Papo Afinado: Socorro Lira!

Socorro Lira 1

Socorro Lira é cantora, compositora, poeta, produtora e agitadora cultural, escritora, enfim, ela é uma multi artista super talentosa que nasceu em Brejo do Cruz, na Paraíba, mas está radicada em São Paulo desde 2004. Vale a pena conhecer o trabalho dessa “guerrilheira cultural”, pois tudo que ela produz e se envolve tem o selo de qualidade impecável. FCEF tem a honra de conversar com essa artista excepcional e agradece a ela pela gentileza e disponibilidade de abrir espaço em sua agenda e usar de seu tempo precioso para conversar com a gente.

(Nota de Klaudia Alvarez: No dia em que entrevistei Socorro Lira, pouco depois de nos separarmos, ao chegar em casa, soube do assassinato de Marielle Franco, acontecido quase ao mesmo tempo em que Socorro e eu falávamos sobre tantos assuntos e a luta da mulher entre eles. Estávamos conversando e falando exatamente sobre o perigo a que estamos expostas e mal sabíamos o que acontecia a cerca de 400 km dali… )

FCEF – Como a menina Maria do Socorro, vivendo lá em Brejo do Cruz, interior da Paraíba, descobriu a arte?

SL – Lá em Brejo do Cruz as coisas estavam conectadas. A arte não se separava da vida, do cotidiano. Era a mãe que contava histórias, que cantava. As pessoas cantam enquanto trabalham. Estou falando, principalmente, de algumas décadas atrás. Hoje o mundo está confuso, as novas tecnologias chegam e arrebentam com a tradição. Minha mãe talvez seja a primeira influência por causa das histórias, do canto, das canções. E tinham também as artistas dali mesmo, sanfoneiras como a D. Zefa. Tinha um forró na casa dela, bem tradicional. Em um determinado momento da noite ela entrava para tocar sanfona instrumental. Era a hora em que todos paravam para vê-la tocar. Ela ainda está viva e aparece no programa Ensaio que fiz na TV Cultura. Tem um trechinho dela fazendo um show. Em um momento eu consegui trazê-la para o palco de novo. Tem também a cantoria da viola, os violeiros, tudo misturado com a vida. O mercado é que separou essas coisas. Um produto para vender e a vida ali. Eu acho que nos lugares menores, na tradição, a arte é uma forma de expressão da vida e isso não se separa.

FCEF – Na sua família tem mais alguém ligado à arte?

SL- Tem gente de talento! Minha mãe é uma excelente voz. Ela é afinadíssima e o meu timbre se parece com o dela. Eu tive um tio que era um exímio tocador de berimbau de lata, aquele instrumento rústico, com um arame só. Eu tenho muita coisa dele gravada, tanto em vídeo quanto em áudio. Infelizmente ele já faleceu. Quando penso nisso, fico vendo o quanto eu não consigo fazer, por falta de tempo, de condição… profissionalmente eu sou uma só.

FCEF – E sua mãe, já gravou com você?

SL – Já! Tem uma reedição do CD Cantigas, meu primeiro, em que ela canta um trechinho e tenho coisas dela gravadas também que estão guardadas.

FCEF – Em que momento de sua vida você decidiu que queria trabalhar com arte ?

SL – Eu já estava na Universidade, em Campina Grande. O ano era 95 e eu fazia Psicologia na UEPB e foi lá que tive contato com o universo da arte “profissional”, digamos. Antes disso eu tive um engajamento político e minha arte era ligada aos movimentos sociais. Eu não sabia se um dia eu ia viver de música. Quando cheguei a Campina Grande, comecei a compor e larguei um pouco os movimentos sociais, da Ingreja Católica, onde estive muito presente, e fui me ligando na música popular brasileira, fazendo esse caminho da canção. Em 2000 eu gravei meu primeiro disco, ainda em Campina Grande.

FCEF – Você foi para Campina Grande para estudar?

SL – Sim, e fui sozinha. Terminei o que chamávamos de segundo grau, em 94. Fiz o vestibular e passei para o segundo semestre de 95, então tive um semestre inteiro para me organizar. Foi ai que saí da minha cidade, Brejo do Cruz, e fui para Alagoa Grande, um outro capítulo da história. Enquanto eu estudava em Campina Grande, trabalhava com famílias canavieiras em uma vila rural de Alagoa Grande, na questão da terra. Foi lá que conheci o Quilombo que mudou a minha vida, a minha visão sobre o Brasil, que me chamou para o lado da cultura, o quanto isso é importante. A natureza está aí, a cultura está aí e quem precisa delas somos nós. A nossa própria alma mesmo. Temos que cuidar daquilo que somos.

FCEF – Seu primeiro CD, Cantigas, foi lançado de forma independente. Como foi o processo?

SL – Lá em Campina Grande tem um museu chamado “Museu Fonográfico Luiz Gonzaga”. Eu fui lá e deixei com o dono uma fita com as minhas canções. Aí, Jorge Ribas – que é meu produtor até hoje – também foi nesse museu e José Nobre, que é de lá, mostrou a ele a fita. Recebi um recado para ir na casa de Jorge Ribas. Hesitei um pouco, mas acabei indo, com a intenção de fazer uma gravação demo de minhas canções, mas ao chegar lá, Ribas disse que ia gravar pra valer. Ele estava começando suas atividades de produtor musical e eu fui a segunda artista que ele produziu. Atualmente ele é professor de violão da UFCG e já fez mestrado em arranjos musicais. Foi um belo encontro que tive na vida.

FCEF – Quando você decidiu vir para São Paulo ?

SL – Foi em 2004. Antes de vir morar aqui, eu vinha para fazer um curso na PUC, de liderança jovem, que eles davam para jovens do país todo. Eu vim, achei legal e, naquele momento, o país estava em uma fase muito boa, então tive a sorte de chegar em SP em um momento em que o país estava bem. Tanto aqui, quanto no cenário internacional. A economia estava bem. Eu tive muita sorte e pude produzir bastante porque o país estava bem naquele momento. Foi uma feliz coincidência.

FCEF – E o seu lado escritora?

SL – Primeiro veio a canção. Eu comecei a compor, fazer letra e tal. Quando eu morava em Campina Grande, eu tinha uma casa que mantive por uns quatro anos. O último da faculdade e mais três depois. As pessoas chegavam lá na sexta feira, e só iam embora no domingo ou na segunda. Eram poetas, músicos, todos começando. Foi uma experiência muito boa. Começamos a fazer poesia lá. O Nordeste tem essa tradição da poesia improvisada, então a gente treinava o improviso. Eu nunca desenvolvi bem isso. Outras pessoas lá sim. Eu comecei nesse grupo com Flávio Petrônio, Cícero, gente da boemia que ia lá pra casa. Foi um treino bom para a poesia. Aí comecei a escrever. Os dois livros que publiquei sempre foram sobre os momentos que eu estava vivenciando. O primeiro foi Aquarelar, de 2007 e o segundo A Pena Secreta da Asa, de 2015. Está para sair agora o meu primeiro romance que se chama Falar dos meus amores invisíveis e aborda questões de gênero. E tenho um livro infantil também – A língua que a gente fala – que vai sair pela mesma editora do romance, lá do Ceará. Estou bem ansiosa com esses dois projetos.

FCEF – Vamos falar agora dos seus discos…

SL – Cantigas foi o primeiro e lancei em 2001. O segundo foi Cantigas de bem querer, de 2003. São dois discos que se parecem. É o momento em que me lanço como compositora. São trabalhos com composições próprias, mas o segundo já tem uma composição do Zé Marcolino. Em seguida veio o Intersessão, que já marca a minha chegada a São Paulo. Ganhei o edital Petrobrás Cultural, um projeto importante que existia na época. As liras pedem socorro veio a seguir, mas eu tinha começado esse antes do Intersessão. São discos que sairam bem próximos. Depois veio o Terreiro da Casa de Mãe Joana. As pessoas sempre me pediam um show “pra dançar”, então compilei canções de outros discos e gravei mais cinco para esse projeto. Eu o considero um disco de carreira porque tem cinco músicas que foram gravadas para ele. Singelo tratado sobre a Delicadeza foi o trabalho seguinte. Depois Lua Bonita, dedicado à obra de Zé do Norte. Com esse disco eu ganhei o Prêmio da Música Brasileira de 2012. Voltando um pouco, eu tinha feito uma pesquisa sobre as Canções de Amigo e saiu um disco chamado Cores do Atlântico, lá na região da Galiza, na Espanha e também em Portugal. Isso aconteceu em 2010, e só recentemente (2016) foi lançado aqui. Em 2017 ele foi indicado ao Prêmio da Música Brasileira. Amazônia foi o trabalho que veio depois e esse eu gravei também um DVD, no Auditório Ibirapuera. Esse disco também foi indicado ao Prêmio da Música Brasileira. Bati duas vezes na trave, em 2016 e 2017 (risos).

FCEF – Gostaria que você falasse agora sobre o papel da mulher na sociedade e no mundo artístico em especial

SL – Eu acho terrível que a gente ainda esteja discutindo isso. É um equívoco enorme. Como se dispensa metade da força e da inteligência da população da terra? A discriminação que se criou dispensa metade de sua força, de sua inteligência, porque nós somos no mínimo a metade da população do planeta. Isso é um equívoco, uma pena. A gente não sabe aonde vai parar essa coisa do patriarcado. A gente tem que acordar todo dia e pensar: hoje eu vou acabar com o patriarcado. Ele é ruim, tanto para nós, mulheres, que morremos aos milhares, somos assassinadas apenas pelo fato de sermos mulheres, aqui e em outros lugares, quanto para os homens porque é uma sociedade agressiva, violenta, que já não interessa a mais ninguém. Não é possível que a gente não saia dessa dimensão, desse plano tão básico. Eu estou tentando assumir uma estratégia que me desgaste menos nessa briga; que é fazer, realizar. Onde eu estiver, fazendo o que estiver fazendo, vai ter equilíbrio. Estou pensando muito no que fazer para equilibrar esses espaços onde atuamos.

FCEF – De que maneira?

Não é possível, por exemplo, na aviação brasileira você ter apenas duas comandantes, pelo que eu sei. Outro dia peguei um voo para Congonhas e vinham dois homens perto de mim. Eles sabiam que era uma mulher pilotando o avião. E aí um deles começou: “Tá muito rápido…” Ele dando “pitaco” no trabalho da comandante. Ele queria dizer que ela estava fazendo errado o trabalho dela! “A pista está pequena”… Isso é misoginia. Desqualificar o trabalho de uma pessoa apenas porque ela é mulher. Isso é de uma ignorância absurda. Tem um filme chamado “Idiocracy” que fala sobre os idiotas no poder. Não as pessoas que sofrem desse deficit, conforme a Psicologia, mas da ignorância generalizada que estamos vivendo aqui e no mundo. São pessoas que se acham no direito de limitar a vida das outras por discordarem do modo como elas vivem. Estão dominando o mundo e isso é impressionante.
Talvez a gente tenha que pensar em outros paradigmas. Eu gosto de física quântica. Um modo de compreender a vida por outro lado, senão a gente vai se acabar. Tenho visto algumas coisas do Hélio Couto, físico quântico e terapeuta, e ele diz que nossa função aqui é estudar, trabalhar e ajudar. Ajudar no sentido da evolução da consciência. Não é a gente evoluir, “se iluminar” e ficar lá na pedra tomando sol. Não! É tentar, onde estivermos, dizer: “gente, acorda!”. Todo o tempo que eu tinha para brincadeira já usei. Tá ótimo. Agora, o que estou escrevendo, cantando, compondo vai nessa perspectiva, que eu já tinha olhado lá atrás, mas que agora me vem com mais energia. Agora que também vem toda essa onda conservadora e que precisamos fazer um contraponto.

FCEF – Algumas pessoas criticam os artistas que deixam clara suas posições políticas e principalmente aqueles que as declaram em seus shows. O que você acha disso?

SL – Vamos falar sobre o quê? Que está tudo certo? É engraçado que tem umas verdades que a gente não pode falar. Agora, a verdade da exploração, da mentalidade escravista, da manipulação, isso tudo rola por aí e as pessoas acham normal. Agora, a gente questionar essas coisas do ponto de vista pessoal, de um olhar mais justo, parece que nós é que estamos erradas. Cada pessoa faz o que quer, claro, de seu trabalho, da sua vida. Eu não me imagino de outro jeito. Antes de ser artista eu sou uma cidadã, eu sou um ser humano. Arte, para mim, é só um meio, um jeito de falar, de me comunicar. Eu poderia fazer outra coisa, criar galinhas, por exemplo. Estaria me comunicando por esse canal. Arte é um canal. Isso não me faz melhor que ninguém.

FCEF – Prêmio Grão de Música. Como surgiu?

SL – Eu sempre tenho uma perspectiva coletiva das coisas, por experiência mesmo. Eu queria criar um troféu pensando no Nordeste. Aí, tive a oportunidade de fazer uma coletânea de música lá na Bahia, chamada Grão de Música, isso em 2009/2010. Em 2014, a mesma empresa de Salvador, chamada Grão de Arroz, me chamou para fazer um evento e a Vera, empresária, sugeriu que fizéssemos uma segunda coletânea. Propus que déssemos um troféu para as pessoas que oferecessem suas canções para o CD. Em 2015 já veio para São Paulo, fizemos aqui, mas o Prêmio nasceu na Bahia. Conseguimos parceria com a prefeitura que nos cede o espaço (Sala Olido) com estrutura e o patrocínio da Metanoia, empresa que trabalha com educação nos negócios. São 15 artistas por ano que recebem um troféu criado pelo Elifas Andreato. Vamos para o quinto ano do Grão de Música. Queremos que o prêmio cresça e esse ano estabelecemos curadores e curadoras regionais nos vários Estados, que selecionam e mandam CDs/ sugestões ao PGM.

FCEF – Você já teve a oportunidade de levar sua arte a vários outros países. Como foi a receptividade por lá?

SL – A minha carreira internacional é parecida com a que tenho aqui. Sou uma artista de pequeno público. Não estou dentro do grande mercado. E também não almejo, para ser sincera. Porque teria que fazer coisas que não quero, concessões que não me interessam, súplicas que não quero fazer e risos que não quero dar…mas, em geral, a receptividade é boa. Tem uma organização local, uma produção que cuida. A música brasileira é bem vista lá fora. Nos países de língua portuguesa é mais fácil e também nos que a apreciam como o Japão. Em novembro eu vou para o Chile, talvez vá a Portugal também. Eu gosto muito dos encontros, de aprender coisas. Também estive na África. Foi uma experiência incrível e difícil também porque normalmente viajo sozinha, mas é uma grande vivência. Ou você cresce ou cresce… (risos)

FCEF – Planos futuros ?

SL – Estou fazendo muitas coisas. Quando fico em São Paulo produzo muito. Estou desenvolvendo um projeto muito legal com as escritoras Maria Valéria Rezende e Susana Ventura. Começamos ano passado em um projeto de musicar Maria Firmina dos Reis e a Valéria teve a ideia de musicarmos mais poetas. Estou musicando dez poetas dos séculos 19 e 20 e agora entrou uma do século 18, a Beatriz Brandão, mineira. Em princípio seriam 10 discos, mas resolvemos começar com shows, palestras. Deve acontecer ainda este ano. Pretendemos lançar os discos também, porque no Brasil se lê pouco, mas se ouve música e queremos dar voz a essas mulheres da literatura que ficaram invisibilizadas. Tenho muitos projetos de discos meus também. Quero fazer um de piano e voz com Ju Cassou, que é pianista. Tem muitas coisas. Em abril participo de um evento no Sesc Santo Amaro sobre mulheres negras na literatura, dentro do projeto “Mulheres que leem mulheres” da escritora Penélope Martins. Depois vou pro Nordeste, em Junho Minas Gerais, Setembro vou pro Piauí e Amazonas, Outubro pro Sul, Novembro pro Chile e por aí vai. Levando aos lugares o que modestamente tenho e posso oferecer. Como deve ser.

Socorro Lira 2
Filipe no show de lançamento do DVD de Socorro Lira – Sesc Pompéia – 2016 Foto de Klaudia Alvarez

 

 

 

1 Comment

  1. Muito bons projetos. Ideia maravilhosa musicar poesias escritas por mulheres. Levar essas vozes descobrindo-lhes o ritmo e a melodia é uma forma generosa de fazer ecos.
    Valeu, Klaudia! Parabéns por essa iniciativa. Valeu, Socorro! Parabéns pela garra!

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