“Cidadãos inteiramente loucos com carradas de razão” por Maria Betânia Silva

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Foto Sputnik/Paula Magalhães

“CIDADÃOS INTEIRAMENTE LOUCOS COM CARRADAS DE RAZÃO”

Este título é um verso da música
“Estação Derradeira”, de Chico Buarque.

Uma poética, breve mas eloqüente narrativa sobre o RJ que, no Carnaval, atrai os olhares do BR inteiro, sintetizando o país, em certa medida; representando-o metaforicamente como sempre ocorreu.

E não poderia ser diferente porque afinal o Rio de Janeiro foi por muito tempo a capital do BR,
deixando de ter esse status quando da fundação de Brasília, em 21 de Abril de 1960.

Eis porque ninguém no solo desse país “gigante pela própria natureza” pode ignorar, tampouco menosprezar o desfile da Verde- Rosa. Não! Impossível!

Foi um desfile que contou a real História do nosso ” lábaro estrelado”, que, hoje, tal como no passado, deita em berço esplêndido no Planalto Central.

Arrepiante o desfile da Mangueira, justíssima a Vitória! Comovente a festa em torno dela.

Contudo, desculpem a chatice de apelo à vida Apolínea que vou fazer.

Mas, uma vez que Dionísio dorme e queremos que ele recarregue suas energias para o próximo flerte, é preciso ir além do desfile, é preciso estar na Avenida e ver o horizonte lá na frente antes que a história dessa emoção se exaura nos festejos do título e sirva apenas para nutrir por anos a fio o sonho da Escola ganhar mais uma vez, repetindo a sua avassaladora batucada de alegria e protesto.

A Mangueira não pode substituir a seleção canarinha, que nos fez cultivar o sonho do BR ganhar, de novo, a Copa depois de conquistá-la em 1970 e mostrar ao mundo que ser Tri, em seguida tetra e penta era o máximo, até que a realidade batesse à nossa porta para mostrar que mesmo com muitos talentos individuais e uma penca ( um penta) de comemorações, parece que tudo se perdeu no 7×1, no momento mais importante para a sua definitiva consagração esportiva e, em casa, àquela altura, ainda, um trem lento mas sob os trilhos.

Acho que se fosse feita uma sondagem de opinião hoje sobre coisas que o brasileiro aprecia poder-se-ia chegar à conclusão de que o povo aprecia a Mangueira. Nada de bananas ou goaibeira: Manga, Mangueira.

Por exemplo:

Entre Escola Sem Partido e Escola de Samba, o que vc escolhe? Escola de samba.

Entre Goiabeira e Mangueira? Mangueira

Entre receber um dengo ou um tiro?😂😂😂 pergunta estúpida, diriam muitos…dengo, é claro!

Entre desfile militar e o desfile de sambas, no Sambódromo? Desfile de sambas .

Entre o Hino Nacional e o Samba? O samba, óbvio: samba é vida!

Entre o verde-amarelo e verde-rosa? O verde-rosa. Jamais verde-oliva.

Enfim, o resultado é que sambamos politicamente. Será?

Sambamos, sim, politicamente e esta talvez seja a nossa maior invenção.
Esta é a nossa originalidade política. Foi isso que forjamos com maestria no seio da nossa vida em comum. Precisamos disso e, melhor, precisamos usar isso para o que queremos ser daqui pra frente.

Nossa ideia de democracia e, do exercício dela não se sustenta no voto. A apoteose da nossa vida cívica não se faz por meio de eleição. Se faz por meio da aclamação de um samba que entra na nossa cabeça, fica na nossa memória e é cantado com a mão no peito.

O RJ sintetiza as nossas contradições.

No Estado que garantiu Bolsonaro como parlamentar por quase trinta anos; elegeu Witzel como governador; uma cidade que elege Crivella como prefeito e Carlos Bolsonaro como o vereador mais votado, é onde se abriga uma Mangueira e sob a qual agora nos abrigamos.

Uma Mangueira: uma arvore sagrada, como são os baobás para muitos africanos, uma Mangueira que conta uma História, uma História que não é maravilhosa mas é a realidade que tantos negam. Uma Mangueira de fé no povo, que faz cair nas nossas mãos a manga suculenta do nosso passado amargo. Uma manga que saboreamos como o doce do futuro que supere todo esse amargor.

Como diz Chico no samba cujo verso dá título a esse texto: “Rio de Janeiro…cada ribanceira é uma nação”.

Fico com o sentimento de que vivemos, voltando ao samba de Chico Buarque, uma ” civilização encruzilhada”.

E como a poesia está no samba e fora dele eu fico aqui me perguntando…🤔🤔🤔
depois de passados esses quatro dias maravilhosos: “…e agora José?”

E agora que “acabou nosso carnaval” ” que ninguém ouve cantar canções…” será que ficaremos na nossa folia que talvez proceda do francês: folie (loucura)?

“Mais que nunca é preciso cantar” e “pra não dizer que não falei das flores” precisamos muito persistir na folia que nos embalou a vida, que nos inspira a transgredir porque “quem sabe faz hora, não espera acontecer”.

Depois do desfile da Mangueira, da aula de História todos sabem, né?

Marielle sempre soube!

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