Memória: Clarice Lispector – 100 anos

Ilustração: Tereza Joca

Hoje é dia de celebrar o centenário de nascimento de uma das nossas maiores escritoras, a menina de nome complicado, que aos dois meses de idade saiu com sua família, de origem judaica, da distante Ucrânia, lá nos anos 20, do século passado, para viver sob o sol do Nordeste. De Chaya Pinkhasovna a Clarice. Do leste europeu para Pernambuco. De advogada a tradutora, jornalista, redatora, contista, cronista, romancista, enfim, escritora. Das maiores do mundo. Seu primeiro livro foi publicado quando ela tinha apenas 24 anos: Perto do coração selvagem e revelava a grande escritora que deixaria sua marca na literatura brasileira e mundial, sendo colocada ao lado de nomes como James Joyce, Virginia Wolf e Franz Kafka.

Para comemorar o dia de hoje, convidamos o professor, pessoa atuante na cena cultural de Pernambuco e grande estudioso da obra de Clarice, Pedro Henrique Teixeira, para que nos falasse sobre a escritora, e ele nos enviou o seu texto abaixo, sobre o livro “Água Viva”, publicado em 1973. Agradeço a gentileza de Pedro e convido a todos a assistirem ao programa “Intervenção Cultural”, todas as 4as feiras, às 22h, no You tube. O programa é feito a três mãos, por três professores: Pedro Henrique Teixeira, Helder Herik e Mário Rodrigues.

Água Viva, de Clarice Lispector pelo Prof. Pedro Henrique Teixeira, de Garanhuns, PE.

Água viva, de transparência do ser mesmo, de envenenamento mesmo,  é um livro em que um “eu” escreve para um “tu”. Essa abertura de um “eu” indeterminado para um “tu” indeterminado é um milagre que tornar o texto impessoal e, ao mesmo tempo, um livro de todos e de ninguém. Por que de todos? Porque esse “eu” pode ser o meu self, ou o seu. Por que de ninguém? Porque o “eu” que fala, que escreve nesse livro, tem uma profundidade tão absurda que talvez seja inalcançável para muitos de nós.

Na experiência poética de se ler  “Água Viva”, você pode ir encaixando o seu “eu” nessas definições ontológicas que dão conta de angústias, reconhecimentos, desesperos e modos de libertação. O “eu” inalcançável, absurdo, que tem nesse livro começa a oferecer aproximações e distanciamentos com nosso próprio self.  

Há um desejo de ser ouvido com todos os sentidos, uma mistura de sentidos que busca uma completude : “me ouça com todo o seu corpo”. Existe uma mistura de sentidos nesse texto, que é um vômito de ser, um derrame existencial. Temos um “eu” multisensorial, aberto às sensações, ao que é belo, ao que faz sofrer.

É um “eu” com essa capacidade de ser multidimensional e multisensorial. Vale muito a pena essa viagem nesse “eu” que fala nesse texto. Que inicia essa jornada relatando ter dentro dele um “grito de felicidade diabólica”.

Há uma outra dimensão desse livro que é muito interessante, porque é a dimensão temporal. É um texto que vai apelar constantemente para que você esteja no presente, viva o agora, o “instante-já”. Dessa leitura acerca da dimensão temporal do ser nos vem um questionamento: Como a gente desperdiça vida, força vital, vivendo no passado ou no futuro? Água viva é um texto para ansiosos, para pessoas que não conseguem estar no “instante- já”. É um apelo para que a gente viva o agora. Um apelo para que nos entreguemos ao exercício absurdo, difícil, que é viver o agora.

O “instante já” seria cada segundo que passa, cada “toque de um ponto de um pneu no chão”. É esse apelo pra gente viver o momento, mas com uma precisão absurda, fotográfica, como se fosse uma máquina que fosse tirando várias fotografias e registrando cada segundo que a gente tivesse que viver intensamente.

O ” instante já” é fugidio, porque  a cada segundo ele já se foi .  A cada segundo a nossa vida passa e a gente tem que ter esse exercício de vida, de viver o “instante já”, que já passou. É como se esses segundos explodissem, mudos. A gente não ouve o tempo passar, os “instantes já” passando e a gente tem que aprender a ouvir o tempo do agora.

Esse é o exercício de estar no agora, de estar na vida. A atualidade somos nós, tentando viver o agora, o já, escapar desse tempo maldito da nostalgia, ou desse tempo maldito da esperança que nos faz perder a vida, a ansiedade que nos faz perder o viver. É o apelo para viver o agora, porque  o passado nos faz sofrer e o futuro nos faz esperar.

É preciso estar atento à vida, ao presente, ao tempo presente como elemento primordial de nossa vida, sem nos tornarmos acríticos, porque esquecer a história é ser acrítico. É estar na vida, no presente. Presente enquanto presença e presença enquanto tempo. 

Convido vocês a passarem pela experiência de “Água Viva”, a passarem pela experiência de Clarice Lispector. A fazerem essa leitura para se agarrarem à vida. Quanto mais a gente se agarrar à vida, no tempo presente, e compreender que viver o “instante já” é o próprio exercício do viver, quanto mais a gente melhorar a nossa “quarta dimensão de percepção” – que é a palavra – melhor será nossa experiência de vida, nosso estar na clareira da vida. (Pedro Henrique Teixeira)

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