Papo Afinado: Rodolfo Goulart!

rodolfo

 FCEF teve o prazer e a honra de conversar com Rodolfo Goulart,paranaense de Rolândia, 23 anos, bailarino, editor de vídeos, além de film maker. Atualmente trabalhando no elenco dos Dzi Croquettes em sua temporada em São Paulo. Vamos conhecer um pouco mais sobre esse artista incrível!

FCEF – Quando você descobriu que a dança era o seu caminho?

RG – Minha aproximação com a dança aconteceu desde criança. Eu era do esporte, lutei desde cedo, fiz karatê e jiu-jitsu. Sempre quis trabalhar com o corpo, por isso entrei para o curso de Educação Física na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Lá, tive muito contato com a dança de salão, uma coisa bem forte no Paraná. Aliás, meu pai conheceu minha mãe em um baile… Na época da faculdade, descobri o ballet, fiz aulas e ganhei uma bolsa de estudos para a Escola Municipal de Dança de Londrina (FUNCART), onde tive minha primeira formação. Em 2013, fui para o Festival de Dança de Joinville onde fiz varios amigos ligados a dança contemporânea, e que residiam em Niterói, RJ. Em janeiro de 2014 fui visitá-los, e no Rio, e fomos assistir ao espetáculo dos Dzi Croquettes, em cartaz no Teatro Dulcina, na Cinelândia. Nesse mesmo dia conheci a Radha Barcelos, filha do Ciro. Fiquei impactado com o que vi, porque eu já tinha ouvido falar deles, mas não tinha assistido ainda ao documentário.

FCEF – Como se deu o convite para participar do elenco dos Dzi?

RG – No mesmo dia que assisti ao espetáculo, conheci a Radha Barcelos, em uma festa. Conversamos e ela soube que eu era bailarino. O Ciro Barcelos estava procurando um substituto para um dos meninos do elenco que ia sair e então fui convidado para uma audição com ele. Fui selecionado e a partir daí minha vida mudou. Fui morar no Rio de Janeiro, estudar ballet clássico no Espaço Feodorova e fazer o espetáculo com os Dzi Croquettes. No Rio tive mais confiança e respaldo técnico em relação à dança, realmente entrei na vibe e tive mais certeza de que era aquilo que eu queria para a minha vida. Durante 2014 fizemos várias temporadas, viajamos para o Nordeste e foi maravilhoso. Em 2015 eu me mudei para São Paulo e deixei o elenco dos Dzi. Vim para cá fazer um curso de férias na Escola Técnica de Dança Adriana Assaf. Nessa época, o espetáculo “Bandália”, dos Dzi estava em temporada no Theatro Net e o mesmo rapaz que eu tinha substituído precisou sair novamente e o Ciro me chamou outra vez. E foi fantástico porque teve a participação do Ney Matogrosso, uma das maiores emoções em cena da minha vida.

FCEF – Você trabalhou também com o Ballet Stagium. Como aconteceu?

RG – No ano passado, quando me mudei para São Paulo, queria viver da dança. Descobri que o Ballet Stagium estava fazendo audição para bailarinos. Fui até lá e acabei sendo contratado. Quando os Dzi vieram a São Paulo para a apresentação no HSBC (em que o Filipe Catto participou), eu também estava no elenco deles. Fazia espetáculos com o Stagium e com os Dzi na mesma semana (risos). 2015 foi um ano de várias realizações para mim.

FCEF – Paralelo a essas atividades você começou a trabalhar com edição de vídeos também. Fale um pouco sobre isso.

RG – Apesar do Ballet Stagium ser uma grande companhia, vocês sabem que o patrocínio cultural, o apoio ainda está longe de ser ideal em nosso país e eu não estava conseguindo ter o retorno financeiro necessário. Fui para outra área da minha vida, que sempre esteve presente, que é a edição de vídeos. Eu tenho o know how da parte técnica, pois edito desde os 15 anos de idade. Já tinha inclusive feito vídeos profissionalmente no Paraná e para um site de turismo do Rio (Conexão Mundo) e através desse trabalho, consegui uma indicação para uma produtora aqui de São Paulo, a Cavallaria Filmes, dirigida pelo Marcos Mello.

FCEF – Estamos chegando então na realização do seu curta metragem, o Reparto, que tem trilha sonora cantada por Filipe Catto.

RG – Exato. Em outubro de 2015 os Dzi Croquettes iam se apresentar em Curitiba e mais uma vez entrei no elenco. O ensaio era no Rio e eu fui pra lá com o equipamento de filmagem da Cavallaria, para fazer um outro trabalho no setor fashion. Levei a câmera para o ensaio dos Dzi e foi lá que filmei o Reparto. Em um só dia, sem maquiagem, no lugar em que a gente ensaiava e com a luz que tinha. O Reparto traduz muito o que eu sou, o que eu penso. Eu dirigi cada um dos artistas, segundo o meu critério de beleza. No sentido de colocar cada um deles em uma estética fashion, usando o que eu penso sobre dança. E consegui um material muito rico, porque os artistas que estão ali tem uma potência cênica quase sobrenatural. Tenho um carinho e uma admiração muito grande por cada um dos artistas que estão no Reparto. Eu quis filmá-los, para repartir com eles a beleza que eu vejo na arte deles. O título do filme seria “To Dzi, with love”. Mas eu achei que estava longo, não gostei do título escrito no início do filme… Aí o Ricky Scaff assistiu ao filme, conversamos sobre o trabalho e ele batizou o Reparto. Um ritual de renascimento. Ele começa com um autorretrato, eu “reparto” com eles a minha visão. Cada um deles toma o lugar de um arquétipo que juntos significam uma oração. A busca pela evolução espiritual. Os Dzi Croquettes me deram um novo parâmetro de vida, de maneira de pensar. Foi e continua sendo uma experiência muito forte para mim. No Reparto além dos meus colegas, eu quis homenagear principalmente os meus mestres Ciro Barcelos, Bayard Tonelli e Demétrio Gil.

FCEF – A trilha sonora com Filipe. Como foi feita?

RG – Eu tinha colocado a Maysa cantando no filme. Só que eu fiquei muito impressionado com a performance do Filipe no espetáculo do HSBC, mas não imaginava que seria possível convidar o Filipe para cantar em um filme experimental que eu tinha feito. Aí mostrei o corte pro Ciro e perguntei se não ficaria incrível o Filipe cantando. Na hora ele disse: “Claro, vou ligar para ele”. Filipe aceitou na hora! Ele e Ricky foram até a Cavallaria e fizemos a gravação a capella. Foi nesse dia que Filipe e Ricky assistiram ao filme e o Ricky sugeriu o nome: Reparto. Foi um dia mágico e muito gratificante para mim, agradeço muito ao Marcos Mello e ao Luiz Murillo que trabalharam comigo nesse dia de captação, todos arrepiados com a voz do Filipe que também recita parte do texto “Eu acredito” do Bayard Tonelli. O trecho que Filipe recita é: “Em terra brasileira todas as culturas se encontram, e nesse caldeirão antropofágico, eu mergulho fundo”. Quem melhor que Filipe Catto para falar isso, né? (risos). No final, é o próprio Bayard que recita: “Eu acredito na magia, acredito que somos barro, e que podemos nos moldar à formas inusitadas e surpreendentes”. Para mim esse é o resumo de tudo que aprendi com o Bayard e com os Dzi Croquettes.

FCEF – E seus planos futuros?

RG – Eu estou trabalhando na Cavallaria porque lá, o respeito ao artista é 100%. Lá eu posso propor muito do que acredito e agradeço muito por ter um lugar como esse para eu estar. Assim como com os Dzi. Onde eu posso estar enquanto artista, tirar meu sustento, morar em São Paulo, o que não é fácil nos dias de hoje, de uma maneira mais tranquila, conseguir sobreviver enquanto artista, pensar nos meus projetos. Continuo estudando dança, pretendo voltar a trabalhar em uma companhia de dança, porém mais prá frente. O Dzi tem muita dança, eu trabalho tambem como ensaiador dessa nova montagem, e o legado do Lennie Dale está aí, mas além disso o Dzi é um processo teatral muito forte que eu estou revivendo. Quando eu comecei lá, foi tudo tão rápido, o elenco já estava formado e eu tinha que correr para acompanhá-los. Hoje, com esse elenco novo, apesar de já conhecer o espetáculo, eu sinto que essa galera de agora é como se fosse a minha galera. Porque antes era eu admirando aqueles artistas e ali meio que tiete. Agora eu sinto que eu faço parte. Apesar de que os de antes também são minha família, hoje eu me sinto muito mais presente nos Dzi, enquanto artista. Eu faço o espetáculo e saio satisfeito. Mostro o que sou, o que faço. Uso muito o corpo que trabalhei desde a minha infância. O Ciro deu muito espaço para coisas que eu venho construindo a vida toda. Sou muito grato a todos eles e também ao Filipe e ao Ricky por terem sido tão generosos comigo e aceitarem prontamente participar do meu projeto Reparto. Meus projetos são cada vez mais desenvolver esse olhar, no cinema, mas sob a ótica de quem dança, do corpo dançante. Da fluidez da cena tendo a ver com a fluidez corporal. É importante para mim que quando eu edite um filme, que ele fique orgânico. Você assista e sinta a cadência. Para mim o filme é como um bailado. A pessoa que assiste tem que ser impactada pelo ritmo, pelo movimento. Quero levar o que aprendi de dança, minha vivência de palco, corporal para a imagem de outros artistas. Quero que o meu cinema se torne um embelezamento da vida.

FCEF – Para terminar, o que é dança para você?

RG – A dança contemporânea está indo em um viés de desconstrução muito grande, na minha opinião temos que construir o nosso corpo antes, para ter o que desconstruir. Eu fiz opção pelo balé clássico porque ele te ensina “cartesianamente” o que é frente, lado e trás no seu corpo. Você estabelece os pontos do seu corpo da cabeça aos pés. É preciso se conectar completamente porque depois, se você tiver que dançar qualquer coisa, você tem esse controle corporal. Sei que existem muitos outros métodos, além do balé clássico, mas eu sou um apaixonado pelo ballet e acredito que ele é imortal.


NOTAS: O filme Reparto, de Rodolfo Goulart entrou na programação do 24o Festival Mix Brasil, que acontece em São Paulo, do dia 9 a 20 de novembro.

Dzi Croquettes segue em temporada no Teatro Augusta, sempre às quartas e quintas feiras e vai até o dia 15 de dezembro.

Ingressos aqui

 

As fotos acima são prints do curta  “Reparto”, de Rodolfo Goulart e retratam, na ordem: Bayard Tonelli, Ciro Barcelos, Franco Kuster, Filipe Ribeiro e Rodolfo Goulart.

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