Caixinha de Som: Carlinhos Hartlieb

Arte de Alboreto Fortunato

CAIXINHA DE SOM é uma coluna que vai falar sobre discos de artistas que merecem sua atenção. São artistas independentes ou mesmo aqueles que lançaram seus trabalhos por gravadoras, mas que por algum motivo não chegaram a ser conhecidos do grande público, mesmo tendo muita qualidade. Vamos falar de vinil, mas também de cds. A ideia é deixar aqui sugestões para que em sua próxima visita a um sebo, você fique de olho pra ver se acha alguma dessas pérolas sobre as quais vamos falar. Essa caixinha só terá sons muito interessantes.


LP UM RISCO NO CÉU – CARLINHOS HARTLIEB – Nova Trilha 837 762-1 – 1988

Lado A:
1- Relativa paz – Para Giba (Carlinhos Hartlieb)
2- Um no outro (Carlinhos Hartlieb)
3- Nós que ficamos sós (Carlinhos Hartlieb/Bebeco Garcia)
4- Linda (Carlinhos Hartlieb/Hermes Aquino)
5- Pedaço de areia e mar (Carlinhos Hartlieb)

Lado B:
1- Risco no céu (Carlinhos Hartlieb)
2- O prazer é nosso (Carlinhos Hartlieb)
3- Como o vento sul (Carlinhos Hartlieb)
4- Criar (Carlinhos Hartlieb)
5- Fascinante amanhecer (Carlinhos Hartlieb)
6- É tão bom saber (Carlinhos Hartlieb)


Direção artística: Ayrton dos Anjos; Coordenação geral: Berê; Músicos que participaram: Rudi Cesar, Paulo Roberto Marreco, Gilberto Lima, De Santana, Pedro Figueirefo, Choco Ferreti, Bebeco Garcia, Ed Galhardi, Pery Souza, Kim Ribeito, Luisinho Santos, Fernando Pesão, Flávio Chaminé, Vânia Martins, Selma Martins, Glauco Sagebin e Zé Flávio Oliveira. Músicos convidados: Loma, Hernes Aquino, Ananda, Gabriela, Michelle, Catalina, Florencia, Fernando e Valentina.



Se você não viveu nos anos 70/80 em Porto Alegre, provavelmente nunca ouviu falar em Carlinhos Hartlieb. O que é natural, pois o nosso país é imenso e tem talentos incríveis que, infelizmente, passaram e ainda passam despercebidos do grande público, mas sempre vale a pena trazer à tona nomes que merecem ser conhecidos, reconhecidos e reverenciados.


Carlos Hartlieb, gaúcho de Porto Alegre e de descendência alemã, começou a tocar violão e baixo ainda na adolescência e apesar de compor suas canções, não se dedicou logo à música. Estudou História Natural na UFRGS, sem terminar o curso e resolveu estudar Comunicação na USP, sem também concluir essa graduação. No final dos anos 60, de volta à sua cidade, resolve participar de um festival de música com a sua composição “Por favor, sucesso”, que vence o concurso e logo depois é gravada pelo grupo Liverpool, em um disco que marcou época e é citado em todas as listas de Lps antológicos, psicodélicos e raros do Brasil. O “Liverpool” é considerado o primeiro grupo do rock gaúcho e mais tarde trocou seu nome para “Bixo da Seda”. Carlinhos Hartlieb nunca fez parte do grupo, eles apenas o acompanharam no festival.


De volta à São Paulo, Carlinhos vai trabalhar com Zé Celso Martinez Corrêa, no Teatro Oficina, onde aprende muita coisa ligada às artes cênicas, iluminação, atuação e produção artística. Volta para Porto Alegre novamente e se dedica a vários projetos culturais, sem deixar de fazer seus próprios shows, com suas canções. No final dos anos 70 ele participa de um disco que reunia vários compositores e cantores da sua faixa de idade como Nelson Coelho de Castro, Bebeto Alves e Raul Ellwanger: o Paralelo 30. Sempre com um espírito voltado pro coletivo, Carlinhos passa a trabalhar na Secretaria de Cultura do Estado e realiza muitos projetos, sempre valorizando seus colegas e promovendo caravanas para levar a arte gaúcha a outros locais. Em 1983, ele resolve que é hora de se dedicar a gravar o seu primeiro disco e se desliga da Secretaria de Cultura em março, quando começa o processo de gravação independente de seu disco. Em novembro, com a gravação de “Um risco no céu” pronta, ele peregrina por várias gravadoras, mas não consegue que nenhuma decida abraçar seu projeto.Em janeiro de 1984 ele vai pra uma cabana rústica que tinha construído, na Praia do Rosa, em Santa Catarina (a mesma da capa do disco) para relaxar e ficar perto da natureza que tanto amava. No dia 3 de fevereiro seu corpo é encontrado na sua cabana. O laudo concedido é de suicídio por enforcamento, mas o fato intrigante é que o corpo estava na mesma posição em que o corpo do jornalista Vladimir Herzog foi achado em sua cela. O laudo médico também atestou que ele não apresentava as lesões que são caracteristicas de quem se enforca. Mesmo assim, a investigação foi encerrada rapidamente e o caso concluido como suicídio mesmo. Uma morte suspeita e sem solução até hoje, mesmo com um jornalista tendo investigado e apontado várias evidências que indicam um assassinato.

Carlinhos Hartlieb morreu sem ver seu disco lançado. A mobilização dos amigos e colegas de profissão foi que possibilitaram não apenas o lançamento do disco, quatro anos depois, mas também a liberação do registro de vários shows seus que foram gravados. Um documentário sobre ele foi feito, assim como um livro contando sua história. Em 2001 o Prêmio Açorianos foi dado ao conjunto de sua obra e uma praça, no bairro Farrapos, em Porto Alegre, tem o seu nome.


Carlinhos Hartlieb, um talento da música gaúcha que o destino não permitiu que brilhasse em todo o país, mas felizmente a obra aí está e basta você pesquisar no You Tube que tem vários shows em que ele participou e assistir ao documentário. Vale muito a pena.

Capa do LP “Risco no Céu”
Contra capa do LP

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