Papo Afinado: Thiago Alboreto

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Nosso “Papo Afinado” desse mês será diferente. Não no formato habitual de entrevista, mas como um lindo depoimento, que nos foi concedido pelo jovem professor de artes do ensino fundamental do município de Santa Fé do Sul em SP, o Thiago Alboreto.

Com apenas 31 anos de idade, e com o pensamento no futuro de seus alunos, Thiago está desenvolvendo um lindo projeto desde 2011. Vamos deixar que ele mesmo nos conte sobre isso.

Sou natural de Fernandópolis, formado em Londrina, PR e leciono em Santa Fé do Sul. Desde 2011 que no final das minhas aulas de artes, nos últimos 5 minutos eu resolvi apresentar aos meus alunos músicas que não estão na grande mídia, as que não tocam nas rádios. A maioria das famílias só escuta mesmo o que toca na rádio e não tem acesso a  outro tipo de música. A cultura está muito presa a isso, a essa limitação, e acho que todo professor de arte deveria fazer isso. Então, nos últimos 5 minutos de aula, eu coloco um samba, uma música de MPB, algo diferente para os alunos conhecerem.

O Filipe Catto eu descobri em 2013, na época em que o Itunes disponibilizava uma música de graça por semana (infelizmente não fazem mais isso) para quem tinha o aplicativo em Ipad ou Iphone, e eu recebi “Adoração”, do CD e DVD ao vivo, “Entre cabelos, olhos e furacões” e foi assim que conheci Filipe.

Trabalhar a música de Filipe, em sala de aula, como venho fazendo no último semestre, aconteceu como uma dica da minha filha. Ela é uma desenhista, tem 9 anos e ela desenhando a música “Roupa do Corpo”, me questionou sobre algumas palavras. Queria saber sobre alforria, bonde, e isso me deu a ideia de fazer uma aula para sanar essas dúvidas das crianças. A música “Roupa do Corpo”, me proporcionou uma aula em que trabalhei questões como escravidão, violência contra a mulher e a questão do “eu lírico”. São alunos do 5o. ano do ensino fundamental e temas como esses não chegam pra eles nessa idade, só no 7o. e 8o. ano. Eu estou adiantando isso, mas sem forçar nada. É bem livre a aula. Aí resolvi mudar e não deixar apenas os 5 minutos finais da aula para fazer esse trabalho, e sim ter a música como tema. O motor criativo da aula. E porque Filipe Catto? Eu sou um fã de carteirinha de Raul Seixas, Caetano, Chico, mas Filipe tem algo que faltava no Brasil. Ele me remete muito ao David Bowie. Tem uma performance de palco. Geralmente os artistas de MPB ficam muito parados. Faltava aquela coisa que tinha com o Secos e Molhados. Então, pro meu gosto pessoal, eu me tornei fã do Filipe muito facilmente. Eu trabalhava muito Clara Nunes, em sala de aula, Raul, Caetano, mas como havia dito, só no final da aula. E por ser fã do Filipe e ele ter essa bagagem de letras  muito ricas, de canções que precisam de uma interpretação. Não são músicas pra eu colocar na aula e deixar a criança livre. São músicas que a gente precisa conversar sobre elas e isso enriquece mais a aula e consequentemente o mundo das crianças. Uma vez um amigo me falou que eu estava combatendo o que  as crianças costumam ouvir. Na hora do recreio ou até em sala de aula mesmo, elas cantam muito funk e sertanejo universitário. Nada contra, acho que isso também faz parte de nossa cultura, mas elas estão presas somente a esse tipo de música, porque é o que a grande mídia divulga. Eles precisam de alguém que expanda a mente cultural deles.

Com o passar  do tempo, eu notava que colocando  a música apenas nos 5 últimos minutos de aula não era suficiente para que meus alunos assimilassem aquilo. Eles esqueciam da música rapidamente. Já inspirado pela minha filha, com a proposta de trabalhar uma música a aula inteira, isso mudou. Meu plano de aula é o seguinte: eles ouvem a música duas vezes. Ficam em posição de meditação. Fecham os olhos. Alguns se deitam sobre as carteiras. Aqueles que preferem sentar no funda da sala, eu permito. A ideia é que prestem atenção. A faixa de idade dos alunos com que trabalho é de 6 a 12 anos. Estou trabalhando agora “Roupa do Corpo”, com crianças dos 9 aos 11 anos. O primeiro, segundo e o terceiro ano estou trabalhando a interpretação de Filipe para “A sorte é cega”, uma música riquíssima, romântica, que arrancou lágrimas de várias crianças. Os desenhos resultantes dessas aulas ficaram muito ricos.

Quando eu montei o plano de aula e passei a usar a música desde o início como motor criativo, percebi que eles se interessavam pelo artista apresentado e que eventualmente iriam pesquisar no You Tube para mais informações. O Filipe causava um estranhamento pra eles, por causa da voz e eu uso isso a favor da aula, pra marcar ainda mais. Eu  não coloco na lousa quem está cantando. Coloco o nome da canção e dou um direcionamento. Peço que prestem atenção no que vão ouvir, que tipo de história vai ser contada. Eu não direciono totalmente para não perder o subjetivo. Se você colocar tudo ali, quadradinho por quadradinho, você acaba com o espaço da imaginação deles. Eu dou um direcionamento, porque são músicas complexas, mas não falo que é um cantor. Eles não questionam se é uma cantora, porque pra eles já é uma cantora. Quando eu falo que é um cantor, crio o primeiro gancho sobre os tons vocais, logo depois trabalho o “eu lírico” e vamos dissecando a música, o que é bem bacana. A ideia é que eles guardem a música.

Ao saber que Filipe é uma pessoa acessível, tive a ideia de gravá-lo dando um “oi” pras crianças, pra elas entenderem o quanto um projeto pode andar. Porque eles vêem os artistas na TV e pra eles aquelas pessoas são inalcançáveis. Os que eles estão mais habituados a ouvir estão mais próximos. Eu acredito que criando uma proximidade entre o artista que apresento em sala de aula e eles seja uma porta pra mostrar a eles que é possível realizar um projeto. E trabalhar a música em sala de aula, já se tornou um projeto maior, que envolve as secretarias e a coordenadora pedagógica. Foi tão rica a produção deles que elas agora querem construir cenários com base nas pinturas e desenhos das crianças e utilizar as músicas do Filipe pra fazer um musical no fim do ano. Nós vamos pegar várias músicas, vários desenhos e movimentar esse palco. A ideia é apresentar, no fim do ano, na praça, a mesma onde Filipe se apresentou, em abril, pelo Circuito Sesc de Artes

Em uma reunião, semana passada, eu pedi verbas para gaiolas para teatralizar a canção “A sorte é cega.” e foi questionada a possibilidade de Filipe vir até à cidade e se apresentar para os alunos ou visitar a escola. As crianças agora já passaram da fase de  fazer desenhos sobre as músicas. Agora fazem poesia e a ideia é usar essas poesias como os textos do teatro musical, com as próprias crianças cantando e tocando. É um projeto ambicioso, mas acredito que com amor a gente chegue lá.

Thiago Alboreto

 

 

 

 

6 Comments

  1. Como professora que já fui, e atuando agora como coordenadora de um centro educacional infantil me sinto absolutamente encantada com esse projeto, sempre me impressionou o poder que um professor tem em tranformar e influenciar as vidas das pessoas, os bons professores transformam o mundo se quiserem! Parabéns professor Alboreto!

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  2. É realmente maravilhoso ver que existem cantores e professores que não deixam a arte se perder e que a estimulam por onde quer que vão. Parabéns, Filipe Catto. Parabéns, professor Alboreto!

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  3. Que lindo e inteligente projeto Prof. Alboreto . Conheci Filipe e sua voz pela rádio Nova Brasil em 2012 . Ao ouvi-lo questionei sua voz e fiz uma comparação entre ele , Nei Matogrosso e Elis Regina . Foi uma admiração instantânea a qual sigo e persigo desejando que o BRASIL o conheça e saiba quanto talento está em uma só pessoa. PARABÉNS pelo seu projeto professor , é admirável.

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  4. O acesso à música de qualidade é raro atualmente. .
    Com esse projeto tdo torna mais fácil. .
    É simplesmente perfeito. …
    Parabéns pela iniciativa. .

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  5. Trabalhar a Educação de uma forma mais humana e pessoal tem o poder de transformar a vida das crianças … quando utilizasse a música, maior ainda a chance de tocà-las !!!
    Parabéns pelo trabalho lindo !!!

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