Papo Afinado: Adriana Deffenti

Adri Deffenti 2

Neste ano em que comemoramos 10 anos do lançamento de “Saga”, é com um prazer imenso que apresentamos a entrevista com a cantora, compositora, professora de canto e instrumentista gaúcha ADRIANA DEFFENTI. Adriana foi uma das primeiras artistas a cantar junto com Filipe no início de carreira dele e chegou a participar de alguns shows ao seu lado. Agradecemos à Adriana pela disponibilidade e gentileza em conversar com a gente.

FCEF – Em que momento a música entrou em sua vida?

AD – Eu venho de uma família que não é, proximamente, de músicos, mas que tem muitos músicos. Tenho muitos primos, mas na área da música erudita, e de não músicos muito musicais. Do lado da minha mãe, meu avô e minha avó são descendentes de alemães. Não sei se por isso, mas acho que sim. São pessoas que estudaram instrumentos, cantavam muito bem, um ouvido musical muito apurado. Eu aprendi a cantar canções em alemão no colo do meu avô. Depois disso comecei a estudar música em uma escola de música, propriamente dita, aos 9 anos, por indicação da minha professora de música do colégio de aplicação, a Marta Passos. E aí foi indo. Eu sou formada em Publicidade e Propaganda, entrei na faculdade de música para fazer flauta transversal, música erudita, bacharelado, mas não terminei. Até tentei fugir da música, mas não consegui.

FCEF – Que artistas te influenciaram?

AD – Eu tenho uma coleção. Posso focar mais nas cantoras porque me dediquei, basicamente, 905 da minha vida ao canto e à atividade de intérprete. Ella Fitzgerald é a minha musa maior, mas tenho minhas musas do canto lírico também: Cecilia Bartoli. Quando eu pensei em ser cantora lírica, queria se a Cecilia. Das brasileiras, Gal, Elis Regina, Zizi, me influenciou muito. Ouvi, na adolescência muito Smiths e a maneira como Morissey canta me influencia muitíssimo. Certa vez, um amigo meu se tocou disso e notou que tenho até trejeitos do Morissey, dependendo do estilo de música que eu canto. Björk eu descobri com 13 anos. Ela cantava em uma banda chamada Sugarcubes e virei tiete de uma banda que ninguém conhecia. Admiro muitíssimo, uma artista fenomenal. Bowie…Muita gente, muitas coisas. Não precisa ser um músico para me influenciar. Eu sou apaixonada pela obra do Calder, por exemplo. (Nota de FCEF: escultor americano, que teve sua obra exposta no Itaú Cultural, em SP em 2016). Um artista dos estábiles e dos móbiles. Um artista visual, do princípio do século 20, participou da Semana de 22. Tudo me influencia. Parece até chavão, mas a vida, o mundo me influenciam.

FCEF – Fale um pouco sobre os seus CDs.

AD – Eu tenho dois discos gravados. E um single lançado depois desse segundo álbum. O primeiro é de 2002 e se chama “Peças e Pessoas” e o segundo é de 2006, lançado na Argentina em 2007 e estou na luta para lançar o terceiro em 2019.

FCEF – Como você vê o panorama musical gaúcho da atualidade?

AD -Nossa! Eu acho tão difícil se perceber panoramas hoje…A gente vive nesse mar virtual da internet  então já nem sei mais o que é daqui o que não é…mas eu acho o Rio Grande do Sul riquíssimo em arte, produção. Eu sou uma rara otimista, porque sinto que os próprios gaúchos se botam muito pra baixo. Eu vejo gente muito interessante aqui. Então, traçar um panorama eu não me sinto nem capaz. Deve ter um monte de coisa super legal acontecendo e que não conheço, mas quem eu conheço e que acho bacana? Vou voltar à história da cantora. A Kirstie é uma cantora impressionante, parece que nasceu pronta. Lógico que ela tem toda uma trajetória, na dança inclusive, e isso se percebe na performance dela. E ela está em uma turma que eu considero muito interessante porque tem um pé no folclore gaúcho. Ela trabalha junto com a Clarissa Ferreira, que é violinista, compositora e estuda a tradição gaúcha de forma acadêmica. Tem o Pedro Borghetti, filho do Renato Borghetti, tem um violonista fantástico chamado Neuro Júnior. Tem mais gente nessa turma. Eu sinto que tem um movimento muito interessante acontecendo ali. Já no rock tem a Jingle Bells, que é uma banda fantástica. Tem o Daniel Debbiagi que acabou de ganhar o prêmio Açorianos e lançou um álbum super bonito no ano passado, mais perto da MPB mais clássica e é muito bacana. Tem outras cenas que eu não acompanho. O heavy metal gaúcho é muito forte, só que é uma cena paralela ao meu mundo e como disse, eu ouço muita coisa, então não sei o que é daqui e o que não é.

FCEF – Porto Alegre tem grandes artistas que apesar de terem trabalhos incríveis, ainda são pouco conhecidos fora do RS.  Nei Lisboa é um bom exemplo. Como romper essa barreira?

AD – Se eu soubesse como romper essa barreira, eu acho que eu estava rica (risos). Se eu conseguisse definir o que é essa barreira…porque tem coisas que se discutem, aliás, gaúcho gosta de discutir…fala, analisa e briga…enfim, não sei. Acho que é uma mistura de coisas. O Vitor Ramil tem um artigo muito bonito, que gerou um disco belíssimo. Não lembro bem, mas acho que tem uma conexão entre o artigo e o disco “Ramilonga”. O artigo é  “A estética do frio”. Ele fala desse sentimento de estranhamento que o gaúcho tem quando sai e vai para o centro do país. Começa com a descrição do período em que ele morou no Rio e como ele se sentia. Ele também tem músicas em que fala sobre isso. Eu, inclusive, gravei uma música dele em meu primeiro disco que fala sobre isso: “Sapatos em Copacabana”. Você também vai achar alguma coisa nas letras do Humberto Ghesinger. Hoje, acordei e ouvi no rádio que ele vai fazer dois shows. Longe demais das capitais. “Essa cidade é tão pequena e tão ingênua, estamos longe demais das capitais.” Isso perpassa muito pelo gaúcho. Existe aqui um jeito de ser, não sei explicar direito, mas às vezes eu vejo uma baixa autoestima, ao contrário do que possa parecer o orgulho gaúcho. Tudo que é demais, revela o reverso. Historicamente o estado começou como uma zona de passagem de charque e nada mais. Fora o norte do país, foi um dos últimos lugares a ser colonizado, então mistura tudo isso e nos  torna, em muitos sentidos, longe demais das capitais. Eu acho que o único jeito de romper essa barreira, o jeito mais simples, é sair daqui. Só que nem toda pessoa se adapta, nem toda pessoa quer. Eu, por exemplo. Não sei te explicar porque não saí de Porto Alegre, mas de uma coisa eu tenho certeza: eu adoro morar em Porto Alegre. Eu adoro o conforto da minha vidinha nessa cidade pequena e ingênua. Eu adoro, quando saio de casa, e moro no meio da Cidade Baixa, e, a cada quadra, eu encontro dois amigos. Este conforto me prende muito aqui. Além de tudo tem também questões de família. Eu sou uma filha única funcional. Os meus irmãos todos moram no exterior. Então sou eu e meus pais, que, graças a Deus tem saúde. Se eu quiser sair daqui, eles vão me estimular. “Isso vai ser bom pra ti, minha fila”. A relação é ótima, mas isso também me prende um pouco aqui. O Nei, que você citou, é um cara que se você conversa 10 minutos com ele, você entende porque ele não sai de Porto Alegre. Ele tem o jeito dele. E tem uma coisa que eu não experimentei, mas tenho amigos que experimentaram e chegaram mais perto dessa fama “hollywoodiana”, carioca, por exemplo, aquela coisa de Globo e tal,. Eu sou uma pessoa muito extrovertida onde me sinto confortável, mas quando você entra em um ambiente de fama, grande, isso me assusta. Eu sou muito gaúchona. Me boto em uma concha. Eu não acho simples para uma pessoa de Porto Alegre sair daqui e peitar um Rio, uma São Paulo em um nível “quero estourar”, ser famoso..estou viajando (risos). Mas não acho simples. Sobre a obra do Nei Lisboa , acho fantástica e vejo ele assim do lado de um Paulinho Moska. Me veio Moska, porque me lembra a coisa urbana, sinto algo em comum entre eles. Mas, quer saber? Acho que o Nei não se importa em não ser tão famoso. Tenho certeza disso. Ele gosta de morar no Bonfim, de fazer os shows dele aqui, se sente confortável aqui e é por isso que ele não saiu desbravando.

FCEF – Que saída você vê pra essa dificuldade, cada vez maior, do artista brasileiro independente levar seu trabalho ao público ?

AD – Não acho que esta dificuldade seja do artista brasileiro. É do mundo. Pra nós, lógico, ainda mais agora, com esse governo, essa ditadura maquiada aí, sei lá o quê. Existe a internet que fez um pseudo democratização das artes porque quase qualquer um, eu digo quase, porque não é qualquer pessoa que tem condições de fazer um trabalho minimamente atrativo para o seu público. Não coloco nem a questão da qualidade, porque isso é gosto, é julgamento, mas uma pessoa pega um sininho, toca diferente, faz um vídeo, tem 10 seguidores e ela já está produzido cultura e isso se faz fácil, com as ferramentas da comunicação que temos hoje. Mas é um mar. É muito fácil ser dissolvido, engolido. Como aparecer em um imenso mar de novidades incessantes o tempo todo ? Eu acho dificílimo. Eu comparo quando eu comecei, há 20 anos, era muito mais fácil. Tinha muito menos gente. Eu estive na SIM-SP, em dezembro passado e aquele bando de palestras, aquele bando de informação, aquela loucura… É incrível. Ao mesmo tempo que te alimenta, te dá muita vontade de se mexer, de fazer coisas novas e te faz repensar toda a maneira que você está trabalhando, toda a orientação que você está dando para a sua carreira, pra tudo. Por outro lado é um pouco desanimador, porque você olha pro tamanho da dificuldade e pensa: Meu Deus, será que consigo? Eu comparo assim: a época das celebridades de nada. Os influenciadores de quê? Você vê figuras que…que conteúdo elas tem? O que elas fazem de fato que tem zilhões de seguidores e estão ganhando dinheiro, tem fama…E isso vale um pouco para a música. Eu fujo muito dessa ideia de julgar, eu acho muito perigoso, mas é a história do sininho que eu falei. O cara toca o sininho de forma diferente, atrai um, dois, três, foi uma luz diferente no vídeo, não sei, ou alguém que disse que era legal, todo mundo acreditou e aquilo acontece e acontece por dois anos, no máximo. Ou por um mês. É tudo muito efêmero e os teóricos da comunicação, lá da minha faculdade já previam tudo isso.

FCEF – Você já pensou alguma vez em se mudar para São Paulo, por exemplo?

AD – Já pensei e acho que já pensei demais. Hoje em dia não penso, eu faço. Esse ano eu estou com uma ideia, já comecei. Estive no Rio duas vezes e vou te novo. A ideia é aproveitar o máximo que eu puder, do meu tempo, fora de Porto Alegre. Se o Brasil está em um momento delicado, O Rio Grande do Sul, Porto Alegre, estão em um momento mais delicado ainda. E estou sendo delicada usando essa palavra. Aqui está um baixo astral muito grande. Ontem eu fui em uma reunião do MOVA – que é um lançamento do pessoal do teatro, das artes cênicas, um grupo de ajuda mútua pra fazer as artes cênicas acontecerem porque estamos com teatro abandonados, isso já há tempos. É o reflexo de um estado falido. As contas do nosso último governador saíram há algumas semanas e ele conseguiu deixar o estado na pior situação econômica dos últimos 50 anos. Porto Alegre é uma cidade esburacada, estamos com o pior nível de violência do país, e isso não sai, no Rio eu falava sobre isso e as pessoas não acreditam. Ainda se acredita na lenda que o Rio Grande do Sul é uma potência. Aqui o  trabalho de resistência está muito forte e estou em um outro coletivo de músicos. Estamos nos juntando e isso tem um lado bom, porque é difícil isso acontecer aqui. Entre mulheres também está acontecendo uma união bacana. É isso, estamos na resistência e, pessoalmente, quero me direcionar cada vez mais pra fora daqui e aí em 2020 a gente conversa.

FCEF – Em que projetos você está envolvida no momento?

AD – Eu estou envolvida com o meu projeto, mas tenho uma história triste pra contar…mas acho que vai ter um final feliz. Eu sou credora do fundo pró arte que é o fundo municipal de apoio à cultura, que tem muitos anos. Foi o primeiro fundo municipal de fomento de projetos culturais do Brasil, mas que com a troca da atual administração municipal foi congelado, cortado e todos os projetos aprovados, inclusive o meu projeto para a gravação do meu próximo disco, ficaram empatados, esperando. Eu ganhei o edital em 2016 e, ao que tudo indica, vai sair agora e esse ano eu vou conseguir terminar de gravar esse álbum, depois de tantos anos sem registrar. Também estou envolvida em projetos mais comerciais. Estou criando uma espécie de festa/show chamada “Baila Comigo”, só de músicas de reunião dançantes. É uma coisa pra ganhar dinheiro, mas é também uma vontade que tenho de muito tempo. De fazer uma coisa lúdica, de brincar com isso. Estou segurando um pouco os shows autorais até que tenha algo mais significativo desse novo disco para mostrar, mas volta e meia me pedem shows autorais e eu faço. Também estou envolvida com meu outro projeto, que é a minha profissão, eu sou professora de canto e dou muita aula e gosto muito. Estou começando pequenos grupos em aulas em estúdio e estou bem animada com isso. Também faço parte do Império da Lã que é um coletivo louco, esquizofrênico de músicos, liderado pelo Carlos Carneiro, vocalista da BidêouBalde que é uma banda que está em pausa, porque uma das integrantes está estudando fora do país. São músicos de muitos estilos diferentes e eu participo de projetos de shows, do Bloco de Carnaval, fizemos muitos shows neste Carnaval passado e seguem os shows. Também tem um projeto chamado “Novelas” em que só cantamos músicas de novela e é bem legal de fazer.

FCEF – Seu encontro com Filipe Catto. Onde aconteceu ?

AD – Conheci o Filipe em um lugar que se chamava “Casa e Café” e hoje se chama “Café Cantante”. É um Café no Bonfim. Eu já tinha escutado algo sobre ele e ele estava comemorando, bebemorando, mocinho, lindo, tão jovem, tão faceiro, um show que ele tinha feito, com os amigos. Prontamente a gente se deu bem. Nos encontramos em seguida. Ele foi na minha casa, me mostrou algumas de suas músicas e fiquei muito impressionada, na época, com o talento dele.

FCEF – Fale um pouco sobre o show coletivo que você participou junto com outros artistas gaúchos, Filipe inclusive, em Buenos Aires.

AD – Você está me exigindo uma memória que eu não tenho (risos). Lembro de Buenos Aires de estar o Arthur Faria, lembro de um artista argentino que eu gravei música dele, e que abriu o meu show junto com Filipe. Fizemos um show conjugado. Ele fez o show dele e eu o meu, não me lembro da ordem. Cantamos uma música juntos, pra fazer a “cola” entre os shows. Foi um monte de gente, eram vários dias, mas não consigo me lembrar dos outros artistas.

Adri Deffenti

Os dois discos lançados por Adriana Deffenti podem ser ouvidos nas plataformas digitais. Aqui o link no You Tube:

CD Peças de Pessoas

CD Adriana Deffenti

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