Papo Afinado: São Yantó

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📷 Gisele Galvão

Seu nome de batismo é Lineker Oliveira, mas o nome artístico é São Yantó. Cantor, compositor, bailarino, diretor, um artista completo. Agradecemos a gentileza de São Yantó que conversou conosco sobre sua carreira.

FCEF  – Em que momento de sua vida você descobriu que queria trabalhar com arte?

SY – Desde criança eu sempre fui fascinado por música. Meu pai tocava na igreja (Católica), e eu cresci agarrado nas pernas dele enquanto ele tocava nas missas. Naturalmente fui demonstrando meu interesse em cantar, e logo logo meu pai me colocou pra cantar nas missas de crianças. Nas festas e comemorações da escola eu sempre cantava, e apresentava coreografias. Como sempre tive apoio dos meus pais, acabou sendo um caminho meio inevitável, pois eu nunca me interessava muito por coisas que não estivessem ligadas à música. Quando chegou a hora de escolher uma faculdade, que no meu caso era um caminho meio inevitável, dentro do contexto no qual vivia, música me pareceu a única opção. E assim segui!

FCEF – Fale um pouco sobre sua infância e vida familiar em Minas Gerais.

SY – Sou de uma cidade muito pequena chamada Bambuí. É uma daquelas cidadezinhas do interior de Minas bem católicas, onde todas as famílias se conhecem. Você é sempre filho de alguém. Foi uma infância gostosa, mas ao mesmo tempo cheia de conflitos, já que eu nunca me identifiquei muito com alguns valores culturais daquela sociedade, e me desviava bastante dos padrões de comportamento esperados para um menino-homem. Isso me trazia sofrimentos, sofria bullying na escola, e também vivia num conflito constante com os valores da Igreja, um ambiente que ao mesmo tempo me acolhia e me podava, me punia. Minha família ao mesmo tempo que sempre foi muito amorosa e compreensível, faz parte desse universo. Então os valores que temos em comum hoje foram construídos a custa de muitas experiências, crises, diálogo, mudanças. Mas não posso me queixar, afinal conseguimos construir uma relação de amor, cuidado e respeito. Eu sinto que em geral minha infância foi um misto de tédio e aventura. Eu não tinha condições de expressar minha criatividade e aperfeiçoar minhas aptidões durante o tempo que morei no interior. Não existiam muitos professores de música, de dança, de artes em geral. Fui começar a estudar canto com 17 anos já. Isso me deixava ansioso e inquieto. Restava-me “inventar moda”. Então eu me trancava no quarto com um gravador, ficava gravando, inventando músicas, criando danças, e sempre que tinha alguma oportunidade dava um jeito de compartilhar aquilo com os adultos. Seja nas festas de escola, nas festas de família ou na Igreja.

FCEF – Como chegou ao seu primeiro trabalho gravado?

SY – Eu tinha terminado a graduação em Música Popular na UNICAMP. Durante a Unicamp me deparei com um universo inteiramente novo. Muitas descobertas, experiências, libertações. Ao longo da graduação fui construindo uma certa trajetória como cantor, criando vários trabalhos que apresentava para a comunidade interna do campus. Chegou uma hora que eu senti que para aquilo virar algo “de verdade”, algo mais sério, eu precisava fazer um registro, gravar um disco e botar no mundo. Eu não venho de família rica nem tinha contatos no meio musical. Então fiquei durante um tempo mandando vários projetos para editais como ProAC e outros da cidade de Campinas, onde eu ainda morava. Até que consegui, fui aprovado e rolou. Trabalhei no disco com meus amigos e parceiros com quem eu já trabalhava durante a graduação. Toda aquela estética, repertório, também fazem parte desse processo. Lancei o disco de forma totalmente independente além do financiamento do edital, um pouco inexperiente, sem saber os caminhos, mas com muita vontade e energia. E aí os caminhos aos poucos foram se abrindo.

FCEF – Quais são suas principais influências na música?

SY – Eu sou uma pessoa bastante eclética, e até fico em crise com isso às vezes, pois sinto que sou influenciado por artistas muito diferentes entre si. Dos brasileiros sem dúvida sou muito influenciado pela Elis Regina, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Milton Nascimento. Dos estrangeiros, Chet Baker, Björk, Sarah Vaughan, Lila Downs, Meredith Monk, Beyoncé e Kate Bush.

FCEF – Você estudou balé ou é autodidata?

SY – Estudei dança na Unicamp, durante a graduação em música. Tive aulas de balé, dança contemporânea, educação somática e danças do Brasil. Foi uma formação bem intensiva. Fiz mais aulas na dança até do que na música. Só não me formei em dança porque não fiz as disciplinas teóricas. Mas foram cinco anos de mais de quatro horas diárias de trabalho corporal.

FCEF – Quando e como foi sua mudança para São Paulo ?

SY – Assim que eu lancei meu primeiro disco (dezembro de 2012), senti que precisava sair de Campinas. Coincidiu de eu estar começando um relacionamento com meu companheiro atual, e ambos estavam nesse momento de mudança e transição, e o lugar que mais fazia sentido para os dois era São Paulo. Toda minha rede de amigos e parceiros que criei na Unicamp também estava migrando para SP, então foi um processo bem natural. E foi interessante porque em SP, mais uma vez, um universo inteiramente novo se abriu.

FCEF – Pode nos contar como chegou ao nome artístico que passou a usar?

SY – Sempre me perguntam o que significa e como veio. Eu às vezes tenho vontade de inventar umas histórias mais mirabolantes, mas eu não sei muito responder essa pergunta. Eu fiquei rabiscando um papel, e veio. Tem gente que diz que é presente de outros planos (astrais, espirituais). Se foi, eu agradeço. Mas sei que assim que veio esse nome eu não tive dúvidas. Hoje em dia também entendo que meu nome é Yantó e o “São Yantó” é o projeto, tipo um nome de banda. Acho legal que o São pode ser muita coisa. Pode ser santo, pode ser lúcido, sadio, e pode ser o verbo ser no plural, como se “Yantó” fossem vários.

FCEF – Quais são seus próximos projetos ?

SY – Bom, em meio a essa pandemia muita coisa foi reconfigurada. Eu estava planejando uma turnê nova, já tinha shows agendados e ao longo desse processo eu iria gravar um álbum pra lançar em 2021. A turnê foi suspensa por tempo indeterminado, como no caso de todos os outros profissionais da música. Estou usando esse momento para me dedicar à produção do novo disco e ao mesmo tempo experimentando o espaço online como uma plataforma para dar vida a ideias que estavam engavetadas há um tempão. O próprio show que eu faria na turnê deve acontecer de forma online.

FCEF – Como foi participar, ao lado de Filipe Catto, neste último carnaval, cantando no Bloco Explode Coração?

SY – Eu adoro Filipe e foi uma honra pra mim dividirmos o palco! Esse encontro já estava pra acontecer há muito tempo, e fico feliz que tenha acontecido antes de toda essa loucura que estamos vivendo! Eu canto no Explode já desde sua fundação em 2017 e é sempre uma experiência muito catártica cantar no carnaval. Nosso momento juntos foi muito especial!

FCEF – Você tem planos de fazer algum projeto com Filipe?

SY – Sou fã do trabalho de Filipe, de sua pessoa, de sua voz, de suas composições. Filipe é pra mim uma das maiores vozes de nossa geração. Sou muito grato por sermos contemporâneos, por podermos trocar. Não temos nada desenhado em termos de projetos ou parcerias musicais, mas intuo que naturalmente isso vai acontecer em algum momento. É interessante que muitas pessoas às vezes nos correlacionam por termos vozes agudas, por termos uma energia mais andrógina, e fico muito feliz e honrado de ser colocado ao lado de um artista como Filipe. Acho também que ambos temos uma relação muito forte com a música brasileira mais antiga ao mesmo tempo em que traçamos um caminho próprio e que mira o futuro. Quando essa colaboração acontecer, acho que será algo bem particular! E nem preciso dizer que ficarei super feliz com esse processo!


Hoje, 11/4 – 15h tem a participação de Filipe na estreia de um projeto on line de São Yantó. Não percam!

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