Descolando um lugar: Apê 80

Em 2013, logo depois que descobri Filipe Catto, após uma dica de ninguém menos que o ícone da música cearense Ednardo ter sugerido o vídeo de Filipe cantando sua música Alazão, em parceria com Brandão, eu comecei a vasculhar a internet em busca de material de Filipe para conhecer melhor aquele artista que tinha me impressionado tanto.

Um dos vídeos que mais me marcou foi o que registra a apresentação de Filipe em um lugar chamado Apê 80, no dia 15 de abril de 2011, onde ele mostra toda a sua emoção, cantando com muita garra e deixando o público completamente envolvido em sua performance visceral. Além disso, o local me deixou intrigada, porque dava para ver, nitidamente, que era uma cobertura de um prédio, mas ao mesmo tempo um lugar apertado e até improvisado. Minha curiosidade aguçou e desde aquele momento tive muita vontade de saber onde era o tal Apê 80, mas o tempo passou e o assunto ficou esquecido.

De 2011 para cá muita coisa aconteceu, e este ano, já morando em São Paulo há dois, eu vejo o anúncio de um show de Pélico que ia acontecer…no Apê 80! Mal pude acreditar que eu ia, finalmente, conhecer aquele lugar que tinha me impressionado tanto nos vídeos que assisti. E repleta da curiosidade que é uma das minhas características, lá fui eu mais cedo do que o horário marcado para o início do show, com o intuito de descobrir mais sobre aquele espaço tão especial.

Ao tocar a campainha do apartamento 80, daquele prédio bem pertinho da Augusta, me foi permitido subir e começar a explorar o local, que, a princípio não me lembrava em nada o espaço registrado no vídeo de 2011. Logo na entrada sou recebida por um rapaz super tranquilo e pergunto se posso falar com algum responsável pelo espaço e foi assim que conversei com Paulo Marcondes, que me contou tudo sobre o Apê 80, um dos lugares mais incríveis e descolados que já conheci nesta cidade tão cheia de espaços inacreditáveis.

Régis Damasceno e Pélico passando o som no terraço do Apê 80

Tudo começou em 2009 quando três jovens recém formados em jornalismo, lá no Paraná, vieram para São Paulo, à procura de emprego e resolveram alugar um apartamento de 4 quartos, sendo 3 em baixo e 1 outro no terraço. Juventude, jornalismo e música se completam e se atraem e logo o espaço residencial começou a se transformar em uma verdadeira república, frequentada por artistas. Com as amizades e também o vai e vém de outros amigos em passagem pela cidade, o apartamento chegou a abrigar 8 pessoas.  Um dos frequentadores do lugar, o músico Rafael Castro um dia sugeriu que se fizesse uma festa mais organizada e “profissional” do que as rodinhas de violão e conversa habituais. Todos gostaram da ideia e começaram a cobrar uma entrada, vender cerveja a preço acessível e chamar mais amigos para as “festas”.  Em 2011 os shows começaram a ficar muito concorridos e devido ao lugar bem acessível e perto de onde tudo acontece, logo a fama era grande e o público crescia. Só que como o aluguel era residencial, não era possível fazer dali um lugar público e tudo era feito escondido dos vizinhos e da imobiliária responsável pelo prédio.  Logo Tulipa Ruiz fazia seu show por lá. Saulo Duarte também e Filipe Catto, que segundo Paulo, foi um dos momentos mais marcantes e o show mais bem registrado que eles tem, devido à bela iluminação feita no show. Luiz Chagas (do Isca de Polícia) também tocou com Filipe naquela noite.

Como era de se esperar, um dia alguém passou na portaria e perguntou quando seria a próxima festa. O porteiro denunciou à Imobiliária que chamou a atenção dos inquilinos que tiveram que suspender as atividades culturais. Foi prometido que os shows não aconteceriam mais e dois dos moradores originais, Paulo e um outro rapaz foram embora, ficando apenas Rodolfo que acabou voltando a promover os shows. Só que mais uma denúncia aconteceu e dessa vez a Imobiliária não deu trégua e efetuou o despejo, após mostrar um cartaz com o anúncio de um show no local. Isso foi em 2012. 

Em 2014, Paulo, que ainda tinha as chaves do imóvel, resolveu entrar lá e ver como estavam as coisas. Completamente abandonado e com sinais de invasão, o apartamento ainda mantinha, mesmo assim, a magia inicial e Paulo resolveu tentar alugá-lo mais uma vez, só que prometeu não fazer festas novamente por lá. Começou com aulas de Ioga, mas as festas/shows voltaram a acontecer a partir de 2015, só que de forma bem mais discreta para não chamar muita atenção dos vizinhos. 

E foi assim que em junho de 2018 eu pude conhecer esse espaço incrível e verificar que o lugar mostrado nos vídeos é, de fato, o terraço do apartamento e não a entrada que não me pareceu familiar com o que tinha visto nos vídeos. O show de Pélico foi incrível por lá. Muito frio naquela noite, muito vento, mas a bela surpresa ainda iria acontecer. Filipe Catto foi assistir ao show e foi convidado para cantar. Foi um presente duplo para mim naquela noite de 10 de agosto deste ano. Não só conheci um lugar que queria muito, como pude ver Filipe cantando ali de novo, após 7 anos. 

A má notícia é que o Apê 80 encerrou suas atividades novamente. Tomara que seja temporário, como foi das outras vezes e que logo se possa frequentar outra vez o terraço incrível.  Acredito que o futuro seja esse para a música independente e alternativa: os espaços mais caseiros e menores. Precisamos desses espaços e de pessoas guerreiras e amantes da cultura como Paulo e Rodolfo. A sorte desta cidade é que existem outros guerreiros culturais por aí, como é o caso, por exemplo de Hayge Mercúrio, com seu espaço Loki Bicho, que mesmo mudando de endereço de vez em quando resiste e soma forças com os artistas maravilhosos daqui e de outras cidades que por aqui passam e precisam divulgar seus trabalhos. Mas, como sempre fala Charles Gavin, ao encerrar o seu programa O Som do Vinil : isso já é outra história. Ainda falaremos sobre o Loki Bicho por aqui.

Agradeço ao Paulo Marcondes pela gentileza de conversar comigo e me contar sobre o Apê 80. 

Para quem quiser saber um pouco mais, aqui a matéria que saiu na folha sobre o espaço:https://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/2012/04/1077821-falta-espaco-para-a-musica-brasileira-diz-criador-do-ape-80.shtml

(Texto e fotos de 2018 de Klaudia Alvarez)

1 Comment

  1. Vocês são incríveis! Os vídeos do AP 80 do Filipe são uns dos meus preferidos! Os vejo , eventualmente, desde 2012, quando comecei
    a acompanhar a carreira do nosso divo! Foi maravilhoso conhecer a história do lugar! Parabéns por matéria tão esclarecedora e tão bem redigida!

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