Papo Afinado: Lillian Aidar

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Lillian com Fernando Faro

FCEF teve o prazer de conversar com Lillian Aidar, diretora de programas de TV e a principal assessora de Fernando Faro, uma das maiores figuras da TV brasileira de todos os tempos. Agradecemos a gentileza de Lillian em nos receber e conversar com a gente.

FCEF – Como foi sua trajetória profissional até começar a trabalhar com Fernando Faro?

LA – Minha formação é em História. Eu fazia a PUC/SP no início da década de 80 e, no meio da faculdade, me interessei por música. Aí fui trabalhar em uma gravadora chamada Som da Gente (Nota para os mais jovens: Som da Gente foi um dos primeiros selos independentes a lançar  discos de bandas e artistas de muita qualidade, música instrumental, etc). Minha função era sair com uma mala, cheia de vinis e vender nos bares, à noite. Na época não tinha a Vila Madalena, era Bexiga mesmo. Nessa mesma ocasião, eu vi uma nota dizendo que  Fernando Faro tinha assumido a direção de um programa chamado 90 minutos na TV Bandeirantes. Aí eu vi a notícia e pensei: quero trabalhar nesse programa. Eu já acompanhava o trabalho do Faro, porque ele tinha dirigido o show do Gonzagão e Gonzaguinha que eu gostava demais e tinha assistido ao show várias vezes. Aí eu resolvi pedir uma entrevista para que o Faro me conhecesse. E foi algo inesquecível porque quando ele me perguntou o que eu fazia, eu disse:História e ele respondeu que não precisava de ninguém para lhe contar histórias. Eu era muito menina e saí de lá completamente decepcionada, cerca de dois minutos depois de ter entrado. Mas ainda no corredor da TV, eu escutei alguém chamando “Félix!” e olhei para ver quem era. Eu sabia que tinha um tio que trabalhava em TV. Cheguei perto e perguntei: Você é o Félix Aidar? Ele disse:Sim. E falei que era a sobrinha dele e contei o que tinha acontecido. Que o meu desejo de conseguir um estágio tinha sido frustrado pelo Faro. Ele me perguntou se eu queria estagiar na TV e se tivesse interesse mesmo que voltasse no dia seguinte. Eu voltei e o estágio era meu! Meu tio era gerente de produção da Bandeirantes na época. Passei a ser Assistente de Produção Musical, mas absolutamente contra a vontade do Faro. Nos primeiros tempos ele nem olhava para mim, me ignorava totalmente. Eu saía cedo da Faculdade e ia pro estúdio. Faro também chegava cedo e começou a me pedir coisas, pois eu era a única a estar lá. Eu percebia que ele estava doido para eu pisar na bola e ele poder me mandar embora. Só que por eu ter trabalhado na Som da Gente e por gostar muito de música e conhecer muitas pessoas, eu tinha uma agenda com os telefones e contatos de muitos músicos e resolvi que ia mostrar a ele que eu sabia trabalhar. Aí comecei a chamar convidados para o programa sem que ele soubesse. Ele deve ter se perguntado como eu tinha aqueles contatos todos. Pouco tempo depois o programa acabou e o Fernando Faro deixou a direção. Um outro programa ia estrear e fui chamada para ser a produtora musical e, para minha surpresa, eu fui indicada para o cargo pelo Faro. Ele, que no início nem queria ouvir falar em mim, teve a chance de indicar alguém para permanecer na casa e me indicou. Aí eu fui fazer mesmo TV, já como produtora. Trabalhei com Roberto Freire, que já faleceu. Era o programa do Flávio Cavalcanti. Eu fiquei um tempo na Bandeirantes até que recebi um telefonema da produção do Toquinho dizendo que ele ia estrear um show e que Fernando Faro tinha me indicado para ser a produtora do show. Aí eu saí da Bandeirantes e fiquei um ano trabalhando com Toquinho e fazendo a turnê desse show, o Aquarela.

FCEF – E a faculdade de História, você abandonou?

LA – Totalmente! Parei no terceiro ano. Acabei voltando para a Bandeirantes para produzir programas de final de ano, fui para a Record em seguida, porque aí onde o Faro ia, ele me levava junto. Ele criou um projeto de música na Unicamp e fui morar lá. Passei 4 anos morando em Campinas e trabalhando com ele. Fazíamos um show por mês. Eles tinham um ginásio fantástico. O que hoje é muito comum, nós começamos na época a fazer: os shows em que um artista convida outros talentos. Paulinho da Viola convida a Velha Guarda da Portela, coisas assim. Lobão com Capital Inicial. Dona Zica fazendo feijoada no final do show da Mangueira…

FCEF – Vocês eram funcionários da Unicamp?

LA – Sim! Eu saí e o Faro ainda ficou lá. Ele se aposentou pela Unicamp. Todo ano tínhamos lá o baile “cheak to cheak” (rostinho colado) e sempre levávamos a Orquestra Tabajara. Era sagrado isso. O convidado ou o Reitor escolhia ou o Faro indicava. Iam artistas como Ângela Maria, Cauby Peixoto, Roberto Luna. Era uma delícia de fazer. A gente se divertia muito com aquilo. Foi uma época incrível. Em seguida o Faro vou chamado para inaugurar uma casa. O Tom Brasil, que depois virou HSBC e agora é Tom Brasil de novo. Ele foi como diretor artístico da casa e me levou como assistente dele. Depois ele saiu e eu ainda fiquei um tempo, mas acabei indo trabalhar na TV Manchete, através daquele outro diretor para quem o Faro tinha me indicado na Bandeirantes.

FCEF – E como foi sua passagem pela TV Manchete?

LA – Foi muito bom. Foi a época em que ganhei mais dinheiro. O diretor queria que eu fosse para lá, então o que pedi eles me pagaram. Fui fazer o programa do Clodovil.Me diverti muito por lá. Mas logo veio o convite para o Faro ser o diretor artístico do Memorial da América Latina e mais uma vez fui trabalhar com ele. Para a inauguração trouxemos o Ballet de Cuba e foi um momento em que pude conhecer muita coisa da América Latina. Cheguei a viajar para Cuba com o Faro e pude conhecer muita coisas dos ritmos de lá. Trabalhamos juntos também no MIS.

FCEF – Como a TV Cultura entrou na sua vida?

LA – Mais uma vez foi o Faro, porém não fui trabalhar inicialmente com ele. Fui fazer o programa Bem Brasil, que era domingo pela manhã. A gente transmitia da concha acústica da USP. A equipe era uma delícia. Era uma farra o trabalho. A única coisa ruim era acordar muito cedo no domingo. Mas eu tinha um assistente incrível, que depois veio a ser o meu diretor. Ele amava tanto a música quanto eu e quando era 4 da manhã ele já estava na USP, montando o palco: o Marcelo Anik. Depois eu fui trabalhar com a Inezita Barroso no Viola minha viola. Em seguida voltei a trabalhar com o Faro, dessa vez no programa Ensaio. Foram cerca de 20 anos de parceria com ele nesse programa.

FCEF – O Faro deixou algum registro sobre  a trajetória dele na TV?

LA – Tem um livro sim, uma mini biografia, mas não foi lançado comercialmente. Foi dado de presente aos amigos na festa de 80  anos dele.Quando teve o especial na TV Cultura com a participação de vários artistas.

FCEF – Teve algum caso pitoresco que você gostaria de destacar nesse tempo em que trabalhou com o Faro no Ensaio?

LA – Tudo era muito divertido, mas tem coisas que são engraçadas apenas entre nós. Mas teve uma vez que íamos entrevistar uma pessoa, já idosa. Ele não escutava mais muito bem e o Faro falava baixo. E o entrevistado: “Como?” O Faro aumentava o tom da voz e nada. A pessoa voltava a repetir: “como?”. Aí ele deu um berro que ressoou no teatro inteiro. Eu e o iluminador tivemos uma crise de riso. Não conseguíamos parar de rir e a família do artista lá atrás e eu tentando pensar em algo triste para tentar parar de rir.

FCEF – 2011 foi o primeiro Ensaio feito com Filipe. De quem foi a ideia de convidá-lo?

LA – Nós recebemos muito material no programa. Muito disco de artistas novos para escutar. Na época o Faro morava a 30 km de São Paulo e costumava levar os CDs no carro e ir ouvindo no trajeto a turma nova. Mas não foi o caso do Filipe. Eu separei vários discos que tinha recebido e pedi ao meu estagiário para levar e ouvir. No dia seguinte ele voltou e me disse: Filipe Catto. Canta muito! Aí fui ouvir. Faro também escutou e nós dois gostamos muito. Pelo timbre de voz, pelo repertório. Ficamos impressionados com a gravação dele de Garçom, do Reginaldo Rossi. E chamamos para a gravação. Me lembro bem de quando ele chegou e pensei: meus Deus, é um bebê! (risos). Me lembro do Ricky chegar com ele e dizer que admirava muito o trabalho do Faro, o lance da Elis e nos apresentou o Filipe. E eu só pensava: mas é uma criança! (risos) Mas no momento em que ele entrou no estúdio, se transformou. Muito seguro, bem articulado, sem timidez nenhuma. Eu e Faro nos impressionamos como ele desenvolvia rápido as ideias, não fugia dos temas. E ficamos encantados com ele. Fizemos outras coisas depois com ele. Teve o programa “Móbile” que foi uma criação minha com o Ricky Scaff. Nos encontramos para um café, na Haddock Lobo e conversando falamos: vamos fazer algo. Filipe estava junto, mas ficamos mais eu e Ricky pensando nas possibilidades e decidimos ter um convidado a cada bloco. Teve a participação da Alice Caymmi, do Pipo Pegoraro, da Elba Ramalho e do Renato Aroeira, que fez os desenhos.

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Desenhos de Renato Aroeira para o programa Móbile

O Filipe cantando My Funny Valentine foi um pedido meu. Eu tinha muita curiosidade de ouvi-lo cantando essa canção e como eu sabia que o Renato Aroeira tocava essa no sax, achei que era a hora de juntá-los. Foi um programa lindo. E nessa época o Faro já estava meio que passando o bastão para mim. Ele me deixava fazer as coisas por conta própria e  expliquei a ele a ideia que eu e Ricky tivemos de um convidado a cada bloco. Fomos gravar e tem uma hora que o Filipe canta uma música do Chico Buarque a capella. Ele cantou a primeira vez e eu fui no ouvido dele e falei baixinho: “Filipe, quando você terminar, abaixa a cabeça como se você estivesse sentindo a dor que está na letra da canção”. Ninguém ouviu isso.  Faro, logo depois me chamou e pediu a mesma coisa, sem saber que eu já tinha dito isso ao Filipe. Era uma sintonia total entre nós.

FCEF – Depois do Móbile, Filipe participou do Especial Vinícius de Moraes, né?

LA – Sim. Foram três capítulos de Especial de Vinícius e um de músicas infantis.Filipe cantou “O filho que eu queria ter”. Aconteceu algo com esse material. Ele se perdeu. Existe um registro em DVD, aliás o Ricky já me pediu esse material centenas de vezes,  só que ele está na minha casa, perdido entre centenas de outros DVDs e sem nada escrito, então ainda não o encontrei. Essa foi a terceira vez que o Filipe participou de algo com a gente. O Faro não dizia o nome dele. Só virava para mim e dizia: “Chama o menino!”. Eu sabia que era do Filipe que ele falava.

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Filipe, Lillian Aidar e Ricky Scaff

FCEF – Você dirigiu o Filipe em um show no Teatro Eva Herz. Como foi ?

LA – Eu consegui um patrocínio com a Porto Seguro e fizemos um show acústico no Eva Herz. Eu e André Acciolly, hoje diretor artístico do espaço. Me lembro que os ingressos se esgotaram rapidamente.  Tivemos a ideia de colocar música no Teatro para ver como funcionava. Eles tinham a limitação de uma mesa pequena, com poucos canais, daí a necessidade  de ser um show mais acústico, sem banda.

FCEF – E o Ensaio com o Tomada, gravado  em 2015 e transmitido no inicio de 2016 ?

LA – Na gravação o Faro já estava bem doente. Eu fiz o roteiro e discuti com o Ricky antes.Na verdade eu já vinha fazendo o Ensaio sozinha. O Faro ficava do meu lado, mas já estava com dificuldades inclusive de falar e eu que fazia as perguntas aos artistas. O interessante é que em alguns dos programas eu percebia que ele meio que se ausentava do ambiente. Ficava ao meu lado, mas já meio desligado daquilo, sabe? No caso da gravação do programa com o Filipe foi diferente. Ele não desgrudou o olho dele um minuto sequer. Ele batia palmas quando terminava a canção. E no final ele falou com Filipe e eu me emocionei demais, porque já sentia que ele estava nos deixando. Aí quando o Faro foi falar com o Filipe eu não aguentei. Achei interessante que ele não perdeu o foco em nenhum momento durante o programa. Ficou o tempo todo ligado no “menino”, como ele o chamava.

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