Um milhão de novas palavras

Atotô
Foto de Ricky Scaff

Morte ou Passagem? Em ambas, as palavras querem dizer que já não há mais a presença de um corpo físico. A cadeira, a cama, o quarto estão dolorosamente vazios. José Saramago, uma vez, definiu a morte como quando já não estamos e acabou-se. Mas, para alguns existe a passagem quando o vazio se transforma.

Ascensão (2016) vem transformar esse vazio em vozes que chamam outras: as vozes ancestrais. Serena escolheu para cada amigo um orixá com o qual ela o identificava e, no processo de gravação, buscava proporcionar ao intérprete e aos músicos  aquele universo sagrado que ela conhecia tão bem. Talvez por isso, para quem ouve o disco, as emoções fiquem tão à flor da pele, porque nenhuma palavra foi dita/cantada em vão, deslocada do mundo que ela carrega.

Em Ascensão, Filipe canta para Obaluayê, também conhecido como Omolu (como também retoma a própria letra). É um dos orixás mais importantes do candomblé, a ele é  atribuído o controle das doenças e também da cura. É senhor dos mortos e o regente dos cemitérios. É o orixá da renovação dos espíritos.

Omolu tem uma história cercada de mistérios, nascido com o corpo coberto de feridas como castigo pelo romance proibido de seus pais Nanã e Oxolá (marido de Yemanjá). Nanã vendo o filho malformado e doente,o abandonou à beira do mar na maré cheia. Compadecida, Iemanjá cuidou da criança até que ficasse curada. Porém, a pele de Obaluayé ficou marcada por chagas assustadoras e, por isso, seu corpo foi coberto com palhas, ficando de fora apenas as pernas e os braços.
Assim, cresceu Obaluayé e com Iemanjá e Oxalá aprendeu a curar as pessoas. Um dia, observando de longe a festa em que todos os orixás dançavam e cantavam, Iansã foi até Omulu levantou a palha de seu rosto e com o poder de seu vento, soprou suas feridas que pularam como pipocas, deixando-o limpo das marcas.. Obaluayê significa “rei senhor da terra”. Atotô é sua saudação.

Na oração,cantada por Filipe, podemos dimensionar essas peculiaridades de sua mitologia.

Texto de Carmélia Aragão e Camila Pimenta

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