Tomada – Auditório do Ibirapuera – 14/11/15

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Tomada, uma epifania. Pedestal dourado. Diversos focos de luz em um globo espelhado, cercado por mais pedestais, acompanhado por objetos significativos: chave, pirâmide, círculos. Para olhares rápidos talvez fosse um simples cenário. Mas para quem demora um pouco mais o ouvido e o coração na arte de Filipe Catto havia um vestígio de consciência que não ocorreria mais do mesmo no palco do Auditório do Ibirapuera, lugar já frequentado anteriormente por esse menino que se reinventa a cada apresentação. Foi um tempo fora do relógio, fora das possibilidades do cronômetro: uma inspiração.A_CATTO6

O olhar cativo de Filipe nos permite constatar uma arte fora do comum: não foi um show, mas um espetáculo que começou com a canção composta por Marina Lima, “Partiu”, um convite irrecusável de ida, sem volta, para as manifestações artísticas de Filipe. A partir daí não era só o cantor, mas o intérprete: “Do fundo do coração” (Taciana Barros, co-autora, presente no show); foi resgatada com um arranjo completamente novo, “Rima Rica Frase Feita”, “Adorador”; “Auriflama”, de Thalma Freitas e Agualusa, autor que estava na plateia; “Roupa do Corpo”, também com arranjo recriado, um Filipe mais maduro, mas também mais entregue, mais à vontade, sem enfeites nem melindres: ali, era inteiramente e somente ele.

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Caio Fernando Abreu falava em “pequenas epifanias”, como sendo aquelas “horinhas de descuido” de Guimarães Rosa: momento fora do tempo que a felicidade nos chega, de surpresa. As interpretações de “Autonomia”, de Cartola, e de “Um milhão de novas palavras”  (César Lacerda e Fernando Temporão, autores da canção estavam na plateia) levou o público para esse lugar, secreto, onde não há explicação, apenas sentidos: A Epifania aconteceu no show Tomada em São Paulo. O show continuou com outras diversas canções e performances surpreendentes de Filipe: “Amor mais que discreto”, com uma introdução impecável com versos do refrão de “Paula e Bebeto”; “Canção e Silêncio; “Surrender”, “Dias e noites”; “Paloma negra”; “Saga”; “Iris e arco”.A_CATTO16

Filipe não desampara o coração disposto a mergulhar em sua arte. O bis foi invadido pela aura típica de quando entramos em contato direto com uma obra de arte valiosíssima: “Bom Conselho”, de Chico Buarque, foi cantada sem instrumentos por Filipe”. “Crime Passional” foi escolhida pelo público e o show foi encerrado com a bela canção que Filipe fez em parceria com Moska: “Depois de Amanhã”, que nos deixou com gostinho de eternidade: “[…] não há como te expirar de mim […]”. É assim: em caráter simbólico, a gente pode dizer que sobre cada música do Filipe nasce uma rosa nova, linda, vermelha, que nos enche de admiração, que apesar de ser surpreendente é natural. Agora, para falar do Filipe a gente precisa usar a literatura de Agualusa (2013, p. 115): “[…] sua alma não cabe no corpo […]”, e por isso ele a extrapola, a cada show, para nós!  

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ABREU, Caio Fernando. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos de “minha vida”. In: O Estado de S. Paulo, 22 de abril de 1986.

AGUALUSA, José Eduardo. Catálogo de Luzes. Rio de Janeiro: Gryphus, 2013.

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Texto de Mari Almeida

Fotos de Mariana Porto

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