Margens e Clareiras


Aqui Quem Fala É Da Terra

A Terra é o planeta Água. Poderia ser o planeta Vida. Só nele há a certeza absoluta da existência de seres vivos. E, entre todos eles, ao que nos consta, o mais inteligente somos nós, o ser humano — não por acaso, o responsável por tornar esse tal planeta Terra, ou Água, ou Vida, como ele é hoje.

A Terra é redesenhada o tempo todo pela nossa civilização. O aquecimento global está aí como prova. Os animais extintos também. Pelo que se vê, está na cara que não somos bons com esse lápis na mão. Então, melhor seria se pudéssemos parar. Não paramos.

A Terra é um planeta em que o maior número de seres vivos está neste momento encarcerado e torturado, para depois servir de prazer para este que se autodenomina “o ser mais racional”. Não digo que essa maior parte de seres vivos vai alimentar “o ser mais racional”, porque o planeta Vida oferece infinitas outras opções de alimento sem a necessidade de se encarcerar ou de se torturar qualquer outro ser vivo, então não se trata disso. Não se trata de servir de alimento. É servir de prazer, um prazer sádico, quase inexplicável.

E o que leva a sociedade a enjaular e sugar o máximo de outros seres vivos, além do prazer? Dinheiro. Preguiça. E tradição.

Matar a vida e se alimentar do cadáver me parece tão irracional quanto cercar um hospital para impedir o aborto de uma garota de dez anos que foi estuprada pelo tio desde os seis. Ou quanto saber do genocídio indígena e fingir que nada está acontecendo. Ou quanto dizer que a Terra é plana.

Matar para comer numa sociedade dita civilizada — e com tanta tecnologia e conhecimento para nos oferecer alternativas — me parece a constatação do quanto somos manipulados e controlados o tempo todo. Logo, não podemos ser “o mais racional” ou mais inteligente. Ainda mais sabendo do impacto que essa indústria alimentícia (ou assassina) gera no planeta e também em nós mesmos, provocando nosso próprio genocídio.

Mas o que de fato somos nós? O que nos separa de nós mesmos dessa máscara que grudam em nosso rosto enquanto não nos damos conta? O quanto de nós hoje é o que somos, e o quanto é criação da sociedade? Não tenho a resposta, mas estou buscando.

Só sei que o gado, meus amigos, somos nós. E, como a eles, esse sistema nos aprisiona e nos tortura com base no Dinheiro, na Preguiça e na Tradição. Queremos a casa, o carro, a roupa, o botão da camiseta, o clipe de papel, seja lá o que for que ainda não temos, nós queremos. Queremos? Quem quer de verdade? A máscara?

O dinheiro acima de tudo.
A preguiça de mudar, de questionar ou de refletir.
A tradição para manter tudo como está.

Temos medo de tirar a máscara e descobrir quem somos de verdade. Quem tem essa coragem? Quem quer?

O ser humano vive cercado, enjaulado e em situação miserável como os animais exterminados em carnificina, para a qualquer momento também ser canibalizado por seus pares. Ossos e restos sobre a mesa é o que somos, de máscara ou não.

Precisamos mudar. E um bom jeito de começar é pelo que colocamos dentro de nossas bocas, o que damos de comer para nosso corpo.

Nada que fuja ou resista pode servir como alimento. Não foi para isso que abandonamos a selvageria e erguemos uma sociedade letrada e culturalmente ativa. Tirando o rabo da lagartixa, se você arrancar um pedaço de algo e ele não crescer de volta, não é para comer. Simples assim. O Universo é didático. Se fugir então, nem pense nisso.

Nossas vidas não podem e não devem depender do sofrimento e da morte de milhões.

Esse é um genocídio do qual o futuro vai se envergonhar, como nosso presente já se envergonha de tantos outros do passado. Sei que nosso agora ainda não é capaz de parar para refletir e questionar. Não é capaz de abrir mão e de se reinventar. Não quer abandonar o dinheiro, a preguiça e a tradição. Muito menos a máscara. Mas é preciso tentar.

Levantar esses questionamentos ainda soa estranho, risível, ousado ou até utópico — dizem os críticos. Mesmo sendo óbvio.

Se assim é, então nossa civilização está pronta. Está pronta para abandonar a hipocrisia e chamar o planeta Vida de planeta Morte. De civilização genocida. Porque foi num planeta Morte que o ser autodenominado “o mais inteligente” transformou este lugar que ainda insistimos em chamar de Terra. A nossa. A única. A nada eterna Terra.

(Daguito Rodrigues)

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