Memória: Ana Cristina César

ANA CRISTINA CÉSAR, UMA ESCRITORA INQUIETA

(Christina Eloi)

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“Ana Cristina concede ao leitor aquele delicioso prazer meio proibido de espiar a intimidade alheia pelo buraco da fechadura.

Um dos escritores mais originais, talentosos, envolventes e inteligentes surgidos ultimamente na literatura brasileira.”

(Caio Fernando Abreu)

Tomei conhecimento do trabalho dessa escritora, há bem pouco tempo. É lamentável o fato de que seu nome não conste nos livros de literatura com mais frequência. Ela faz parte de um movimento literário relativamente novo, a poesia marginal. Porém, esse movimento não costuma ser divulgado por aqueles que detém o poder de apresentar a literatura brasileira nas escolas e nos cursos livres sobre o assunto.

A poesia marginal, que apareceu na década de 1970, tinha essa denominação, pois foi aquela que reproduzia textos utilizando o mimeógrafo, uma máquina que fazia cópias caseiras. Era uma forma alternativa de produzir e distribuir livretos de autores que não estavam no circuito tradicional da literatura. Esse modo de divulgação usado por esses artistas independentes foi uma maneira de burlar a censura durante a ditadura militar e também fazer resistência à política das grandes editoras que não apostavam em gente nova. Autores como Paulo Leminski e Torquato Neto faziam parte desse movimento. Num momento histórico em que as mudanças e os questionamentos estavam latentes, Ana Cristina assim escreve sobre os tropicalistas:

(…) um novo grupo de jovens artistas começa a expressar sua inquietação. Desconfiando dos mitos nacionalistas, do discurso militante de esquerda, percebendo os impasses do momento cultural brasileiro e recebendo informações dos movimentos culturais e políticos da juventude que explodiam nos EUA e na Europa – os hippies, o cinema de Godard, os Beatles, a canção de Bob Dylan, maio de 68 na França, etc. – esse grupo passa e desempenhar um papel fundamental não só para a música popular, mas para toda produção cultural da época, com consequências que vêm até nossos dias. (Ana Cristina César)

Essa autora ultrapassa a denominação de poeta marginal. Sua literatura nos aponta para uma autora inquieta com questões diversas, por isso seu universo não se encaixa apenas nesse rótulo. Ela e os autores de sua geração tentam romper com o modelo de literatura mais rígido, objetivo e impessoal da poesia concreta. Do mesmo modo, busca uma linguagem mais subjetiva e coloquial. Alguns estudiosos consideram Ana Cristina a mais importante poeta brasileira pós 1970. Ela traz na sua escrita uma construção de identidade feminina: comportamento, modos de vida, linguagem. Ela diz:

O feminino só existe na sexualidade. Em todos os outros aspectos da vida é o social que domina, é o ser construído pela cultura do meio e da época. Todas as vezes, pois, que nos distanciamos da sexualidade pura, será difícil distinguir o feminino do masculino.

Ao longo de sua obra, o que se percebe é que ao falar sobre a mulher, o feminismo e o prazer, ela está falando sobre si mesma. Esse fato traz dúvidas sobre sua literatura ser ou não autoral.

Escrever cartas é mais misterioso do que se pensa. Na prática da correspondência pessoal, supostamente tudo é muito simples. Não há um narrador fictício, nem lugar para fingimentos literários, nem para o domínio imperioso das palavras. Diante do papel fino da carta seríamos nós mesmos, com toda a possível sinceridade verbal: o eu da carta corresponderia, por princípio, ao eu “verdadeiro”, à espera de correspondente réplica. No entanto, quem se debruçar com mais atenção sobre essa prática perceberá suas tortuosidades. (Ana Cristina César)

Ana Cristina traz influências de autores como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Emily Dickinson, Sylvia Plath e Katherine Mansfield. Essa diversidade faz com que sua obra possa agradar a acadêmicos e aos jovens que se identificam com seus dilemas e sofrimentos.

Ela nasceu em 02 de junho de 1952, no Rio de Janeiro. Seu contato com a escrita aparece desde muito jovem. Aos 6 anos, antes de ser alfabetizada, ela ditava poemas para sua mãe. Formou-se em Letras pela PUC do Rio de Janeiro e fez mestrado na Inglaterra. Sua família era de classe média, considerada muito culta e estimulava o contato com as diversas formas de arte e cultura. Num dos relatos da época, Ana diz que sua literatura era “construída de forma muito penosa”. Florência Garramuño, estudiosa de sua obra, escreveu que Ana Cristina viveu em estado de emergência e isso se reflete em sua literatura. Ela trazia todos os conflitos e angústia dos jovens num momento histórico de grandes transformações.

Essa carioca era privilegiada pela consciência crítica. Para ela, não havia separação entre literatura e vida.

A teus pés

 

é muito claro

amor

bateu

para ficar

nesta varanda descoberta

a anoitecer sobre a cidade

em construção

sobre a pequena constrição

no teu peito

angústia de felicidade

luzes de automóveis

riscando o tempo

canteiros de obras

em repouso

recuo súbito da trama

Sua morte precoce aos 31 anos, em 29 de outubro de 1983, é um tema que permeia os textos que falam sobre a escritora. “Os momentos mais difíceis na vida dela foram os dois últimos anos antes do suicídio”, relatam alguns amigos e as cartas que ela deixou. Ana era uma pessoa alegre e inteligente e é constrangedor que, com a importância de sua obra e de seus posicionamentos frente a literatura e ao papel da mulher na sociedade, a escritora seja lembrada por fato tão triste e pessoal, como o suicídio.

Soneto
Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer


Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

 

Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo


Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

 

Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela


que se chama Ana Cristina

E que se diz ser alguém


É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?

Fonte: https://www.resumoescolar.com.br/biografias/ana-cristina-cesar/

http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2866/ana-cristina-cesar

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/quem-foi-ana-cristina-cesar-poeta-homenageada-da-flip-2016-por-luisa-gadelha/

https://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/13/cultura/1447440177_356883.html

http://www.letras.ufrj.br/posverna/doutorado/WillmerRS.pdf

One thought on “Memória: Ana Cristina César

  1. Ótimo texto. Pra mim, que pouco a li, mas li a respeito, me traz uma Ana Cristina César mais viva, mais inquietante….
    Obrigado pelo texto. Sugiro debruçarem mais sobre sua poesia e voltarem com outras análises que preencham até o ponto de seu limite (seu suicídio) – não pelo fetiche do suicídio, mas a evolução de seu texto neste tempo.
    Adorei o blog! Ótimo trabalho!

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