O que rola por aí

UM NOVO AMBIENTE:
OUTRAS AUTORIDADES…

Amanhã, 15 de fevereiro de 2019, estudantes entre 10 e 17 anos de idade do Reino Unido, inspirados em um movimento global que busca chamar a atenção das autoridades para a mudança climática, pretendem fazer uma paralisação, tal como já ocorreu em outros países europeus.

O evento merece apoio, causa uma boa impressão do papel assumido pelos jovens e parece ser sopro de esperança para a humanidade tanto em relação à atitude política na sociedade quanto em relação à luta pela sobrevivência, de forma consciente e pacífica.

Contudo, creio que também isso suscita uma reflexão sobre qual o papel que os adultos, em especial os que se encontram em posição de poder nas instituições políticas de vários países, estão desempenhando quando tomam suas decisões por um certo modelo de desenvolvimento social e as executam.

Algumas escolas do Reino Unido, as públicas, e mais especificamente as que adotam uma postura pedagógica voltada à autonomia dos jovens e ao encorajamento de posturas críticas por parte deles, se depararam com a dificuldade em lidar com o movimento de paralisação por não poderem cancelar as aulas para todos no dia 15 tampouco manter a escola funcionando e penalizar os jovens que quisessem participar do movimento. Ou, ainda, se engajar no movimento, acompanhando-os e assumindo total responsabilidade por eles fora do espaço escolar.

Isto porque essa paralisação não constitui uma atividade curricular, não obstante seja uma atividade com algum caráter pedagógico.

A alternativa encontrada por algumas escolas no Reino Unido foi comunicar aos pais a existência do movimento, explicar os embaraços administrativos e/ou burocráticos para engajamento da escola na paralisação e recomendar que os responsáveis que concordassem com esse movimento e com participação dos filhos autorizasse formalmente a ausência deles da escola, no horário previsto para a paralisação entre 11 e 14 horas e, se possível, os acompanhasse.

Excelente alternativa e muito compreensível que se tenha enveredado por esse caminho.

Afinal, e aqui chego ao ponto nevrálgico da reflexão que esse fato suscita, o que se percebe é uma total inversão dos pilares sobre os quais o mundo contemporâneo foi erigido. Refiro-me aqui à noção de autoridade.

Não creio que se esteja diante de um movimento estudantil como vários que ocorreram no passado de muitos países europeus e fora da Europa. Não! Os movimentos estudantis mais emblemáticos envolveram estudantes secundaristas e/ ou universitários. Portanto, jovens de mais idade e supostamente mais maduros.

O movimento estudantil que agora emerge abrange também crianças de 10 a 14 anos. No BR, definidos legalmente como seres em formação. E estão mesmo… e quem não está?

Portanto, trata-se de uma faixa etária muito jovem “para se perceber empoderada” num movimento global de pressão em relação aos adultos no sentido de que revejam suas decisões, adotem outras práticas e tenham uma postura respeitosa para com a geração atual e cuidadosa para com as gerações vindouras.

É lógico que toda criança traz em si um aprendizado para o adulto e permite, se o adulto estiver aberto, atento e for sensível à ternura infantil, sua própria renovação, tornando-se uma pessoa melhor no mundo e para o mundo.

Mas o que o movimento dos jovens voltado aos efeitos da mudança climática nos revela também ( afora a maravilha dos seus propósitos) é que muitos adultos em posição de poder que já poderiam ter aprendido essa “lição de casa” decidem coisas importantes, fundamentais para a existência humana, sem considerar as gerações vindouras e, ainda, relegam à geração atual de jovens que haja com a autoridade consciente e responsável pelo futuro.

Isso me fez pensar no dito popular segundo o qual ” Roma não se fez num dia”. E explico no que esse dito se relaciona com a reflexão que me assaltou o espírito.

Por certo, Roma que foi “o mundo todo”, como se diz, não construiu um império da noite pro dia tampouco viu a queda desse império de uma hora pra outra.

Tudo foi um processo lento e gradual.

Segundo Hannah Arendt, no livro ” A Condição Humana” se eu não me engano, o mundo moderno teria herdado de Roma alguns elementos, dentre eles, destaco a tradição e a autoridade que parecem estar intrinsecamente ligados.

A tradição tem a ver com o passado que se projeta no futuro e que a autoridade incorpora. Os anciãos, na Roma Antiga, além do Senado, constituíam autoridade.

Pois bem, não se pode negar que essa ideia de autoridade que repousa nos mais velhos ( nos idosos) é algo que herdamos e cultivamos, não apenas no Ocidente como no Oriente. Talvez no Oriente muito mais do que no Ocidente. A propósito disso, o filme “Balada de Narayma” é emblemático..

Ocorre que se esse argumento sobre a idade ou a maturidade adquirida com o tempo, como viés fundamental ( fundante) da noção de autoridade procede (acho que sim…tem muita pertinência) cabe, então, uma pergunta, não seria o caso de saber que tipo de autoridade, nós adultos, estamos exercendo?

Não se trata simplesmente de fazer tudo como sempre se fez, repetindo tradições do passado…não é isso.

Acho que na perspectiva filosófica trazida por Hannah Arendt trata de pensar sobre os fundamentos da autoridade e a forma exercê-la com vistas a preservar a sociedade.

Assim, diante das mudanças climáticas, outra pergunta que não quer calar é: o ser humano adulto está querendo preservar algo ou está apostando em mudar o mundo?

Parece-me que está apostando em mudar.

Se é assim agora o que nos resta saber é se essa mudança supõe fazer a terra girar no sentido oposto ao que supomos ter sido o seu giro desde sempre? Ou se a mudança consiste em girar sem apressar o passo que possa fazê-la sair do eixo?

Bom, acho melhor nem falar de eixo porque talvez eu já esteja saindo dele nesse texto tão longo.😉

Texto de Maria Betânia Silva

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