O mundo que queremos

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Dizem que os amigos são a família que escolhemos e cada vez mais acredito nisso. Em um momento em que a empatia parece tão difícil de ser exercida, é importante estar perto e se unir a quem realmente gosta da gente.
Fiquei sabendo de uma ação feita recentemente por um grupo de cerca de 40 pessoas e acho que se encaixa feito uma luva nessa coluna e resolvi trazer pra cá.

Há alguns meses, por intermédio de um amigo em comum, conheci uma moça que me pareceu extremamente tímida, mas senti imediatamente que era uma pessoa doce, e conforme a conversa ia se desenvolvendo, notei que era muito culta e ligada às artes. Seu nome era Sônia Magalhães. Paulista, ilustradora, escritora, apaixonada pelas exposições de arte da sua cidade, frequentadora dos museus e, acima de tudo, grande admiradora de Guimarães Rosa, o que a transformou em uma das maiores conhecedoras de sua obra, chegando, inclusive, a morar em Codisburgo por um tempo. Depois de nosso primeiro encontro, cheguei a vê-la novamente por mais umas 3 ou 4 vezes, sempre em eventos culturais.

 

Há algumas semanas recebo a notícia, através do amigo em comum que nos apresentou, que Sônia tinha falecido, de forma inesperada e muito rápida, após passar mal uma noite. Daquelas notícias que você não acredita e não entende bem o porquê. Como assim? ela tinha ainda tanto a oferecer pro mundo.

E aí que começa o motivo dessa história estar aqui. No dia da missa de 7º dia em memória da Sônia, um grupo de amigos que lá compareceu teve a ideia de criar uma comissão para cuidar do acervo deixado por ela em seu apartamento, perto da Av. Paulista. Tudo feito de forma muito bem organizada e com as ações distribuídas de forma justa e de acordo com a disponibilidade de tempo de cada um dos amigos que concordou em participar da ação. Com o aval da família de Sônia, o grupo recebeu as chaves do imóvel e total liberdade para administrar e cuidar do acervo artístico deixado por ela.

E o imenso trabalho, ainda em curso, começou. Uma pessoa ficou encarregada de tirar fotografias, outra de inventariar tudo que foi encontrado. Etapa seguinte: separar o que pode se doado e aproveitado por outras pessoas. Catalogar todos os livros da biblioteca, separar por assunto. Organizar os trabalhos já prontos, ver o que é viável para se pensar em uma grande exposição. Tudo isso requer uma imensa dedicação, além do trabalho braçal mesmo. Sem falar no desgaste emocional de se vasculhar a intimidade de uma pessoa querida.

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O que de concreto se decidiu até agora é que tudo vai ser feito para que seja viabilizada a publicação dos trabalhos já terminados e que uma exposição- junto com um bazar para a venda de itens pessoais- seja realizada.

 

 

Essa união de pessoas em torno da memória de uma amiga é algo incrível e digno de divulgação. Só fico imaginando a felicidade da Sonia se puder observar isso. Que cuidado e que louvável uma ação como essa. A conclusão que chego é que Sônia Magalhães soube escolher muito bem seus amigos. Pessoas que fazem a diferença e tornam este mundo um lugar mais digno, fraterno e amoroso pra se viver. (Texto de Klaudia Alvarez)

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Alguns dos integrantes do grupo de amigos que se reuniu pra organizar, publicar e cuidar do acervo artístico deixado por Sônia Magalhães

Depoimentos:

“Num círculo torto de dor, demos as mãos. Ganhamos uns aos outros. Nossa amada brilha acima do Masp, e deve espiar feliz, por alguma fresta, esse ajuntamento de gente querida se dedicando, se amparando e se amando em torno dela”. (Terê Gouvêa)

“Que lindo!!!!como foi bom ter sido amigo da Sônia! Suas colagens ficam em frente ao Buda que tenho e que protege minha mesa de desenho, ele nos protege, confirmando nossa amizade, que continua nos amigos dela, deixados como herança da moça delicada como o mais fino cristal.” (Fábio Freire)

“Sonia e eu nos conhecemos quando cursávamos o colegial, lá pelos idos anos 60. E desde então, nos tornamos grandes amigas. Irmãs por escolha! Depois que mudei para a Bahia, todas as vezes que ia a SP, nos encontrávamos.
Passeávamos pela cidade, fazendo a “via sacra” pelas livrarias, pelas exposições de arte, pelos museus, pelos cinemas, pelas padarias, pelos restaurantes indianos que ela adorava. Entre uma cerveja, um café, uma pizza, conversávamos sobre tantas coisas que o tempo ficava curto para tanto assunto. Lembro-me do dia que lhe contei que nunca havia visitado o Trianon. E lá fomos nós. Foi quando fui apresentada ao Fauno. Amor à primeira vista!
Outras vezes, ficávamos no apartamento dela, tagarelando sem parar. Ela me mostrava todos os trabalhos que estava criando e eu adorava participar daquele momento, dando meus pitacos.
Em outros momentos fazíamos leituras uma para outra, Walter Benjamin, Guimarães Rosa (ela amava), alguns textos que ela mesma escreveu; e os livros iam saindo da estante como se disputassem nossas escolhas.
E assim eram nossos encontros; cheios de vida, de encanto, de amizade pura e sincera, da magia, da sintonia, das conversas, das risadas, das maluquices.
Outro dia me peguei pensando: como vou andar novamente pela Av. Paulista sem a companhia da minha amiga querida?
Bobagem! Sonia estará sempre presente em cada cantinho por onde passamos”. (Walkiria Martins)

“Por morar longe não conheço as pessoas pessoalmente, mas me sinto acolhida e participando de todo o processo que é compartilhado pelo grupo. A Sônia nos deixou esse imenso presente que são os seus amigos.” (Silvana Beraldo)

Soninha se foi

Aos 04 de janeiro de 2019
Soninha se foi, foi, foi,
Soninha foi pra Aruanda!
Artista de mão cheia,
suas colagens eram tão belas
como as camélias.
Amiga muito querida,
minha parça nos bares da vida.
Lembro de quando ficamos
indignadas e lascadas,
quando um jovem senhor,
se aproximou e perguntou
se nós éramos avulsas.
Ah! Que repulsa!
Soninha adorava Matisse,
João Guimarães Rosa,
Arnaldo Antunes e Carlos Careka.
Ah! E como gostava de uma boa prosa.
Que os orixás a conduzam à Aruanda,
por um caminho florido e de muita luz e paz.
Soninha, saravá a sua banda!

Piracicaba, 04 de janeiro de 2019.

(Letícia Vidor)
Assista ao vídeo em que Sônia Magalhães fala sobre uma de suas exposições.

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