdade e uma inspirada e incessante procura pela evolução sem fim.

Um ano depois, quase tudo mudou. O mundo, o país, a democracia, a economia. Nossas vidas e nossas rotinas. Nossa maneira de ver o mundo. De lidar com a solidão. De lidar com a falta e com a ausência. Com a escassez. Com nossos próprios pensamentos. Mudou nosso jeito de viver.

Ricky partiu no último capítulo daquele mundo de antes. Não haveria espaço para ele nesse último ano de negacionismo e morte. De falta de empatia. Um ano de egoísmo, violência e ignorância. Ricky não poderia viver nesse mundo, ah não, jamais. Mas nos deu todas as ferramentas para que, juntos, possamos reconstruir nossa sociedade das cinzas, criando uma nova realidade mais justa, honesta e amorosa. Ele nos ensinou. E nós passaremos esse aprendizado para a frente.

Vida longa a Ricky Scaff. Vida longa aos que nos ajudam a melhorar o mundo.

“O novo sempre vem.”

(Texto de Daguito Rodrigues)

2 Comments

  1. Texto maravilhoso de Daguito. Sinto muita falta dele, assim como todos que o conheceram. Essa luz há de brilhar pra sempre. Salve amado Ricky. Você foi luz, humanidade, bondade. Você faz muita falta.

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