Papo Afinado: Almério!

Casa Natura - Almério, Fi e J Holanda
 Juliano de Holanda e Almério com Filipe – Foto de Alexandre Calladinni

Um prazer imenso ter conversado com Almério, cantor e compositor pernambucano, a quem agradecemos a gentileza de nos receber em seu hotel, em SP.

FCEF – Quando você descobriu que a arte era o seu caminho ?

A- O primeiro “estalo”, de arte mesmo, foi quando Ana Paula Marinho, que era minha vizinha me mostrou uma canção dela. Eu tinha uns 13 anos na época. Foi voz e violão. Eu perguntei: de quem é essa canção? E ela respondeu: É minha! E eu perguntei: a gente pode fazer música? Música, para mim, era só o que tocava na TV e no rádio! Era um lugar intocável, sagrado, que eu escutava desde pequeno. Aí ela me aproximou da música, a tornou mais palpável e aquilo me transformou por dentro. Logo escrevi um poema e ela musicou. Aquilo foi um estalo, um insight maravilhoso de arte. Eu senti que aquilo era possível. Eu podia tocar na arte. Com o passar do tempo nos inscrevemos em um festival lá na minha cidade, Altinho, chamado “Valores da terra” e ganhamos o primeiro lugar. Era uma parceria nossa. A partir daquele momento eu nunca mais parei de lidar com arte, com a música. Eu vivo de arte e tenho muito orgulho disso. Sou um guerreiro da música.

FCEF – Tem mais alguém da sua família ligado à arte?

A- Ninguém! Eu tenho uns tios que trabalhavam no campo e iam trabalhar cantando. Mas nada profissional.

FCEF – Fale um pouco sobre o início de sua carreira e como você se mudou para Caruaru.

A- Ainda em Altinho, eu e Ana Paula fazíamos música quase toda semana. A gente sentava na calçada, em frente à casa dela e ficávamos fazendo música como exercício mesmo. Chegou uma hora que não dava mais pra ficar em Altinho, pra ganhar dinheiro  mesmo. A gente precisava trabalhar. Eu não pensava ainda em viver de música e fomos para Caruaru. Ela foi morar com uma amiga e eu com minha família. Eu fui trabalhar em uma banca de revistas, no centro da cidade. Essa banca era ao lado de um estúdio de música e por ali passavam todos os músicos da cidade. Eu comecei a mapear todos os bares onde eles iam cantar à noite. A ideia era vê-los e observar a música que estava sendo feita lá. Eu ia assistir e dizia que cantava, aí eles me chamavam para dar uma canja. Em uma dessas canjas, o dono da casa me convidou para cantar lá. Me pediu para montar um repertório e em uma semana eu tinha tudo montado e foi assim que comecei a  cantar na noite. Isso foi em 2003 e nunca mais parei de cantar. Uma produtora me viu e me contratou pra fazer meu primeiro show. Eu conto como 2003 o início da minha carreira profissional, com esse show que fiz.  Tudo que é formato de música que você puder imaginar eu fiz. Com a noite você aprende a lidar com o público diretamente e por isso eu tenho o maior carinho e respeito por quem gosta do meu trabalho. O artista é movido pelo amor do público. Eu trabalho com arte, desenvolvo isso no palco, seduzo as pessoas. É uma entrega total e me alimento dos olhares, da energia, dessa troca e depois gosto de celebrar com o abraço. Não vejo que por eu estar ali sou maior ou melhor. Não é isso. Eu estou fazendo o meu papel, o meu trabalho, e fora do palco é um grande abraço coletivo.

FCEF – O seu primeiro disco foi gravado ainda em Caruaru. Fale um pouco sobre ele.

A – Sim, gravei lá. Se chamava “Almério”. Foi um disco bem sofrido, bancado por mim, sem produtor, sem empresário. Eu cantava na noite, de quarta feira à sábado, em várias casas de Caruaru para juntar essa grana e gravar meu primeiro disco. Eu procurei um produtor musical e perguntei quanto seria para produzir meu disco. Eu tinha as ideias, mas tinha que ter alguém que soubesse canalizar isso. E encontrei Luciano Queiroga, irmão de Lula Queiroga. Ele entrou de cabeça no projeto, me viu cantando e disse: Não vamos discutir valores agora. Você vai me pagando no decorrer do trabalho. E foram dois anos nesse processo. Quando o disco ficou pronto eu peguei alguns, botei em uma mochila e vim para São Paulo e comecei a entregar para algumas pessoas. João Falcão foi uma dessas pessoas que recebeu meu disco.Ele é diretor de várias peças de teatro, de séries, um cara incrível. Ele estava trabalhando com um musical, ouviu meu disco e me chamou para um teste. A partir daí as coisas começaram a acontecer. Logo depois eu submeti meu disco ao projeto Natura, ele foi aprovado. o “Desempena” saiu pelo projeto Natura. Ele veio da força do meu primeiro disco. O projeto foi submetido à votação popular durante um mês e ganhamos. Agora estou colhendo esses frutos. Tenho passado momentos incríveis com o meu trabalho.

FCEF – Esse seu trabalho anterior ao “Desempena” não está mais disponível?

A – Em formato físico não tem mais, mas eu vou disponibilizar nas plataformas até o final do ano. Esse primeiro disco é bem diferente do “Desempena”. É uma salada sonora. As músicas não dialogam muito umas com as outras, mas é um disco bonito. Tem músicas com arranjos de corda, outras mais pop.

FCEF – Agora um momento maravilhoso de sua carreira. Rock in Rio com Lineker e Johnny Hooker.

A- Nós nos encontramos antes do Rock in Rio, em um festival chamado Rec Beat, que acontece no meio do Carnaval de Recife. O organizador desse festival resolveu fazer uma noite gay, comigo abrindo, depois Lineker e Johnny. Aí um dos produtores do Rock in Rio, José Ricardo viu e disse que queria o espetáculo no palco Sunset. Johnny e Lineker já eram essas figuras emblemáticas da música e eu ainda não tinha nem lançado o “Desempena”. Eles, assim como Filipe Catto,  deram um salto na música, transformaram, porque foram muito corajosos, no discurso, no jeito de compor. Para mim, estar com dois desses grandes artistas foi um prazer, um presente. Fui tratado com muito carinho, respeito e o espetáculo foi aquilo que todos viram. Foi uma explosão de amor, foi um show muito político também. Sinalizou muito para as pessoas que precisavam daquele recado, naquele momento. Eu fiquei muito feliz de fazer parte da história do Rock in Rio e acompanhado por esses artistas.

FCEF – Outro momento fantástico. Sua recente primeira tour na Europa.

A- Foi a primeira vez que saí do Brasil. Tudo junto. Eu, cheio de medos, tive que me zerar pra poder encarar outro público que eu não fazia ideia de como ia receber a minha música. Foi tudo maravilhoso. Eu abria o show do Grande Encontro (Elba Ramalho, Alceu Valença, Geraldo Azevedo) no Coliseu do Porto e no de Lisboa. Muitos não sabiam quem eu era e ficavam atônitos quando eu entrava com meu figurino, voz andrógina, performático… Eu cantava a primeira música com os olhos fechados e ia abrindo assim…preocupado se estavam gostando ou não. Quando terminava a primeira música, o público ia ao delírio. O primeiro show foi em Lisboa e no segundo, no Porto, aconteceu a mesma coisa. O show inteiro o público participando, ovacionando a gente. Os solos eram aplaudidos de pé. De lá fomos para Coimbra, para o Salão Brasil, uma casa de shows menor, mas foi bem bacana também e o último foi em Amarante, no festival Mimo. Tocamos no mesmo dia do Otto, que me chamou para o palco. Fiquei impressionado com o público. Foi uma recepção muito calorosa, gigante.

FCEF – Agora a gravação do seu DVD no Teatro Santa Isabel, em Recife.

A-Nós gravamos quando eu tinha acabado de chegar dessa mini tour por Portugal e também tinha sido indicado para o Prêmio da Música Brasileira. Foi uma enxurrada de coisas. Eu tinha feito um show lá no mesmo teatro pouco antes de viajar e estava apreensivo, sem saber se as pessoas iam aparecer para a gravação do DVD. Na passagem de som, a Globo Nordeste entrou como parceira e levou uma equipe gigante. Tinham dois caminhões de monitores e já começou a me dar aquela ansiedade. Enquanto eu passava o som, à tarde, meu produtor já veio me dizer que os ingressos estavam esgotados e tinha um monte de gente na fila de espera. Aí eu caí em pratos, lavei a alma. Chorei de soluçar e foi incrível porque esse choro, esse desabafo foi o que me deu forças para fazer o show à noite. Foi lindo. O povo me ovacionou. Foi uma troca gigantesca. Eles cantaram todas as músicas, se envolveram, acreditando. Foi uma noite fantástica, como essa aqui de São Paulo (o show no CCBB). Só que aqui eram umas cento e poucas pessoas e lá, umas seiscentos e cinquenta. Um teatro antigo, um palco sagrado. Uma noite que está registrada e que vamos poder assistir daqui a alguns meses. Tem canções do “Desempena” e algumas novas entre elas uma do Pedro Luís em parceria com o Luciano Queiroga, aquele que produziu meu primeiro disco. Tem música do PC Silva, um compositor lá de Serra Talhada, interior de Pernambuco, que eu adoro. Uma pessoa com quem dialogo, troco ideias. Tem música minha também, que nasceu minutos antes do primeiro ensaio. A ideia é dar algo novo ao público que já está acostumado com o “Desempena”. Creio que o DVD chegue em 2019.

FCEF – Queria que você falasse um pouco sobre suas influências musicais.

A-Eu sou da geração dos anos 90. A MPB dessa época me influenciou bastante. É impossível não citar também Maria Bethânia e Elis Regina. A explosão de Chico Science e o Mangue Beat eu não entendia muito. Eu escutava mais a MPB de Cássia Eller, Zélia Duncan, Adriana Calcanhoto. Ouvia Elba Ramalho também. Alceu Valença eu ouvia demais. Jorge de Altinho. Aquele primeiro disco do Grande Encontro, eu era adolescente, mas escutei demais. Nunca passou pela minha cabeça de chegar perto deles, quanto mais que eu abriria um show deles algum dia. Eu não escutava música internacional. Para mim a poesia era muito importante, a palavra, e como eu não entendia inglês e não entendo até hoje, eu sempre ouvi MPB. Só mais tarde fui entender o que era o movimento mangue beat. Foi muito importante para mim me encontrar com o meu sotaque, com a sonoridade do meu estado, dando valor aos amálgamas que aconteciam na música, ao meu redor. Na música internacional o que mais me interessava eram as bandas experimentais, como Radio Head. Uma sonoridade mais alternativa. A sonoridade me interessa muito. E eu fui abrindo o leque, para poder ter parâmetros, para criar um disco, para entrar no estúdio sabendo o que eu queria. E hoje, escutando tudo que escutei, eu sei o que quero para um disco. Quando eu fiz o primeiro, eu já sabia o que queria, mas não tinha a experiência do estúdio. Quando eu fui gravar o “Desempena”, eu perguntei ao Juliano Holanda: É possível essa base sonora? Então ele sabia que eu já tinha uma base. E podia dialogar com o produtor e criarmos a identidade, o conceito de um disco. Minha base é essa. Música Brasileira de qualidade.

FCEF – Como foi o seu encontro como Juliano de Holanda, com a Isabela Moraes e os outros membros de sua banda ?

A- Marconiel Rocha, que assinou as percussões do disco, me acompanha há quase 15 anos. Edu, quase 10. Philipe Sales, depois do “Desempena”, mas são todos de Caruaru. Ana Paula, que toca percussão é aquela lá do inicio da história e está comigo até hoje. Eu gosto de ver a banda como uma família mesmo. Dá mais sustentabilidade, fica mais orgânico. Juliano Holanda foi um presente da música para mim. Isabela Moraes é uma parceria de vida, uma das melhores compositoras do Brasil. Um poço inesgotável de canções. Ela e Juliano mudaram minha forma de fazer música. Me inspiram muito e são geniais. Juliano, além de ser um grande artista, um grande compositor, tem uma alma muito generosa. Ele passa tudo que ele sabe, não guarda pra si. É um filósofo e faz com que a música, ao redor dele, fique forte. Eu acho isso um exercício humano incrível.

FCEF – Vamos falar um pouco sobre a cena pernambucana. A música de Pernambuco é uma das mais fortes do país e influenciou e influencia muita gente.

A-Eu absorvi tudo isso. Aquele disco do Geraldo Azevedo com o Alceu Valença, Quadrafônico, me influenciou muito.  Hoje, o que mais me influencia é toda essa movimentação que está acontecendo na música de Pernambuco. A gente se encontra muito, se reúne e dialogamos muito sobre música, absorvemos uns dos outros. Quando nos encontramos nas varandas, é explosivo. Temos o exercício de nos admirarmos. Somos pautados por uma energia humanitária. Não temos aquela competição que sempre houve em outros movimentos e isso deixa as coisas mais fáceis.

FCEF – No Prêmio da Música Brasileira desse ano você foi o cantor revelação. Mais uma emoção.

A-Eu estou embriagado com essa enxurrada de sinais de que a gente está no caminho certo. Eu sou um cantor de muitas vozes. Eu trago as vozes dos compositores, das compositoras, dos cantores, dos poetas, das poetisas, dos escritores de Pernambuco que me inspiraram nesses anos todos e esse prêmio simboliza isso. Simboliza também os artistas que vivem uma realidade que eu vivi. Eu venho de um lugar onde a arte é supérfluo. Eu me lembro de um dia em que queriam me internar, porque eu vivia cantando, sozinho. Arte não era algo palpável. Eu cresci ouvindo isso. Esse prêmio simboliza isso, para os artistas que estão nos lugares mais inóspitos do mundo, do Brasil, mas que vêem dentro de si essa força transformadora que é viver de arte. Esse prêmio é desses artistas também.

FCEF – Você tem algum cuidado especial com sua voz?

A- Eu faço um trabalho corporal toda semana com Lili Rocha, que é dançaria e atriz. Isso ajuda a ter uma consciência corporal e vocal. Quando você trabalha com o seu eixo fica mais fácil trabalhar a respiração para cantar. Tomo muitos chás e sigo uma dieta. Faço um aquecimento vocal sempre que vou cantar. E água é muito importante e dormir também.

FCEF – Você já tem algum projeto para um novo disco ?

A- Por mim eu já gravaria um novo disco, mas só vou lançar mesmo em 2020. Ano que vem entramos em estúdio. As músicas para o disco novo já estou anotando. Já tenho umas 15, mas depois elas passam por uma peneira, por uma seleção, junto com o diretor artístico André Brasileiro e Juliano Holanda, que eu quero que seja o diretor musical. Mas eu estou anotando as músicas porque minha cabeça não para.

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