Papo Afinado: Valéria “Houston” Barcellos!

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Foto de Joe Nicolay

Ela é gaúcha como Filipe e o conheceu bem no início da carreira dos dois, nos bares de Porto Alegre. Hoje ambos tem suas carreiras consolidadas e preservam uma amizade fraterna e sempre que podem, trabalham juntos. FCEF tem o prazer de conversar com a cantora e atriz Valéria Barcellos!

FCEF – Nascida no interior do Rio Grande do Sul, na cidade de Santo Ângelo, imagino que você tenha passado por muita coisa durante sua infância e adolescência, mas eu não queria falar de coisas tristes. Conta pra gente o que você lembra de bom daquela época.

VB – Eu tive uma infância bem feliz, na verdade. Dentro das possibilidades, é óbvio, mas fui uma criança feliz. Eu brincava muito sozinha. Eu lembro de coisas muito pontuais. Recentemente estava fazendo um trabalho de corpo  bem bonito para um filme que vou fazer e eu entro como uma cantora do futuro, a música do futuro. E nessa preparação de corpo, eu lembrei de uma cena de quando eu era criança. No interior, tem um cara que passa a cavalo e propõe que se tire uma foto. E, naquela época demorava 2 meses pra foto chegar. Ai, esse cara passou e lembro que eu estava brincando no chão, fazendo bolinho com a terra, com a mão suja de barro. E me lembrei do cheiro do sabão em pó. Da minha mãe lavando roupa. E ela lavou minha mão, a minha cara, rápido. Aquele cheiro de sabão em pó me remeteu à minha infância. E me lembrei dessas coisas. Eu brincando na caixa de areia, eu cantando. Minha mãe reunindo as amigas e me pedindo pra cantar. Ela dizia: faz aquilo que tu faz pra mim! E eu cantava Kate Bush! Minha mãe nunca deixou faltar nada pra mim. Eu sou a filha mais velha, de um trio. Tem uma moça com 36 anos, um menino com 20, mas pra mim é como se tivesse 2, porque é meu bebê ainda! Eu sou adotada pelo pai dos meus irmãos. Eles chegaram quando eu já tinha uns 6, 7 anos. Minha infância foi tipica de uma cidade do interior, mais tranquila, onde se pode brincar na rua, de bola, de bambolê.

Eu ganhei meu primeiro festival aos 7 anos. Eu estava cantando, e a minha professora ouviu e disse: nossa! Que voz é essa ? Eu levei um susto. E logo em seguida ia ter um festival na escola e ela disse que eu ia representar a sala. Aí eu disse que não, que não queria. Meu sonho era ser professora! Eu adorava o cheiro de mimeógrafo que a minha professora tinha (risos). Eu achava maravilhoso que ela sabia escrever, sabia ler, aquela letra bonita e a gente, criança só sabia fazer bolinha… Eu achava aquele diário, todo enfeitado da professora, tão lindo e queria ser como ela. E eu tinha uma preocupação que era se as pessoas me ouvissem cantar, iam dizer pra minha mãe que a minha voz era esquisita, de menina, e ela ia desconfiar de alguma coisa. Como se ela não soubesse (risos). Em seguida eu fui atuar, fazer teatro infantil, mas já adolescente, com uns 14 anos. Sempre gostei de me envolver com essas atividades da escola. Depois voltei pra música e ficava alternando com o teatro.

FCEF – E sua ida pra Porto Alegre, quando aconteceu?

VB – Chegou um momento em minha vida que Santo Ângelo ficou muito pequena pra mim. E eu não tinha mais condições financeiras de viver ali. Minha mãe tinha falecido, meu pai tinha que meio me colocado pra fora de casa, a banda onde eu cantava já não me satisfazia mais, enquanto pessoa. Eu era a crooner desde o ano 2000, mas em 2005 eu decidi que não queria mais. Eu tinha que cantar vestida de menino, eu apertava o peito com uma faixa. Comecei a pensar onde o meu gêneto, a minha sexualidade importava ali, mesmo eu não tendo muita noção disso na época. Eu pensava: porque eu ser eu atrapalha? Aí eu decidi ir embora. Eu não tinha mais dinheiro e ninguém me dava emprego. Santo Ângelo é de colonização alemã. E eu, preta, trans. Todos sabemos como é o Brasil. E aí chegou o dia: “vou pra Porto Alegre, tchau!” (risos). E fui com a cara e a coragem. Uma semana depois eu já estava trabalhando no Bar Venezianos, na Cidade Baixa, e estou lá até hoje. 14 anos se passaram. Falando assim parece que foi fácil, mas não foi! Teve muitas coisa no meio e eu agradeço a cada coisa que me aconteceu, porque isso me tornou a pessoa que sou hoje e eu não queria que fosse diferente.

FCEF – E como surgiu o convite pra você cantar no Venezianos?

VB – A dona do bar me viu cantando em um videokê.  Um amigo querido, o Jeff, me levou lá porque eu não tinha nem o dinheiro para a entrada. Aí eu cantei uma música da Whitney Houston. Estava um barulhão e, de repente, as pessoas foram ficando quietas, pra ver quem era, e eu, escondidinha. Quando eu terminei a canção, foi uma gritaria! E recebi o convite para cantar na semana seguinte. E eu nem sabia como iria porque eu morava em uma cidade próxima, chamada São Leopoldo, na casa de uma tia, e não tinha o dinheiro pra ficar me deslocando toda hora. Aí falei com minha tia que eu poderia arranjar trabalho no bar e ela me deu o dinheiro. E assim eu comecei e canto lá até hoje. A Vera era a dona do Venezianos e me refiro a ela como Vera Cruz, aquela que me descobriu, como o nome antigo do Brasil, terra de Vera Cruz (risos). Sempre que eu volto pra Porto Alegre, me apresento no Venezianos. É um barzinho pequeno, que tem uma parte em cima também. Foi lá que conheci a cantora gaúcha Adriana Deffenti. Eu já a conhecia de nome e um dia ela foi lá, me assistiu e veio falar comigo dizendo que tinha uma música que era perfeita pra mim. Era “Controversa”. Ela cantou pra mim e falei: ” essa música é minha!” Aí ela disse: “toma, é sua”. Muitas pessoas pensam que fui eu que compus.

FCEF – Me fala sobre o prêmio ” Mulher Cidadã”, que você ganhou em 2016.

VB – Este prêmio foi uma polêmica! (risos). Eu não sabia da importância dele. Fiquei sabendo depois que é uma das maiores honrarias concedidas a mulheres, no Rio Grande do Sul. Logo, sendo eu uma mulher trans, e as pessoas não me considerando nem mulher nem cidadã, que é o nome do prêmio, ia dar polêmica. Foi a Manuela D’ Ávila, hoje uma amiga, que propôs este prêmio pra mim, na categoria cultura, serviços prestados e tal, e eu concorri com a Eva Sofer, a diretora do Theatro São Pedro! Ainda bem que ela ganhou no ano seguinte! Eu fiquei muito mexida com a reação das pessoas. Tentaram impedir que eu ganhasse, mas como na minha documentação eu já tenho Valéria Barcellos, sexo feminino, então… Eles foram procurar a Justiça pra tentar impedir, mas não conseguiram. Mesmo assim, eu levei a minha certidão de nascimento e qualquer coisa eu mostrava e não teriam o que falar. O engraçado é que eu estava ao lado de uma freira que também ia ser homenageada e ficamos de mãos dadas. Foi uma cena muito bonita. Eu agradeci dizendo que embora eu soubesse que pra eles eu não era nem mulher nem cidadã, porque sou considerada qualquer coisa, menos mulher e nem cidadã porque eu não tenho o direito de ir ao banheiro que eu escolho, com relação ao meu gênero e nem sequer o próprio nome, que eu tive que entrar na Justiça e lutar por 3 anos e meio. E dediquei o prêmio às mulheres trans e pretas. Em quase 20 anos da existência deste prêmio, eu fui a primeira mulher trans a receber e espero que outras também ganhem.

FCEF – Você chegou a participar de algum destes programas de TV que  mostram novos talentos da música?

VB – Eu tinha muita vontade de participar destes realities. Eu participei, em 2012, do Astros, no SBT e fui até a semi final. Eu tinha essa vontade, pela projeção. Só que eu não tinha percebido que eu já tinha essa projeção. Eu posso fazer um show pra 5 pessoas, pra 10 e essas pessoas sairem tocadas dali. Isso sim, é projetar-se em algo, para algo, e tocar alguém. Naquela época eu não entendia isso. Hoje, se rolar rolou, se não rolar, eu nem procuro mais. Mas chegaram a me procurar, dizendo que eu era um “produto” interessante, fiquei puta com  essa palavra, mss depois entendi que é o termo técnico que eles usam mesmo. Não sei se hoje eu participaria, mas não vou dizer que não. A pedido deles mesmo, me inscrevi no The Voice, mas não rolou. Eles disseram que já tinha alguém com meu perfil, só que a pessoa era drag e eu trans, mas eles confundem mesmo. Fiquei meio que em stand by, mas hoje vejo que minha profissão é o palco mesmo.

FCEF – E a sua participação no Festival da Música Francesa, como foi?

VB – Foi lindo. Eu estava muito nervosa nesse dia, porque a minha música tinha dois violões e as pessoas com banda completa. Este festival é bem conhecido e referência no Brasil todo.  Acontece nas Alianças Francesas do pais. Foi também em 2012 que participei e ganhei o prêmio que era uma viagem à Paris. Uma amiga me falou sobre o festival e resolvi me inscrever. Gravei a canção, em francês, no estúdio de um amigo que produzia jingles. Fechava às 17h30 as inscrições e levei às 17h20 (risos). Me chamaram, cantei, não achei que fosse ganhar, estava focada no jantar que teria direito em um restaurante chic de Porto Alegre, o prêmio para o terceiro lugar. Anunciaram o resultado do 3o lugar e pensei, perdi o jantar. Anunciaram o 2o e eu já fui pro camarim me trocar pra ir embora. Aí vejo o diretor da Aliança Francesa na porta me olhando e não entendi o que ele estava fazendo ali. Aí perguntei: quem ganhou? E ele disse: você! E eu: mentira! E ele mandou eu correr porque já estavam me chamando. Era um sonho muito distante pra mim, ir à Paris. Eu fui faxineira de uma escola de idiomas em Santo Ângelo.  Um dia entrei em uma das salas, pra limpar, e tinha um cartaz da torre Eifell. Olhei e pensei, meu Deus, que lugar lindo. Um dia quero ir lá. E na mesma hora pensei que eu estava louca e que, talvez dali a 4 encarnações, eu iria. Voltei a fazer meu trabalho e anos depois acontece isso e eu chego em Paris, à noite. Passo em frente à torre  e ela se ilumina toda. Chorei copiosamente e achei que ia morrer. Acabou que fui assaltada na Garre du Lyon, quando ia pra Suíça. Mas tenho vontade de voltar. É um lugar que me apaixona muito. Já falei pro meu namorado que se for pra casar, tem que ser aos pés da torre. Senão não adianta. Nem tenta! (risos) É um lugar que me trouxe nostalgia disso que aconteceu. De eu estar trabalhando na limpeza, em frente à foto da torre, e de repente, ela está ali, na minha frente, iluminada. Em Paris me apresentei pra alguns brasileiros que mão vinham aqui faz muito tempo, tipo 20 anos. Foi um projeto de um brasileiro que vive lá e leva artistas pra se apresentarem. Eu saí de alma lavada porque eu estava cantando coisas que pra mim eram comuns, canto sempre, mas pra eles teve outro significado. Pretendo voltar à cidade. Quem sabe no próximo ano.

FCEF – Fale um pouco sobre o projeto do Galeria In, no Rio.

VB – Sim, um projeto lindo criado pela Alessandra de Callafiori e o Cláudio Lins, que são os donos e são casados. Começou por uma loucura minha, de querer ir pro Rio. Comecei a agilizar com uns amigos e falei pro Rafa: nós vamos pro Rio. Como, eu ainda não sei, mas vamos. Consegui as passagens e fomos. Com o encerramento da peça BR Trans do Silvéro Pereira a festa seria no Galeria In. Eu pedi pra cantar. Mandei o projeto com o show de 1h. Ai me disseram que não era certo de rolar, cortaram pra meia hora e acabou sendo de 3 músicas. O Rafa ficou meio triste e eu falei que seriam as 3 melhores músicas e que ele aguardasse que íamos cantar mais. E foi o que aconteceu. Quando chegamos na 3a, eu me despedi e as pessoas pediram mais. Ai eu perguntei: posso continuar ? (risos). Ai me chamaram pra fazer mais shows. Primeiro bimestralmente, depois mensalmente, quinzenalmente e agora estamos bimestralmente de novo e com convidados. Filipe foi, Maria Gadu, Toni Garrido, um monte de gente legal. É um projeto carinhoso que foi criado pra mim. Eu fico muito tocada e impressionada com o carinho das pessoas por mim porque é uma coisa que a gente não entende muito bem.

FCEF – A peça ” Entrega para Jezebel”, como surgiu pra você?

VB – Eu me apaixonei pela peça. Li o texto e disse: quero fazer. Comprei a passagem com meu dinheiro. O diretor, Rodolfo Lima, me disse que era uma coisa muito sofrida, sem muitos recursos. E eu disse que não queria saber. E está sendo lindo porque é uma peça feita com um elenco trans. Três meninas trans  e pretas no elenco, tem o menino que faz a luz e também é trans, então é uma invasão trans. Foi uma coisa que me motivou, vir pra SP e fazer. É mais uma capital que se abre. Esta peça foi contemplada pelo PROAC -LGBT, um projeto que era do estado de SP, mas acho que já acabaram com ele. Eu meio que me ofereci pra participar dessa peça. Um amigo do Rio me falou sobre ela, que estavam convocando o elenco e falei: mas é SP! Mas resolvi tentar. Mandei meu currículo. O Rodolfo me respondeu e disse que queria sim uma trans pra ser a protagonista. Aí ganhei o papel. Já fizemos uma temporada anterior e agora estamos em cartaz durante  todo o mês de junho, todas as segundas, terças e quartas feiras, às 20h  na Oficina Cultural Oswald de Andrade. É grátis e os ingressos são distribuídos às 19h. São apenas 30 expectadores por vez  e aguardo todos vocês lá!

FCEF – E o Rafael Erê, que te acompanha há tanto tempo,  é gaúcho também?

VB – Sim, ele é de Porto Alegre. Eu o conheci no Venezianos porque ele se apresentava nos meus intervalos. O músico que me acompanhava virou evangélico e não queria mais tocar e aí o Rafa entrou. Nós nos entendemos super bem. É só eu olhar pra ele e ele sabe o que quero. Já são 12 anos de união musical. Todo lugar que eu posso, levo ele junto, porque me sinto muito à vontade, mesmo.  Ele é a paciência em pessoa.

FCEF – Você abrindo o show da Kate Perry, como foi?

VB – Foi um convite, lá de Porto Alegre, porque a cidade tem uma lei que todo artista internacional que se apresenta, tem que ter um artista local abrindo. Essa lei devia existir em todas as cidades! Foi um amigo meu, que estava na produção do festival, que mostrou meu vídeo pra ela. Ela adorou e foi tudo maravilhoso, apesar do meu nervosismo porque foi no dia do assassinato da Marielle.Eu soube da notícia pouco antes de entrar e já fui com aquela energia de precisamos fazer algo. Eu estava muito abalada e nunca tinha visto um público  tão grande. Foi na arena do Grêmio. A Kate Perry viu minha passagem de som e fiz o meu repertório. Ela pediu pra me conhecer depois e foi muito legal porque ela me agradeceu e ainda me chamou pra beber. Aí ganhou meu coração na hora (risos). Por um bom tempo fiquei sendo a “cantora brasileira que abriu o show da Kate Perry”. Não falavam meu nome. Mas é um bom titulo…(risos).

FCEF-  O seu contato com o Almério, como aconteceu?

VB – Eu conheci o Almério na “Balada Literária”, que é um evento que acontece aqui em SP, organizado pelo Marcelino Freire. O Almério tem alma no nome. Não tem como ele não ser um amor. E as coisas aconteceram para que eu conseguisse fazer um show com ele no Rio e foi lindo. Depois fizemos aqui na Casa de Francisca, uma homenagem a Itamar Assumpção, que também foi incrivel. E nesse dia a Alice Ruiz e a Alzira E. me prometeram uma música e vou cobrar porque está gravado (risos). E estamos articulando um show juntos, Almério e eu,  lá em Caruaru. São as redes que se formam e juntam pessoas de uma forma sólida e permanente. Tipo a do Homem Aranha, que não se rompe (risos).

FCEF – E o Johnny Hooker?

VB – O Johnny é um amigo pessoal. Ele fez um depoimento tão bonito sobre mim no show que fiz com o Caio Prado, Diego Moraes lá no Galeria In. Neste depoimento o Johnny disse que eu sou uma alma superior, que estou em outra vibração e as pessoas não entendem (risos). Eu acho que ele também está nessa vibração. Ele é de uma delicadeza fora do palco…

FCEF – Você fez um financiamento coletivo pra gravar um cd há algum tempo. Como ficou o projeto?

VB – Sim! Eu precisava de 40 mil reais pra fazer o projeto.  Consegui 10 mil e já gastei 15 do meu próprio bolso…e ainda não consegui entregar o disco.  Ele se chama “Sexo Frágil” e ainda estou gravando. Acabei de terminar a faixa título. Ela era pra ser pop e virou um arrocha. Tem a produção do Donatinho nisso. Tínhamos pensado em 8 faixas, mas talvez sejam 5 porque ficou muito caro, mesmo. Tem uma faixa que já está dísponivel nas plataformas e se chama ” Esmalte velho” , um carimbó que ganhei de um compositor lá do Piauí. Ele deve ser entregue e logo depois vem o trabalho só com os sambas. É tudo muito moroso e caro porque tem as recompensas também, camisetas, bottons. Foi uma loucura que fiz e acho que não repito porque já gastei mais do que arrecadei e ainda não consegui entregar.

FCEF – Você acha importante essa coisa das letras LGBTQI? Ajuda ou prejudica?

VB- Eu acho bem importante as letrinhas. Não pra nós, porque nós sabemos quem a gente é. As pessoas me perguntam, toda hora entra uma letrinha nova? E eu respondo: a culpa é sua, porque se você entendesse que uma mulher trans é uma mulher, se levasse isso pra vida, se entendesse que um homem trans é um homem, a gente não precisaria ficar inventando um monte de letras. E o mais importante, se você respeitasse o gênero e a sexualidade, que são coisas diferentes, não seria necessário essa quantidade de letras. A culpa é de quem está do lado de fora, que fica tentando descobrir a sexualidade das pessoas. Se o pensamento das pessoas pudesse ser passado em uma parede, feito uma projeção, ia ter muita gente com problemas aí. E com certeza não seria o pessoal da sopa de letrinhas (risos). É importante hoje ter as letrinhas, pra que elas acabem, lá na frente. As pessoas não entenderam ainda que a sexualidade é minha, que o gênero é meu. Que uma mulher trans é uma mulher, que um homem trans é um homem, que um homem gay é um homem gay. Pronto. Com quem ele transa, se transa com uma árvore, o problema é dele! É essa intimidade, essa aproximação forçada que as pessoas tem com a gente. Isso gera ódio, gera morte, gera crueldade. As pessoas estão com muito orgulho de serem burras. O que está aí não é de agora. O que acontece é que agora essas pessoas estão legitimadas.

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Foto de Klaudia Alvarez

FCEF – Como você conheceu o Filipe?

VB – Eu o conheci em uma festa de faculdade que eles faziam. Mas ele já tinha ido no Venezianos e a Vera, dona do bar, me falou assim um dia: ” você tem que conhecer uma pessoa que tem um timbre de Bethânia, misturado com Ney e com mais alguma coisa que não dá pra explicar. Ele não é desse mundo” (risos). Ele estava começando a cantar nos bares e já compunha lindamente, de uma maneira que não dá pra entender. Uma musicalidade e voz de alguém que já tem muita experiência, mesmo sendo tão jovem. E aí eu o conheci em uma dessas festas bem loucas de faculdade onde eles fechavam bordéis, puteiros e faziam a festa lá. As meninas que trabalhavam na casa tiravam folga naquele dia, outras ficavam lá com quem estava na festa. E nesse dia que o conheci foi muita empatia. Grudamos um no outro. E na hora ele me disse que ia compor uma música pra mim. Eu estou esperando até hoje, mas como ele vai produzir meu próximo disco, está perdoado (risos). Ficamos um tempo sem nos vermos e logo depois ele estourou. Agora temos nos visto com mais frequência, tanto que ele vai ser o produtor do meu próximo disco, o Saraval, um trabalho só com sambas. Estou muito animada e acho que vai ser a primeira produção dele. Ele tem todo o know how pra isso. Compõe lindamente, entende de luz, de tudo. E essas coisas a gente acaba adquirindo com o tempo. Eu canto há muitos anos. Se for contar desde o meu primeiro festival, eu canto há 34 anos, então é muito tempo. Eu nunca estudei música, e falo pro meu músico que só sei cantar e ele diz que já é muito. Eu acredito em uma frase que minha avó dizia: ” mais vale a prática que a gramática” (risos). A prática me fez perceber quando tem um instrumento desafinado no meio de vários. Eu consigo identificar isso. O Rafa (Rafael Erê), que toca comigo há 12 anos já, me diz: “mas é meio tom, só”. Eu respondo que não sei, mas sinto que tem algo errado (risos).

A primeira vez que cantei com Filipe foi  no Venezianos. Acho que fizemos o videokê. Depois ele fez um show lindo lá. Acho que cantou Bethânia.  E me lembro muito do timbre dele cantando “Explode Coração”, do Gonzaguinha. Aquilo me tomou de um jeito, eu pensava, que criatura é essa? E logo imaginei que eu perderia o emprego (risos). E nesse dia cantamos juntos. Não lembro qual foi a canção, mas cantamos.

FCEF – Fale um pouco sobre seus projetos futuros.

VB – Ah, tenho muitos! Quero continuar viva, pelo menos! (Risos). Tenho o do disco novo, Saraval, tem um show chamado “A Nu” que quero fazer em Portugal, quero voltar a Paris, sentir o cheiro da cidade, ser pedida em casamento lá (risos). Tem outros projetos escritos por mim, porque como a gente não encontra projetos feitos por pessoas trans,  a gente faz. Tem uma peça que vou escrever que vai falar sobre colorismo e racismo. Vai se chamar “Ruído Preto”. Os personagens são um menino branco e uma menina preta que vão ter um relacionamento e vão discutir todo esse universo do racismo. O final é surpreendente e é surpresa. E vai ter show também. Com canções e poemas de poetas pretas. São textos que serão musicados. Isso deve acontecer mais pro fim do ano. Estou fazendo muitas coisas. É preciso viver e sobreviver.

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Serviço: Valéria está em cartaz todas as segundas, terças e quartas feiras do mês de junho, com a peça ENTREGA PARA JEZEBEL, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, Rua Três Rios, 363, Bom Retiro. 20h com ingressos grátis distribuídos às 19h. Apenas 30 lugares por espetáculo. De 3 a 28 de junho de 2019.

Elenco: Valéria Barcellos, Bibi Santos, Clodd Dias e Daniel Sapiência.

Direção de Rodolfo Lima e texto de Roberto Muniz Dias.

 

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