Papo Afinado: Ismael Caneppele!

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Foto de Klaudia Alvarez

FCEF tem o prazer e a honra de entrevistar ISMAEL CANEPPELE, escritor premiado, diretor, ator, roteirista e músico! Ismael dirigiu o clipe fantástico da canção “Eu não quero mais” e é gaúcho de Lajeado, como Filipe!

FCEF – Lajeado, RS. Fale-nos um pouco sobre sua infância/adolescência no interior do RS e em que momento Lajeado ficou pequena para os seus voos e sua escolha profissional.

IC – Eu vivi em Lajeado até os meus 17/18 anos, quando me mudei para São Paulo a fim de fazer parte da Companhia de Ópera Seca do Gerald Thomas, onde fui trabalhar como ator. Acho que Lajeado sempre foi pequena para os meus desejos profissionais por ser uma cidade do interior e como em qualquer cidade do interior, o mercado de arte é muito restrito. Eu sempre me imaginei artista e, a partir do momento em que me vi como tendo que sobreviver da arte, eu logo senti que precisaria sair daquela cidade, então teve este processo de partida aos 18 anos, mais ou menos. Até então, eu fazia muito teatro amador no interior, fazia muita oficina, ministrava oficinas, participava de festivais. Desde os 13/14 anos que eu tenho uma vida bastante ativa dentro da arte.

FCEF – Seu primeiro trabalho foi como ator, dirigido por Gerald Thomas. Como foi essa experiência?

IC – Minha experiência com Gerald Thomas foi uma faculdade. Como eu disse, foi aos 18 anos. Saindo de Lajeado, fui para São Paulo fazer um teste para entrar na Companhia de Ópera Seca. Participei deste teste, fiz workshops e, um dia, Gerald me convidou para integrar o elenco fixo, onde fiquei por aproximadamente 2 anos. Trabalhei com ele na Alemanha, em uma ópera chamada “Raw”, fiz assistência de direção. Depois fiz uma montagem, como ator de “Nowhere man”, na Croácia. Gerald me trouxe o mundo. Eu vi que existia  muita coisa além do eixo Rio/SP. Pude ver também o que tinha no eixo Alemanha/Croácia, enfim, a Europa. Eu aprendi muito com ele essa visão deste mundo eurocêntrico.

FCEF – Já são vários livros e textos premiados publicados. Fale um pouco sobre cada um deles.

IC – São muitos livros. Dois deles foram transformados em filmes. Um deles se chama “Música para quando as luzes se apagam”. Meu primeiro livro e meu primeiro longa metragem como diretor. O outro é “Os famosos e os duendes da morte”, onde sou ator e roteirista e a direção é do Esmir Filho. Paralelo a isso, tenho um livro chamado “Só a exaustão traz a verdade”, que é uma coletânea de trechos de blogs. Tenho também um livro infantil chamado “Neguinho do Guaíba”, que é uma recontagem de uma lenda gaúcha chamada “O neguinho do pastoreio”, que saiu pela editora Iluminuras. Tenho também um livro chamado  “A vida louca da MPB”, que conta a história de figuras da música brasileira que tiveram uma vida “desregrada”, uma vida muito interessante. Começa em Carmen Miranda e termina com a Cássia Eller. Passa por vários nomes da música brasileira.

 

FCEF – Cinema. Onde você se sente mais confortável: na frente das câmeras ou atrás delas?

IC – No cinema são dois lugares de conforto. Quando estou dirigindo eu sinto que tenho controle total sobre o produto final que é o filme. Apesar de trabalhar com uma equipe – cinema envolve muitas pessoas – é o diretor quem decide o que vai ser levado para o público, entre muitas horas filmadas. Como ator, tem um prazer que é pegar um material pronto, uma produção pronta, um texto pronto e, a partir disso, poder voar dentro de um personagem e aceitar o descontrole, aceitar a forma como o diretor vai ver aquela cena. Ambos os lados implicam  em um salto no escuro e, muitas vezes, quanto menos rede de proteção a gente tiver, melhor, porque vamos ter a possibilidade de voar. Tem também a questão do tempo. Quando você está atrás das câmeras, como diretor, aquela história já está em você há muitos anos. Até chegar ao momento de gravar, é preciso pensar e repensar muito no cinema. Já como ator, tem uma urgência, uma rapidez. Muitas vezes é de um mês para o outro e você já está dentro de uma história, dentro de um filme e você tem que dar conta daquilo, sem todo esse background que você acaba trazendo quando você dirige ou escreve o roteiro. São duas urgências diferentes, e em ambas  eu me sinto muito feliz e muito agradecido também em fazer parte.

FCEF – Seu filme “Música para quando as luzes se apagam” estreia em breve em circuito nacional. Como superar as dificuldades de lidar com o audiovisual neste momento crítico do país?

IC – O “Música para quando as luzes se apagam” foi um filme feito com um baixíssimo orçamento e sempre foi um grande problema a questão  da pouca verba, da burocracia da verba, do tempo que a verba demora para chegar. Eu torço por esta distribuição, mas eu não sei se ela vai acontecer na atual conjuntura e da forma como as coisas estão indo. Eu acredito que tudo que está acontecendo com o audiovisual no Brasil vai servir para que a gente  repense o nosso modo de produção. Se as coisas continuarem  como estão indo, vai acontecer uma revolução no audiovisual, no modo de produzir, no modo de contar histórias. Estou vendo tudo isso com muita apreensão. Estou muito empolgado com a distribuição do meu filme ” Música para quando as luzes se apagam”, mas sei que no Brasil  de hoje ele é um filme que pode tocar  em assuntos que vem se tornando cada vez mais nevrálgicos na nossa sociedade. Algo que era natural há dois anos, hoje já é visto como uma problematização que eu acho muito desnecessária.

FCEF – Seu encontro com Filipe Catto. Onde e como se deu? E o convite para dirigir o clipe de “Eu não quero mais” ?

IC – O Filipe eu já conhecia através de amigos em comum. Nos conhecemos em casa de amigos. Depois Filipe foi assistir meu filme “Música para quando as luzes se apagam”e ele saiu bastante animado da sessão na “Mostra de Cinema de São Paulo”. Conversamos muito naquela noite. Ele me mostrou o disco, que ainda não tinha sido lançado. Eu gostei demais. Aí, um tempo depois, teve o lançamento do primeiro single do disco, “Eu não quero mais” e, praticamente no primeiro dia do lançamento do single, o Filipe me convidou pra gente pensar no clipe juntos. E ele acabou sendo lançado 14 meses depois. A música foi lançada em novembro de 2017 e o clipe está sendo lançado em abril de 2019. Este tempo todo o clipe foi muito bem pensado, muito maturado. Muito pensado também na forma de produção, de como ele seria produzido. Eu posso dizer que desde novembro de 2017 até abril de 2019, é um clipe que vem sendo pensado com muito carinho. Inicialmente por mim e pelo Filipe, depois a Tuane Eggers entrou no projeto. A Tuane trouxe a Kim Nunes para ser companheira de fotografia. A Kim trouxe a Ju Silva, que é uma produtora incrível, que trouxe o Pedra Preta para fazer o figurino, enfim, uma pecinha foi puxando a outra, no decorrer deste processo. Como eu disse, de mais de 14 meses, 16 meses para que a gente trouxesse essa obra para o público. Foi uma troca muito intensa entre todos nós durante um longo processo de tempo e pensando muito em como contar esta história da melhor forma.

FCEF – A escolha dos artistas que aparecem no clipe foi do Filipe, sua ou em conjunto?

IC – O Filipe e eu pensamos juntos em todas as pessoas que entraram neste projeto. Tudo foi sempre conversado entre nós dois e quando surgiu a ideia de compor o corpo dos “apóstolos” nesta “santa ceia” contemporânea, essa santa ceia dos excluídos, a gente pensou em trazer pessoas cujo pensamento, cuja produção artística, cujo corpo estivessem profundamente conectados com a nossa forma de ver o mundo. Buscamos artistas que nos tocassem, com os quais a gente tem muita vontade de dialogar e vocês podem ter a certeza que cada pessoa que compõe as imagens deste clipe foi escolhida com muito carinho e, principalmente, com muita admiração. Foi escolhido tanto por mim como pelo Filipe, pela Tuane, pela Kim, pelo Pedra Preta, pela Ju Silva. Todos os nomes foram acordados e entendidos a sua importância dentro desta história para nos ajudar a trazer a panorâmica que este filme/clipe/performance se propunha desde o início.

FCEF – Você vai participar da próxima novela da Rede Globo. Como vai ser?

IC – Vou participar do primeiro capítulo. Uma participação super especial e muito rápida. Ela se chama ” A dona do pedaço” e estreia dia 20 de maio. Meu personagem é Murilo, um matador de aluguel, que é primo do protagonista, vivido pelo Marcos Palmeira.

FCEF – Fale um pouco sobre os projetos em que você está envolvido no momento e aqueles que você ainda pretende fazer.

IC – Sobre projetos futuros, estou desenvolvendo um longa metragem que fala sobre a imigração, as novas ondas de imigração para o Brasil, em contato com os antigos imigrantes que chegaram aqui. Pré Brasil colonial e Brasil colonial. Fala sobre este encontro de imigrantes hoje, no Brasil. Estou em desenvolvimento de roteiro ainda, mas é o meu projeto mais afetivo e o que mais espero trazer, um dia, para o público.

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