Memória: Chico Science

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Cartaz distribuído pela família de Chico Science em sua missa de 7o. dia – Reprodução do livro “Do Frevo ao Manguebeat”


Hoje faz exatos 20 anos que um dos gênios da nossa música partiu. Eu poderia optar por fazer um texto curto, falando sobre esse incrível artista pernambucano, mas optei por transcrever partes da excelente apresentação do livro  Do Frevo ao Manguebeat do não menos extraordinário jornalista  José Teles, outro pernambucano , em sua obra  fundamental para quem curte música brasileira. Não tem quem possa falar mais do que ele sobre Chico.

“Chico Science, muito ligado na black music americana, talvez nunca tivesse prestado atenção numa musiquinha de um duo pop, branco, americano, o Timbuck 3, cujo único sucesso, em 1988, tem um refrão pegajoso que dia: “The future is so bright that I’ve got to wear shades” (o futuro é tão brilhantge que preciso usar óculos escuros).

Era assim, luminoso, que o futuro parecia descortinar-se diante de Chico Science naquele fevereiro de 1997, um mês por sí só ensolarado, sobretudo no Nordeste. Liderando a Nação Zumbi, Chico Science, junto com Fred 04, do Mundo Livre S.A., e mais um grupo de amigos, havia quatro anos desencadeara uma operação de desentupimento ” das artérias enfartadas” da cultura recifense. Em pouco mais de três anos de carreira, e dois CDs, ele e a banda encetavam uma meteórica carreira internacional, participando de importantes festivais nos EUA e Europa, com matérias laudatórias nas principais revistas especializadas americanas e europeias. Reconhecimento internacional tão imediato só havia acontecido antes com a bossa nova. Os mangueboys começavam a ser descobertos no Brasil também pelo grande público e louvados por artistas estabelecidos feito Gilberto Gil (um entusiasta do manguebeat e em especial do som de Chico Science & Nação Zumbi – CSNZ), Caetano Veloso ou o produtor e músico americano Arto Lindsay. Estavam sendo assimilados até em sua própria terra, Pernambuco, historicamente avessa a aceitar novidades que mexam com suas tradições.”

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Revista Bizz de 1993 – Reprodução do livro “Do Frevo ao Manguebeat”

Tal qual um cometa, Chico Science passou por essa vida trazendo muita luz em uma carreira rápida, brilhante, mas que deixou marcar eternas na nossa música. Pernambuco, que tantos talentos musicais nos deu e nos dá está pra sempre ligado à expressão manguebeat.  Mas vamos continuar com o texto único de José Teles.

“Naquela semana pré carnavalesca, Chico Science & Nação Zumbi preparavam-se para unir forças com Antonio Carlos Nóbrega, fruto e continuador do Movimento Armorial, cujo idealizador, o professor Ariano Suasssuna, de notória aversão a estrangeirismos, o tratava por Chico Ciência, aparentemente condenando as influências “gringas”, mas sutilmente apoiando os mangueboys, que viajaram pela primeira vez ao exterior com apoio financeiro da Fundarpe, a fundação estadual de cultura, ligada à Secretaria de que Suassuna esteve à frente no terceiro Governo Miguel Arraes. E mais, Chico Science & Nação Zumbi apresentavam-se uma noite no Circo Maluco beleza, local dos mais requisitados para festivais pop, dada a sua localização central, principal point de festivais de rock no Recife. Era uma espécie de despedida, já que a banda aquecia os tambores para a segunda turnê “a Europa. Entre as centenas de jovens presentes, muitos deles com o chapeuzinho de pescador, posto em voga por Science, destacava-se o também compositor, Ariano Suassuna. Alto,magro, figura imponente, parecendo saído de um de seus romances armoriais, trajado com sua indumentária característica: alpercata de couro, calça folgada, camisão, de largos bolsos, ambos em linho claro. Ariano Suassuna estava ali para desejar boa viagem aos mangueboys. Era por assim dizer um momento histórico importante, em que confluíam para um mesmo campo a tradição e a modernidade.

Chico Science & Nação Zumbi e Antonio Nóbrega uniriam suas diferenças estéticas no bloco Pancada do Ganzá. Tentaria, cativar os foliões da avenida beira mar de Boa Viagem, onde o carnaval recifense se eletrifica ao som estridente dos trios e grupos de axé, provocando a ira santa dos cultores do frevo, que enfrentavam o inimigo com armas de baixo calibre e muito menos decibéis.

Os dois guerrilheiros culturais decidiram enfrentar os baihunos com a miríade de ritmos que Pernambuco lhes disponibilizou: maracatu, coco, xote, caboclinho, urso o escambau, as mesmas armas, com approach diferente.

No domingo, véspera da saída do Pancada do Ganzá, Chico Science acordou ressacado, após uma noitada com seu amigo o artista plástico Félix Farfan. Passou o dia na casa da irmã Gorette França, com quem partilhava grandes afinidades. Mais que irmãos, os dois eram amigos e confidentes. Escutou muita música, escolhida entre as dezenas de CDs que trouxe da última viagem à Europa, dormiu à tarde, à noitinha mandou pedir um sushi. Depois de jantar ligou várias vezes para Félix Fartan. Os dois haviam combinado ir a Olinda naquele domingo. Iriam ao Mercado da Ribeira, onde haveria uma apresentação do grupo de maracatu A Cabra Alada. Farfan não foi encontrado. Chico tornou a ligar várias vezes, mas não encontrou o amigo. 

O Carnaval já rolava em Olinda há mais de uma semana, o trânsito ficava congestionado a partir das 16 horas, difícil encontrar vaga para estacionar. Mais difícil ainda para um mastodôntico Ford Landau, 1979, que Chico havia comprado a Farfan…

Pela dificuldade de encontrar estacionamento, ele tomou emprestado o Fiato Uno da irmã, e partiu sozinho pra Olinda. Como acontece em toda fatalidade, há sempre alguém que a d ribla por conta de uma bobagem qualquer. No caso de Farfan foi ter passado mal o dia inteiro, já que na noite anterior ele e Chico devoraram uma montanha de salgadinho Doritos, que não bateu bem com a cerveja ingerida.

Quase que exatamente na divisa (curiosamente) à beira de um mangue, entre o Recife e Olinda …O Uno chocou-se contra um poste. Chico dirigia em alta velocidade. O conto de segurança partiu-se, a morte foi instantânea.

Félix Farfan recebeu um telefonema da namorada, que lhe avisava que uma “pessoa muito amiga estava passando mal”. Ele conta que saiu com um mau pressentimento, que aumentou quando foi levado para o Restauração, o maior hospital de urgências da capital. Ali a superlotação é normal, já que, pela sua localização, próximo do centro, ele é o mais procurado da cidade. Naquela noite havia muita movimentação nos corredores, porém menos do que se poderia esperar em um domingo pré carnavalesco.

Chico Science foi logo encontrado: seu corpo jazia no chão do corredor, os médicos ainda não o haviam identificado. Ele só foi reconhecido depois da chegada dos amigos.

Rolou um inquérito por alguns meses, no final houve uma tentativa de culpar o motorista pelo acidente (a família de Chico moveu uma ação contra a Fiat do Brasil). Várias foram as versões do acidente; ele havia tentado desviar de outro carro que vinha em alta velocidade; estaria drogado etc. Que dirigia a mais de cem por hora é quase certo, não apenas pela perícia, mas porque esse trecho que liga o Recife a Olinda é um retão, onde é até perigoso guiar a menos de oitenta. No entanto, a razão mais provável é que Chico Science viesse tão entusiasmado com os rumos que sua carreira tomava (ele e a banda se preparavam para empreender uma terceira e mais extensa turnê, no Canadá e Europa), que precisava usar hipotéticos óculos escuros para não ser ofuscado pelo futuro brilhante.

No dia seguinte, Antonio Nóbrega e o Nação Zumbi desfilaram na avenida Boa Viagem. Ganzá, tambores  e a multidão em um comovente silêncio.”


Os textos aqui transcritos são do livro Do Frevo ao Manguebeat de José Teles – Editora 34 – 1a edição – 2000 – Págs 9 a 13

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