Papo Afinado: Patrícia Palumbo!

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Patrícia Palumbo e Filipe Catto no Mercado Vero Peso de Belém – Fotos do Instagram de Patrícia

Esta é uma das entrevistas que nós, aqui da FCEF, mais desejávamos fazer. Afinal de contas, o nome da coluna PAPO AFINADO, foi escolhido como uma homenagem a ela, que apresentava um programa de entrevistas musicais na TV Educativa, chamado Conversa Afinada.

Ela é uma das maiores referências do Brasil quando se fala em jornalismo cultural. Pioneira em muitos aspectos, também inovou ao criar a sua Rádio Vozes. É com a maior alegria e o maior prazer que apresentamos nossa entrevistada deste mês: PATRICIA PALUMBO!

FCEF – Patricia, um prazer imenso estar aqui com você. Muito obrigada por ter aceito nosso convite e conversar com a gente! A primeira coisa que queríamos saber é como você descobriu o seu caminho profissional.

PP – Foi mais ou menos sem querer. Eu costumo dizer que tive muita sorte na vida porque quando eu estava no primeiro ano da Faculdade, o meu professor de rádio precisava de estagiários para a Rádio Cultura AM e FM. Aí ele chamou alguns amigos e me lembro que uma dessas amigas preferiu trabalhar em um museu e me falou: – Vai lá você, fica no meu lugar. Aí eu fui para atender telefone! Era no programa do Walter Silva, o Picapau! (Nota de FCEF: um radialista importantíssimo, principalmente para a música cearense, pois ele produziu o primeiro disco do chamado “Pessoal do Ceará” : Rodger Rogério, Téti e Ednardo, nos anos 70). Ele tinha um programa de música antiga e eu atendia aos ouvintes e conversava com ele sobre o que ele tocava que era: Custódio Mesquita, Orestes Barbosa, Francisco Alves…era dessa época o repertório dele. Aí eu comecei a me enfiar dentro da discoteca da Cultura que tinha 50 mil LPs nessa época. Eu estudava Jornalismo na parte da manhã, na PUC, e à tarde eu ia para este estágio na Cultura, e à noite eu fazia História na USP. Então, nos períodos em que eu estava mais livre, eu ficava na discoteca, buscando os discos, vendo as coisas e comecei a descobrir que muitas daquelas canções que eu ouvia a minha mãe cantando eram clássicos da música brasileira. Foi maravilhoso. Eu tinha 18 anos. Era algo pra ter um dinheiro, pra me ajudar naquele momento de estudante, o pai pagando a faculdade e tal. E ao mesmo tempo foi uma oportunidade que a vida me deu para que eu descobrisse que o rádio já estava em mim. O meu pai foi ator de radionovela no Rio de Janeiro. Minha mãe era viciada em rádio desde criança, quando o rádio era o grande veículo de entretenimento das famílias. Meu pai me ensinou a ouvir rádio, a zapear rádio. Ele também colecionava rádios (aparelhos). A gente tinha isso em comum. Mas quando a gente é adolescente, não valoriza muito essas coisas. Depois é que a ficha começa a cair. Aí eu fiquei na Cultura, e de atender telefone eu passei a dar palpite na programação, carregar fita e em seguida fazer a programação, fazer programas…Fiquei na Cultura por 8 anos e ali me encontrei totalmente.

FCEF – Você é paulistana, Patrícia?

PP- Não, sou Caiçara. Do litoral, de São Sebastião. Com 16 anos eu vim pra cá pra terminar o colegial, fazer Faculdade de História e voltar pra lá pra dar aula meio período e no outro período continuar na praia, mas aí eu encontrei o Jornalismo, a Rádio e acabei ficando. Não cheguei a terminar a Faculdade de História. Eu ia à noite, de bicicleta e teve um momento que pensei: não aguento mais! E eu me dediquei muito à rádio e aquilo me dominou de uma forma que eu sabia que não daria aula, pelo menos não de História e aí no 3º ano eu parei.

FCEF – Fala um pouco de seus programas na rádio. Da sua Rádio Vozes e também de seu programa na TV, o Conversa Afinada.

PP- Bom, o Vozes do Brasil também foi outra surpresa, mais um presente que a vida me deu. Eu fazia na Rádio Eldorado, um programa chamado A Hora do Rush, que era das 6 da tarde às 8 da noite, ao vivo, com informações sobre o trânsito e música. Como eu fazia a programação da Eldorado, eu mexia na programação conforme o dia ia acontecendo. Se estava chovendo muito, trânsito congestionado, eu colocava uma Ella Fitzgerald com Joe Pass para deixar o pessoal mais sossegado… Se estava morno demais, eu colocava uma Aretha Franklin pra dar uma animada. Eu sabia de onde a música vinha porque eu que tinha programado. E aí por questões internas da Eldorado eu acabei saindo de lá, em um momento em que a rádio estava com um pico de audiência jamais visto na história daquela emissora, por conta da Hora do Rush. A gente estava ganhando prêmios, vendendo super bem, Foi um momento em que a rádio saiu do vermelho. Foi a primeira emissora a colocar helicóptero em FM, pra prestação de serviço sobre o trânsito. O programa foi premiado, foi um sucesso. Aí eu saí, e na mesma semana eu entrei no ar, na Musical FM, uma emissora que só tocava música brasileira. E como eu estava bombando na Hora do Rush, eles me deram esse horário. Só que às 7 da noite começava a Voz do Brasil (o programa oficial do Governo) e tinha o bordão “No lugar da Voz do Brasil, Vozes do Brasil”, mas era um vitrolão, programação corrida. Aí quando eu entrei, passei a fazer entrevistas, a comentar a programação e transformei o vitrolão em um programa de verdade. E ganhei prêmios. Foi assim que nasceu o Vozes do Brasil. Há 19 anos! E ele ganhou outros formatos. Eu voltei pra Eldorado e, lá, ele foi pro horário de meio dia, ficou vários anos. Eu fiz programa de auditório, programa itinerante, virou festival…Eu lancei dois livros com esse nome, Vozes do Brasil, de entrevistas que foram feitas para os livros e não transcritas dos programas da rádio, mas, claro, nasceu ali. Me lembro do Ed Motta me dizendo: “Nossa, passou tão rápido. Vai lá em casa ouvir uns discos, conversar mais.” Eu disse: “Claro, mas eu sou jornalista. Tenho que gravar isso” e aí virou a série de livros “Vozes do Brasil”.
O “Conversa Afinada” foi um convite que a Beth Carmona (diretora da TV E do Rio de Janeiro, na época) me fez para ser a âncora desse programa que já existia lá. Era uma delícia. Um programa que dava um espaço até então inédito para a música brasileira. E foi muito bom porque o programa abriu um pouco o meu repertório. Eu entrei ali em um universo, que não necessariamente são os universos do meu gosto pessoal. Então, eu entrevistei gente que no Vozes do Brasil, por exemplo, eu não teria entrevistado. Como Neguinho da Beija-Flor, por exemplo. Que eu admiro muito, mas que não cabe dentro do Vozes do Brasil. E vários outros que passaram por lá, e eu acabei ficando com a cabeça um pouco mais aberta pra música brasileira de outros gêneros e estilos diferentes dos que eu toco na rádio, ainda que o Vozes seja um leque bastante aberto.

FCEF – Como você vê o momento atual do Jornalismo Cultural no Brasil ?

PP- Eu acho que nós estamos passando por uma crise geral no Jornalismo. Ser jornalista era motivo de orgulho na época em que eu me formei. A gente tinha uma formação ética dentro da Faculdade… uma formação de valores. Eu sempre repito isso: se você é um formador de opinião, isso acarreta responsabilidade. E as pessoas perderam essa responsabilidade. Acham que ser formador de opinião é ter seguidores no Instagram, no Facebook. É ter curtidas, é ser bonito, ser celebridade, sei lá… O jornalista, ele pode até ser muito conhecido , mas ele não é uma celebridade. Dentro desse conceito celebridade/artista. Nós temos outra responsabilidade. É uma questão de formação. Se eu abro o microfone e digo que gosto de determinado artista e não de outro, eu estou formando pessoas. Se eu escolho, faço uma curadoria dentro do meu programa, eu estou mostrando uma coisa, indicando um caminho. Vou dar um exemplo bem radical, diferente do Vozes do Brasil, em termos de entretenimento misturado com Jornalismo. Estes reality shows que mostram coisas aviltantes, eu acho. Muitas vezes tratam o ser humano como mercadoria. Incita o pior do ser humano para se ter mais audiência. Eu acho um desserviço. Aí que a tal responsabilidade, ser formador de opinião, a ética foi pro ralo. Eu acho que a crise na comunicação e no jornalismo é enorme, nesse sentido. No Jornalismo Cultural a gente tem visto um esvaziamento das redações, das editorias de cultura, das revistas de cultura que estão acabando, que não tem apoio, patrocínio. Mas por outro lado é interessante, porque isso dá uma quebrada nas estruturas pra que nasçam coisas novas. Como o espaço na Internet que pode ser ocupado de maneira interessante.

FCEF – E a TV Cultura, que volta e meia está em crise?

PP – Historicamente, né? A TV Cultura, como qualquer emissora de rádio, TV, passa por diretorias diferentes e cada diretoria tem uma cabeça. Quando está ligada a grupos religiosos ou políticos, aí é mais complicado ainda, mas é do trabalho do jornalista você fazer parte de uma estrutura. Se você não quer fazer parte de uma estrutura, seja um jornalista independente. Pra isso você tem que ser empreendedor, empresário, tem que ter outras noções que não são só as do Jornalismo. E isso foi uma das coisas que me levou a fazer a Rádio Vozes. Um dos nossos bordões internos é “a rádio que você sempre quis fazer”. A rádio que você sempre quis ouvir está no ar e a que a gente sempre quis fazer é o que a gente fala internamente. Estamos tentando fazer um empreendimento com essas situações horizontais, com outro modelo de negócio, diferente do que temos vivido na nossa vida profissional aí fora. É uma utopia, mas se a gente não exercitar isso…Mas estamos com 4 milhões de acessos, estamos indo super bem!

FCEF – E projetos futuros?

PP – Estou com uma nova editora e deve sair um terceiro livro no ano que vem. Uma compilação das edições anteriores e mais entrevistas inéditas que já estão prontas e que vão se juntar aos volumes já feitos. Ano que vem o Vozes do Brasil faz 20 anos! Meu projeto atual é fazer a Rádio Vozes sobreviver a essa crise.

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Patrícia Palumbo, Maria Gadú e Filipe

FCEF – Quem você ainda não entrevistou e gostaria de entrevistar?

PP- Jorge Benjor! Mas ele é meio avesso a entrevistas de uma forma geral. Mas eu adoraria.

FCEF – Você nunca quis trabalhar com produção de discos/shows?

PP- Eu gosto de dar palpite sobre repertório, mas a feitura de um disco é uma empreitada muito específica. Eu gosto de estar junto, de acompanhar as gravações, de estar nos bastidores, gosto de juntar pessoas…Eu fiz pro Tom Zé a seleção das cantoras que gravaram com ele o “Estudando a Bossa” e foi uma delícia fazer isso. E dei uma força pra ele no estúdio, mas acho que o artista, neste momento, tem que ficar muito voltado pra ele mesmo e acho que este trabalho do produtor é muito ingrato, porque ele fica dando palpite em algo que não é seu. É quase como se você estivesse se metendo em um casamento (risos). Eu gosto de acompanhar, mas prefiro manter uma distância saudável.

FCEF – Como você conheceu Filipe?

PP- Conheci Filipe Catto na minha casa! Ele me foi apresentado pela Adri Tubino, amiga em comum, gaúcha. Filipe trabalhava na produtora dela, em Porto Alegre. E um dia, em casa, ela falou: “vou levar um amigo” e levou o Filipe. E ele chegou, com um EP, que ele tinha gravado, depois de sua passagem pelo exterior, onde morou e queria vir para São Paulo. Aí conheci a música dele ali e fiquei fã, porque ele é ótimo! E a gente tem se frequentado muito desde então. Ele tem a idade da minha filha, a Gabriela. Eles também ficaram amigos. Além dele ter um instrumento magnífico que é a capacidade vocal dele, a extensão, o alcance, ele tem uma coisa linda que é a entrega dele pra música. A entrega dele, no palco, é algo raríssimo de se ver. A gente brinca dizendo que ele é muito mais Maria Bethânia que Gal Costa (risos). O famoso: qual seu Beatle preferido e qual seu baiano preferido…O Filipe vem dessa tradição de cantoras mais dramáticas… Não só Maria Bethânia, mas Dalva de Oliveira, e se a gente for buscar nos homens, alguma coisa de Orlando Silva, Francisco Alves. Ele tem essa coisa da tradição da canção brasileira. Tanto que o programa favorito dele da Rádio Vozes é o Tabuleiro, que só toca clássicos. Ele é um artista que gosta dessa tradição, da canção amorosa, do bolero, do romance, do drama. Adoro!

FCEF – E pra terminar, uma pergunta complicada. Com tudo que estamos atravessando nesse momento em nosso país, você acha que o Brasil ainda é viável ?

PP – Eu estou empreendendo, neste momento do país. Então eu acho, que não só o país, mas o mundo está vivendo um momento bem difícil, sem dúvida, mas de transformação. Eu penso muito através da filosofia budista, sobre algumas coisas. Eu acho que a luz vem da escuridão. A gente só está vendo essa coisa horrorosa que acontece hoje em dia, porque tem luz em cima dessas coisas, ou a gente não estaria vendo. Se a gente não tivesse passado por esse processo do impeachment e visto o nível baixíssimo dos homens que estão no Congresso, a gente não estaria hoje brigando tanto para que isso se transforme. Então eu acho importantíssimo que a gente passe por esse momento agora. Acho mais importante ainda que a gente, que tem outro modo de encarar a vida, repercuta o outro discurso. Não acho que a gente tenha que rebater essa violência, esse preconceito, essa coisa horrorosa, com mais horror. Acho que temos que fazer com que o outro discurso ganhe eco, ganhe força e reverbere. Por isso que eu faço a Rádio Vozes. Também por isso. Porque eu acho que o discurso do bem, do amor, das coisas boas que tem aí, deve ser reforçado. Tem muita gente fazendo coisa legal. Tem muita gente boa no mundo. É que é mais fácil você entrar pra xingar, pra reclamar, pra falar coisa ruim do que elogiar. As pessoas parecem que se diminuem quando elogiam o outro. E isso é uma grande bobagem porque quanto mais o outro brilha, mais esse brilho reflete na gente. É assim que temos que pensar e tocar pra frente. Tem luz, senão não estaríamos vendo a escuridão.

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Johnny Hooker, Filipe, Patrícia Palumbo e Xênia França

 

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