Um milhão de novas palavras: Fernando Temporão

A morte do Domingos me fez pensar muito profunda e amorosamente na minha filha. Quando alguém morre a gente se lembra que também morremos, que a morte existe e, principalmente, que não temos nenhum controle sobre quando as coisas acontecem.
Claro, seria impossível viver prevendo as coisas, numa neurose sem fim. Aí seria melhor ficar trancado numa bolha. Mesmo assim o coração poderia decidir parar de bater.
Então, sem medo de algum exagero dramático que o momento me impõe, vamos dar todo o sentido do mundo ao nosso coração que bate e nos mantêm vivos. Quando a minha filha nasceu eu estava cansado e maravilhado. Hoje eu não sei o que dizer sobre o que eu sinto porque não há muito espaço pela palavra, mas talvez uma delas se aproxime mais do que as outras: espanto.

A cada dia que eu passo vendo ela crescer, falando mais, aprendendo a viver e a gostar de viver, mais me espanto com a violência do amor que eu sinto por ela. Nós experimentamos muitas coisas na vida, querendo ou não, tendo filhos ou não, e cada coisa tem um lugar. Antes de ser pai eu não sabia que eu era capaz de ter tanto medo de perder alguém. Acho que a morte do Domingos deve ter batido, de alguma forma, nesse lugar entre as pessoas que têm filhos pequenos, como ele tinha. Não porque seja melhor ou pior perder um pai mais novo ou mais velho, mas porque cada dia ao lado de quem a gente ama é uma eternidade e é um chão. Eu sei disso, eu sinto isso. Nenhuma criança deveria perder um pai ou uma mãe assim, tão cedo, tão repentinamente. E, claro, o mesmo vale eternamente para quem não tem filhos.

Acho que hoje eu tive mais vontade de declarar meu amor pra Clara. Não que eu não faça isso todo dia de um jeito ou de outro. Mas hoje eu me senti assustado com essa separação que o Domingos viveu, e que todos viveremos.

Viver no Rio e no Brasil é ler diariamente sobre pais e mães e jovens que são assassinados precocemente, a custo de nada. Talvez a cronificação, a repetição, nos deixe anestesiados. Ninguém consegue sofrer o tempo todo e lamentar o tempo todo. Mas hoje, por ter sido um acidente da ordem do absurdo, todos nos deparamos com esse outro lado da vida, ou do fim da vida: Não está apenas na ordem do evitável. Está no inevitável também, no acaso, nas coisas sobre as quais a gente não têm controle.

Se hoje nós estamos vivos e temos controle sobre o que podemos dizer e transmitir, não deveríamos nunca adiar as manifestações de amor. Elas ficam em quem a gente ama pra sempre, são presentes que não serão esquecidos, envelhecidos, jogados fora.
Vamos valorizar os nossos encontros. Eles podem demorar muito a acontecer novamente.

One thought on “Um milhão de novas palavras: Fernando Temporão

  1. Lindo texto, Temporão! É a lucidez domando os efeitos do imponderável sobre nós! Somos, afinal, como peixes: nadamos numa direção desafiando um destino que não nos pertence! A notícia da morte de Domingos sobreposta à ficção nos alerta para cuidar bem dos nossos melhores momentos. Exatamente por serem os melhores, eles vão para além da nossa existência. Em tudo somos ” forte como o escuro do infinito e frágil como o brilho da manha”.

    Liked by 1 person

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s