Uma Noite Longe da Guerra por Daguito Rodrigues!

 

 

Em vinte e quatro de maio de 1915, a Itália declarou guerra ao Império Austro-Húngaro e se juntou aos Aliados na chamada Grande Guerra, considerada a primeira em âmbito mundial da história da humanidade.

Muitos anos depois, mais de um século para ser exato, a noite de vinte e quatro de maio, apesar de tudo que acontecia no mundo, prometia uma festa entre amigos e muita diversão. Era o aniversário da cantautora Assucena Assucena, um dos três artistas por trás da banda As Bahias e a Cozinha Mineira. A comemoração era na Cia da Revista, teatro em Santa Cecília quase debaixo do Minhocão e que vem entrando cada vez mais na agenda cultural paulistana.

Fumantes fumavam. Dançarinos dançavam. E amigos socializavam. Ativistas, atores, escritores, compositores, roteiristas e cantores se misturavam às bebidas e conversas que deixavam aquela noite de sábado agradável e divertida.

Pois foi no dia vinte e cinco, já na madrugada de domingo, que Assucena pediu ao outro membro da banda, Rafael Acerbi, que pegasse o violão e convenceu Raquel Virgínia e Filipe Catto a subirem no palco. Os acordes começaram e floresceu dos lábios do cantor gaúcho a letra de “Olhos Nos Olhos”, uma das maiores composições não só de Chico Buarque, mas de toda a humanidade. Um momento de encontro de belezas. O belo diante de todos. Magia real.

Enquanto o mundo parece caminhar para uma nova guerra — que se não for entre países será civil, diante de tanta desigualdade e retrocesso — os artistas faziam ali o que vieram nos entregar nesta existência — e o que pode, senão impedir, talvez nos salvar do que vem pela frente: arte.

E quando uma música emendou na outra e vários outros artistas subiram ao palco, num clima íntimo e secreto, tive a certeza de que são eles e nós os alquimistas dos nossos tempos, aqueles que garantirão o fogo do conhecimento aceso em tempos sombrios. Que seja só uma hipótese que jamais irá acontecer, esta de tempos de guerra, mas sinto-me confortado e tranquilo por saber que eles e nós estamos aqui, prontos para garantir a propagação do amor, da paz e da beleza. Ou seja, a propagação do que a humanidade tem de mais humano.

Nada do que aconteça irá nos tirar dessa vibração. Não seremos atingidos por absolutamente nada de ruim. Esta lição — e provação – a que a sociedade está submetida não nos diz respeito. A aula não é para a gente. Nossa função é seguir produzindo, enaltecendo e acompanhando o que há de mais belo. Como o que vi naquela noite — a de 2019, não a de 1915.

Se formos atentos, diante de tantas notícias e do que vemos nas ruas, os tempos de guerra já começaram, e nós estamos aqui, sorrindo com lágrimas de alegria nos olhos, levantando das cadeiras, batendo fortes palmas e gritando: bravo! Bravo! Bravo! Que se abram as cortinas do próximo espetáculo porque nós estaremos lá. Lá é o nosso lugar.

Quem tiver curiosidade de saber como foi esse encontro, dá uma olhadinha no grupo fechado de fãs do Filipe Catto no Facebook. Tem um vídeo lá com “Olhos Nos Olhos”.

(Daguito Rodrigues)

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