Papo Afinado: Nirton Venancio

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Foto de Enzo Venancio

Nirton Venancio é cineasta, roteirista, poeta, professor de literatura e cinema e também revisor de textos. É daquelas pessoas que vale a pena seguir no Instagram ou Facebook porque é garantia de textos sempre lúcidos, enxutos e com grande quantidade de informações culturais.  Foi uma imensa alegria poder conversar com Nirton sobre sua trajetória e tenho a satisfação de anunciar que, a partir de fevereiro, Nirton estreia aqui no site uma coluna mensal sobre cinema! Obrigada, Nirton, não só pela excelente entrevista, como também por conseguir espaço em sua agenda para dedicar um pouco do seu precioso tempo para nos brindar com seus textos sobre cinema. Você é super bem-vindo!

FCEF – Fale um pouco sobre sua infância em Crateús(CE) e como a arte te influenciou.

NV- Crateús é o berço da minha vida. Lá eu nasci, fui criado por uma família tipicamente sertaneja e católica. Lá eu li meus primeiros livros quando ainda nem sabia ler, e inventava que lia, encantado com uma imensa estante de raridades de um parente, Lorca, Hemingway, Jorge Amado, Graciliano, Drummond, Vinicius, Bandeira… Lá eu vi meus primeiros filmes no Cine Poty, fitas de Tarzan, Tim Holt, Zorro, todos os cowboys, seriados… Não tenho informações de nenhum artista na família, embora a habilidade de minha avó, tias-avós e tios como costureiros, eu considere como arte. Soube que meu bisavô gostava muito de cinema. Saía, mesmo se chovesse, guarda-chuva, bengala, para ver os filmes mudos de Chaplin e Buster Keaton. Talvez eu tenha herdado dele, no sangue, minha paixão por cinema. Há algum tempo escrevo “Trem da Memória”, um livro com um longo poema que já tem mais de 40 páginas, onde resgato minhas lembranças de criança até ir para Fortaleza no final dos anos 60.

FCEF -Você atuou/atua em vários segmentos artísticos e também acadêmicos. Qual dessas atividades faz seu coração bater mais forte?

NV- Literatura e cinema são minhas atividades de vocação e trabalho. Adoro dar aulas, compartilhar o que me faz feliz, o que me estimula esperança. Por um período nos anos 70 e 80 trabalhei como repórter fotográfico no jornal O Povo, em Fortaleza, além de escrever uma coluna semanal sobre cinema. Exercitei também a fotografia registrando para meu arquivo, shows, peças e tudo que me encantasse como manifestação artística. Trabalhei como técnico em audiovisual na Secretaria de Cultura do Estado do Ceará nesse mesmo período. Mas a fotografia nunca foi o meu propósito maior, era um meio de chegar ao cinema. Não me considero fotógrafo. A literatura já está em mim desde sempre. Tudo que via, mais do que via, olhava com um olhar poético. Menino e adolescente, escrevia poemas e contos compulsivamente e escondido. Sempre digo que não seria cineasta se não fosse antes poeta. Fazer cinema é comovente, é estimulante recriar uma realidade na ficção e perseguir essa realidade no documentário. Mas me sinto mesmo por inteiro quando escrevo. É na escrita que me sinto vivo.

FCEF- O seu curta – Um cotidiano perdido no tempo – é autobiográfico?

NV- Foi o meu primeiro filme, 1988, e é autobiográfico, no sentido em que conto a vida de minha avó e duas tias-avós, que me criaram quando meus pais tiverem que ir para Fortaleza atrás trabalho. Cada plano, cada sequência do filme é um recorte do meu olhar de criança naquele casarão onde nasci, vivi minha infância e passava minhas férias escolares. “Um cotidiano…” faz parte do que chamo de “trilogia embrionária”. Como uma sessão regressiva, o projeto dos três curtas começa cronologicamente pelo último: “Cotidiano” mostra a geração de minha avó e tias-avós no fim da vida, quando todos os parentes crescem e partem e ficam sozinhas no casarão à espera da morte; “O último dia de sol”, realizado em 1999, narra a prisão do meu pai no golpe de 64, e “O leito seco do rio”, que ainda não filmei, conta o encontro do meus pais, jovens, enamorando-se, casando-se. De certa forma, estou nos três filmes.

FCEF- Como nasceu seu interesse pela música?

NV- Não sei, não tenho uma explicação. Não sou músico, não toco absolutamente nada, não canto. Mas tenho uma paixão profunda por música. Ouço tudo! Sem eu mesmo notar, passei a pesquisar música, comprar discos, livros, ir a todos os shows… E já percebi que quando escrevo roteiros pra cinema, sempre alguma música, alguma canção corre paralela, me inspira, me fazem criar imagens a partir dos sons. Sou um leitor compulsivo de biografias, e de um tempo pra cá, vi que a maioria desse gênero na minha estante, são biografias de cantores, compositores, bandas… Estou escrevendo o roteiro de um curta baseado na canção “Eu vou tirar você desse lugar”, de Odair José.

FCEF- Você conviveu com Belchior. Fale um pouco sobre isso.

NV- Minha convivência com Belchior foi a mesma que tive com os músicos que fizeram parte do chamado Pessoal do Ceará, Ednardo, Fagner, Rodger, Teti… Mas com Belchior foi diferente por um episódio que aconteceu em 1977, quando ganhei dele o vinil e fita K7 de “Coração selvagem”, no estúdio da rádio Iracema, em Fortaleza, durante o programa do Will Nogueira. Vê-lo pessoalmente, e me abraçando como se fôssemos conhecidos, é inesquecível. Eu era muito novo, tímido ao extremo. Desde dessa época o meu contato com Belchior era sempre de encantamento, admiração por suas letras. Uma vez eu andava pela rua Barão do Rio Branco, em Fortaleza, e na outra calçada, ouvi alguém gritando meu nome, e não acreditei que era ele, Belchior! Lembrava-se de mim!!! Outra vez, no final dos anos 90, eu já morando em Brasília, fui a uma loja onde ele autografava um disco recém-lançado e fazia show na cidade, e ao me ver chegar, afastou-se um pouco pra me cumprimentar, dizendo “olha aí meu conterrâneo!”. Não conseguia conversar com ele, só ouvia, imantado. A profundidade intelectual com a simplicidade em tudo que falava era o que mais me magnetizava. Tem uma máxima de Leonardo Da Vinci que se aplica perfeitamente à personalidade, ao ser humano e ao artista que sempre será Belchior: “a simplicidade é o último estágio da sofisticação.”

FCEF- Quem é seu cineasta predileto e por que?

NV- Tenho vários cineastas prediletos: Ingmar Bergman, François Truffaut, Yasujiro Ozu, Visconti, Glauber, Almodóvar, Roberto Santos, Nelson Pereira dos Santos… tantos! Mas posso destacar Vitorio De Sica, pelo filme que marcou minha vida, “Ladrões de bicicleta”. A primeira vez que assisti tive certeza que o neorrealismo italiano era o tipo de cinema que queria fazer, que a vida que eu tive, principalmente nos bairros pobres onde pequeno e adolescente morei em Fortaleza, era neorrealismo puro. E a relação filho e pai que o filme trata era muito parecida com a que tive com o meu. Gosto tanto desse filme que dei o nome Enzo ao meu primeiro filho, em homenagem ao ator menino, Enzo Staiola.

FCEF- Como você vê o atual panorama do cinema brasileiro?

NV- O cinema brasileiro, depois do desmanche que Collor fez nos anos 90, no começo dos anos 2000 atingiu um alto grau de maturidade criativa. Conseguiu se deslocar de produções centralizadas no eixo Rio-São Paulo, e impôs um cinema com seus sotaques e autenticidade, sem regionalismos, mas falando da aldeia em proporção universal. O cinema que se faz no Nordeste é um dos melhores de todos os tempos no país. Produções de Pernambuco, da Bahia, do Ceará, por exemplo, revelaram um cinema pulsante, forte, telúrico, com cineastas que dominam uma linguagem própria, como Claudio Assis, Paulo Caldas, Rosemberg Cariry, Petrus Cariry, Camilo Cavalcante, Lirio Ferreira, Karim Aïnouz, Kleber Mendonça, Hilton Lacerda… Agora, neste quadro que se apresenta com o novo governo, o desafio de fazer cinema será maior e mais difícil. Mas possível como resistência. E necessária.

FCEF- Seu longa sobre a Música do Ceará, como está o projeto?

NV- “Pessoal do Ceará – Lado A Lado B” é um documentário que cobre 50 anos de música cearense, de 1964 a 2014, partindo do que se denominou Pessoal do Ceará, sua concepção, estética, proposta, influência e referência para gerações seguintes, e seu destaque e importância na história da música brasileira. Mais do que contemplativo, o projeto do filme é analítico, crítico. Questiono o que foi Pessoal do Ceará. Passei quase quatro anos em Fortaleza filmando com recursos próprios, de produtoras de amigos. O projeto não foi contemplado em cinco tentativas de editais locais, no Ceará. Chegou a um ponto em que não dei mais conta de continuar bancando o filme. Tive que parar. Falta pouco pra terminar, mas falta muito pra concluir, porque a edição é complexa, requer tempo e dinheiro. Não tenho perspectivas. Mas já desisti de desistir. Um dia termino.

FCEF- Você já teve poema seu musicado. Fale um pouco sobre seu lado poeta e compositor.

NV- Alguns compositores e cantores amigos musicaram vários poemas meus: Ricardo Augusto, Mona Gadelha, Calé Alencar, Parahyba de Medeiros, Bernardo Netto… mas não sou um letrista. Sou poeta. Os amigos se encantam com uns versos e colocam melodias. É um outro lado do poema, ganha uma dimensão que não se imagina na escrita.

FCEF- Planos futuros?

NV- O futuro é sempre agora. No próximo dia 15 de fevereiro, meu aniversário, estarei lançando meu livro de poemas, “Poesia Provisória”, em Fortaleza, depois Brasília e São Paulo. É meu presente de aniversário. No segundo semestre, o livro “Crônicas do Olhar”, uma coletânea de textos publicados do meu blog e página do Facebook, de 2009 a 2018.

Para conhecer mais: Blog

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