Papo Afinado: Affonsinho!

affonsinho

“Eu sou do mundo eu sou Minas Gerais”

Minas é muito mais que apenas o “Clube da Esquina”. Aquelas famosas ladeiras e ruas arborizadas guardam talentos incríveis que são reverenciados  em várias partes do mundo, mas que em seu próprio país não são conhecidos por todos.  Affonsinho é um deles. Adorado por 9 em cada 10 japoneses apaixonados por MPB,  e tocando na play list das lojas Zara Home em 53 países, esse mineiro especial é o nosso entrevistado deste mês  de Natal (um presente para todos) aqui na Zine.  Vamos conhecer um pouco mais sobre ele e seu trabalho e espalhar a boa nova por aí. Minha sugestão é que você asse um pão de queijo quentinho, pegue um café com leite e aproveite essa prosa deliciosa porque mineiro gosta de uma boa conversa! Agradecemos demais ao Affonsinho Heliodoro por sua disponibilidade e gentileza de sempre com a gente.

FCEF – Você e a música. Quando e como esses dois se encontraram ?

AH – Eu acho que deve ter sido em vidas passadas, porque o meu pai (que está com 101 anos!) é de Diamantina, terra de Fernando Brant, de boêmios, cantores e tal. O pai da minha avó, meu bisavô (papai brinca dizendo que ele foi o primeiro agente de publicidade do Brasil!) chamava-se Zeca Bento. Ele era diabético e ia amputar uma perna (isso em 1800 e pouco) e ele ganhou a vida, sustentou 11 filhos tocando e cantando em Diamantina. Meu pai conta que ele ia com a muletinha dele e cantava em casamentos, aniversários, enterros, batizados. Ele fazia jingles também. O cara do açougue estava vendendo algo mais barato, aí ele ia e fazia uma musiquinha e saía cantando pela cidade. Outra coisa que acontecia também era se uma pessoa devia dinheiro a outra e não pagava, o credor contratava o Zeca Bento que fazia um jingle falando da dívida e ficava cantando na porta do devedor até o sujeito ir lá e pagar… (risos).

Meu pai, que é o neto do Zeca Bento, não trabalhou com música, mas sabe tudo de música. Quando eu fui convidado a atuar na mini série JK, foi ele quem me disse quais músicas Juscelino gostava. Ele sabe tudo de Noel Rosa e canta até hoje. Minha mãe era compositora amadora. Fazia música de forma intuitiva enquanto cuidava dos filhos, cozinhava, arrumava a casa. Ela era professora, mas fazia muitas músicas, algumas com melodias bem sofisticadas.  Eu tenho um primo que é músico e gravou com muitas pessoas no Rio: Márcio Mallar. Foi cielista da Sinfônica e gravou com Tom Jobim, Chico, Milton.

Eu não tive músicos muito próximos de mim, mas a minha relação com a música mesmo começou quando meu pai me levou para assistir o filme “Help”, dos Beatles, lá em Copacabana, no Rio de Janeiro, onde a gente morava na época (1965). John Lennon se tornou meu primeiro super herói, antes do homem aranha, essas coisas.  Percebi que ele era da paz  e do amor e não de dar socos… Ganhei o disco também e ficava pedindo ao meu pai para traduzir, porque queria saber o quê o John dizia nas letras. Sempre fui mais ligado nas letras que na música. O que me deixa muito feliz é quando os fãs falam de letras minhas! Voltando ao John: um dia meu pai chegou em casa com um violão que tinha ganho de um amigo e me disse que tinha encontrado o John Lennon na rua e que ele tinha mandado o violão de presente pra mim. Eu tinha 5 anos e acreditei na história! O meu herói tinha encontrado meu outro herói, em Copacabana, e ele tinha me mandado o presente. Eu fiquei com esse violão em casa como um grande desafio. Eu tinha que fazer algo com ele, afinal era um presente de John Lennon para mim! Quando eu tinha 9 anos, um primo de Belo Horizonte foi passar um tempo com a gente lá no Rio e ele sabia tocar alguma coisa de Roberto Carlos e me ensinou alguns acordes. Depois eu me mudei para Belo Horizonte, aos 10 anos, e aí fui ser criança, porque no Rio era mais complicado, mais perigoso e BH nessa época era um paraíso. Aí eu deixei o violão encostado dos 10 aos 15 anos. Aos 15, eu peguei aqueles acordes de Roberto Carlos que tinha aprendido e misturei com o que estava ouvindo na época que era Jimi Hendrix, Beatles, Stones e as bandas de rock dos naos 70. Juntei com o que meu pai ouvia que era Nat King Cole cantando Cole Porter, Gershwin e o que meu irmão mais velho ouvia que era o Tropicalismo, Chico, Caetano, Mutantes. Então posso dizer que minha relação com a música vem dessas influências diretas.

FCEF – Além de músico, você também é jornalista. Chegou a exercer a profissão?

AH – A história do jornalismo é engraçada porque na época de fazer o vestibular, as pessoas falavam: você gosta de desenhar (eu desenhava quando criança) então vai fazer arquitetura. Nada a ver quem gosta de desenhar com arquitetura. Depois: você gosta de letras de música, então vai fazer jornalismo. Nada a ver também! Eu jamais seria um jornalista competente Eu fiz a faculdade, mas demorei anos pra me formar. Fiz em BH, fiz em Brasília, na UNB (meu pai morou lá 1 ano), depois PUC-BH e acabei me formando na Hélio Alonso do Rio. Demorei séculos para terminar e nunca trabalhei como jornalista. Me casei com uma jornalista, mas eu seria um péssimo jornalista!

FCEF – Hanói Hanói – grande grupo de rock dos naos 80. Como foi participar disso?

AH – O Hanói Hanoi foi uma coisa muito legal na minha vida porque eu já tinha tocado com a maioria das pessoas aqui em BH, então eu já tinha esgotado os desafios aqui. Tinha um bar aqui onde muitos músicos se encontravam. Yuri Popov, Mário Castelo, Zé Name, Beto Lopes (toca hoje com Milton). Essa turma tocava em um bar chamado Bar Buleta, na Av. Getúlio Vargas, perto da Savassi e domingo a gente colocava os instrumentos na rua e tocava lá. Ficava lotado. Nessa época eu tinha uns 22 anos. Muita gente ia pra lá e tal. Aí encontrei com um cara que era daqui, mas estava morando em São Paulo e produzia o Ultraje a Rigor. Era o Cacá Prates. Aí falei pra ele que eu estava a fim de sair de BH, fazer outras coisas e que se ele conhecesse alguém que estivesse tocando, no Rio ou em SP e precisasse de guitarrista que me desse um toque. Eu achei que ele nem ia se lembrar disso e aconteceu que em 84/85 eu resolvi ir pro Rio. Meu irmão mais velho estava morando lá e fui pra casa dele. Fiquei um tempo sem ter o que fazer. Ligava para as agências de publicidade que eu tinha pego os contatos em BH. Me apresentava como músico recém chegado de BH, que estava procurando trabalho, essas coisas. Aí vinha aquela resposta triste: Ah, tá.  Pode deixar que a gente te telefona.  Quando falam isso, eu aprendi que nunca telefonam…(risos) Eu passei uns 6 meses à toa, sem ter o que fazer e morrendo de saudades dos amigos de BH, porque no Rio eu não conhecia ninguém. Aí, eu cara de BH que estava no Rio, o Melão, me convidou para tocar em um bar, no Leblon. Fiquei tocando lá até que um dia o Arnaldo Brandão me ligou. O Cacá Prates tinha falado sobre mim! A banda do Arnaldo (Brilho da Cidade) tinha acabado e ele queria formar um novo grupo. Como eu já estava no Rio, ficou mais fácil. Eu levei pro Arnaldo algumas coisas que eu já tinha gravado e ele me mostrou o projeto do Hanói Hanói. Então a banda começou com o Arnaldo e comigo.

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Hanói Hanói

Um tempo depois entrou o Pena (baterista) que era do Herva Doce. Ficamos como um trio e foi minha primeira experiência profissional. Viajamos o Brasil fazendo shows, programas de TV, inclusive o Chacrinha, Perdidos na Noite. O Chacrinha foi uma experiência muito legal, porque eu dizia que só me consideraria um profissional depois que fizesse o programa dele e fizemos vários. Depois de nos apresentarmos lá estouramos mesmo. O Caetano gravou o “Totalmente demais”.

Eu sou muito grato ao Arnaldo porque  ele sempre foi muito generoso e atencioso comigo. Me apresentava como se u fosse o melhor guitarrista do Brasil! Foi uma experiência incrível poder tocar com alguém como o Arnaldo que tocou com o Caetano, Raul Seixas, Moraes Moreira… foi o fundador da Bolha, The Bubbles ainda, lá nos anos 60, com o Arnaldo Ladeira. Ele sabe tudo!

FCEF – Quando você decidiu que queria fazer carreira solo e como foi o processo?

AH – Antes de eu pensar em sair do Hanói, eu já estava cansado das turnês.  Eu não sou muito de viajar, sou mais caseiro e a banda viajava muito, fazia shows quase que a semana inteira. Eu já tinha o meu filho, o Fred, e ficava praticamente 6 meses fora de casa,,, Ao mesmo tempo eu fazia  música com um letrista chamado Chico Amaral, desde os meus 18 anos. A primeira que fizemos juntos eu fiz a letra e ele a música. Aí descobri que ele era bom letrista e parei de fazer letras (risos). Fizemos muitas coisas ante dele ir pro Skank. Eu tinha 20 anos e o Samuel Rosa tinha 15. E dei aula de guitarra pra ele. Na época eu já tinha uma fender, tinha carro e o Samuel ficava impressionado com isso. Aí tinha um amigo nosso o Fernando Furtado que queria ser produtor e curtia muito o Hanói. Quando eu ia para BH descansar, o Fernando ia comigo nas rádios, divulgar o Hanói. Aí ele me disse que queria trabalhar com produção e sugeri que ele procurasse o Samuel Rosa que tinha uma banda chamada “Pouso Alto”. Eu disse que ele tinha sido meu aluno que era muito talentoso e sugeri que o Fernando trabalhasse com ele. Aí eles se conheceram, deu tudo certo e o Fernando estourou o Skank nacionalmente, provando que ele era um bom produtor. Certa vez ele me pediu uma música pro Skank (que ainda era Pouso Alto) e eu disse pra ele procurar o Chico Amaral. Aí também deu certo e 80% do trabalho do Samuel é com o Chico Amaral como letrista. E eu perdi o letrista…As músicas do Chico eu não conseguia colocar no Hanói porque já tinha o Tavinho Paes que fazia as letras da banda.

Ao perder o letrista eu voltei a fazer o que gosto, que são as letras. Aí eu fui contratado para a Dubas pelo Ronaldo Bastos, outro grande letrista. E foi por causa da letra de “Escândalos de luz”. Eu perdi o parceiro (Chico Amaral) mas voltei a fazer letras e foram elas que me levaram para a Dubas, para o Japão, para os 14 discos que fiz, sempre tentando fazer as letras mais sinceras, sempre procurando passar uma coisa legal, que pudesse provocar um sentimento bom nas pessoas, nesse mundo tão maluco e cheio de loucura. Uma preocupação que eu tenho e que tentei pegar do Caetano. Sempre achei que ele tem uma coisa de esperança, mesmo não sendo um cara religioso, ele sempre tem algo tipo “luz do sol”, de falar de lua, estrela, amor, carinho, delicadeza. Ele tem um alto astral pra fazer música e acho que essa é uma lição que aprendi com ele.

Affonsinho no Zoombido – Escândalos de Luz

FCEF – Além de compositor, você é um excelente guitarrista. Quem são seus mestres inspiradores ?

AH – A guitarra foi meu primeiro instrumento mesmo. É o que eu mais gosto. Eu comecei ouvindo Jimi Hendrix, Led Zeppelin e descobri que  esses caras ouviam BB King, Albert King, Fred King e aí eu descobri o blues. Principalmente pelo BB King, pelo Johnny Winter, Eric Clapton.  Os negros tem uma coisa diferente dos brancos tocando que é muito interessante. Aí eu descobri que gostava mais de blues que de rock. Eu gosto de música que envolve sentimento. Eu gosto de letras e blues não tem muito a coisa do exibicionismo, virtuosismo. São menos notas, há mais preocupação com a frase da música, com o som, o timbre, o vibrato. Isso que me pegou. Então os caras que ouvi: BB King, Albert King, Fred King, Muddie Waters e os brancos que copiavam eles: Eric Clapton, Johnny Winter, Jimmi Page, Jeff Back.

Hoje tem um guitarrista que é tão criativo, tão genial que acho que do Hendrix até hoje, ele é o melhor cara que apareceu. Se chama Derek Trucks e é casado com a Susan Tedeski da Banda Tedesk Trucks Band. Quem não conhece essa banda, procure ouvir. Desde 1967 que eu não escuto um cara tão bom e tão criativo quanto o Derek Trucks. Ele é do outro mundo. É sobrinho de Buddy Trucks, que era baterista dos Alman Brothers. É muito talento junto.

Eu adoro guitarra. Antigamente era mais complicado porque um cara que gostasse de guitarra, de blues, de rock não podia gostar de João Gilberto, por exemplo. E eu sempre curti os dois. Uma hora queria ouvir João Gilberto e outra quero Hendrix. Eu sempre tentei misturar isso na minha música. O que aprendi com o João e o que aprendi com os bluseiros. A minha relação com a guitarra é de amor profundo mesmo.

 

FCEF – Como você vê o papel da Internet na divulgação de artistas  novos e também na democratização de arquivos de artistas já consagrados ? Pra você ela é aliada ou vilã?

AH – No meu caso, de artista independente, foi ótimo. Antigamente você alugava um teatro, equipamento de som, gastava uma grana e ficava naquele pavor, dependendo do jornal, da rádio pra divulgar o seu trabalho e se chegasse um artista mais importante e geralmente todos são mais importantes que os mineiros… Isso é algo que acontece. Atualmente melhorou um pouco. Antigamente qualquer artista do Rio ou São Paulo que viesse aqui já tomava o espaço dos mineiros. Eu não vejo isso como uma briga pra tomar espaço não. É algo assim: tudo que vem de fora parece ser mais legal do que o daqui. A gente recebia o que vinha de fora com mais atenção. Isso melhorou muito, mas ainda continua, então a Internet facilitou, para os artistas independentes poderem divulgar seu trabalho sem depender dos meios de comunicação como jornais, TVs, etc. Mas tem o outro lado. Todo mundo virou artista e o público confunde. Tem o que é mais legal, mais trabalhado. Acho importante que se veja de tudo, mas seria importante se diferenciar. É como aquela coisa de se cobrar do rock só como música, enquanto ele tinha também a atitude. O jazz, a música erudita são mais música mesmo e tem as outras performáticas.

Acho a Internet importante porque todos podem mostrar seus trabalhos sem depender dos meios de comunicação tradicionais. Um artista mineiro e independente como eu, conseguir espaço em um jornal ou rádio do Rio ou São Paulo é praticamente impossível porque as pessoas não dão muita bola para o que acontece aqui. As pessoas conhecem mais de Minas o Clube da Esquina, o Skank e o Jota Quest. Muito pouco o resto das pessoas. Isso eu sei porque morei no Rio, duas vezes dez anos cada e hoje se eu for pro Rio com o meu trabalho não vou ter visibilidade nenhuma. Em São Paulo a mesma coisa. Muito difícil eu chegar em São Paulo ou Rio, mesmo com muitos anos de carreira, tendo passado pelo Hanói, é muito difícil o pessoal dá bola… Essas revistas, por exemplo. Eu ficava até ressentido com a Guitar Player porque ela colocava apenas matéria dos guitarristas de Rio e São Paulo. Nunca vi um guitarrista de BH focalizado. E temos muitos guitarristas bons aqui. Gente de nível mundial como Toninho Horta, Juarez Moreira, mas Minas não existe muito fora daqui, sabe ? Apesar de estar crescendo muito a coisa interna aqui. O pessoal está ficando mais qui e criando o mercado interno, com muito trabalho, muitos festivais de cinema. Festival de Tiradentes, festival de gastronomia. Talvez a gente tenha até mais trabalho aqui de música do que no Rio. São Paulo não, porque SP tem muito trabalho. Mas estamos agora fazendo um trabalho interno bem legal, graças a Deus, e isso vai ampliar o mercado aqui.

FCEF – Acho importante que a gente fale um pouco sobre o trabalho do seu pai, que foi assistente  pessoal de Juscelino Kubitschek e que tem tanto história em seu currículo,  o que te levou, inclusive, a participar como ator da minissérie  JK. Como é ser filho de alguém que participou tão ativamente  da vida política e cultural do país em um período tão especial e próspero de nossa história?

Affonsinho e o pai
Sr. Affonso Heliodoro dos Santos e Affonsinho – Arquivo da família

AH – Meu pai nasceu em Diamantina. Ele é 14 anos mais novo que o Juscelino e ele foi aluno da mãe do Juscelino. As famílias já se conheciam de lá. Depois meu pai perdeu contato com eles porque mudou para Belo Horizonte, foi ser professor na polícia militar. Meu pai era muito estudioso, falava Inglês e aí precisaram de uma pessoa pra fazer uma tradução. Meu pai foi e ficou conhecendo o Juscelino nessa época. Descobriram que as famílias se conheciam lá de Diamantina e quando Juscelino assumiu o governo aqui de Minas, convidou meu pai pra trabalhar com ele. Como meu pai era Coronel da Polícia Militar, Professor, ele foi ser Chefe da Casa Militar do Governo do JK aqui em Minas. Depois foi para a Presidência da República como Sub-Chefe da Casa Civil, responsável pelas 50 Metas que ele tinha para o Governo Brasileiro. Na época da Revolução, Juscelino foi exilado e foi para a França. Meu pai foi junto e ficou um tempo lá. Eles foram amigos a vida inteira. Depois quando o Figueiredo cedeu aquele terreno em Brasília, para se construir o Memorial JK, a Dona Sarah chamou meu pai para ser o diretor do Memorial e ele ficou lá muitos anos até a neta do Juscelino resolver assumir, isso uns 20 anos depois. Hoje a filha da Márcia Kubitschek é que é a presidente lá. De lá meu pai foi para o Instituto Histórico Geográfico e continuou a fazer um trabalho de divulgação da obra do Juscelino como ele sempre fez até os 99 anos. Eu participei da minissérie porque a Maria Adelaide me convidou. Eu assisti às entrevistas dela com o meu pau para pegar as informações sobre o governo e eu dei para ele os meus discos “Esquinas de Minas”, pensando na possibilidade dela conhecer a minha voz, nunca colocar alguma música na minissérie porque era sobre os anos 50 e as músicas dos CDs são releituras de músicas dos anos 70. Eu sabia que não seria trilha nunca. Mas como ela gostou da minha voz, ela me convidou para atuar. Tinha o César Prates que era violeiro e amigo do Juscelino e ela perguntou se eu faria esse papel. Fiquei meio assim e tal, com medo, porque não tenho experiência com teatro e ela me tranquilizou e disse: é mais pra cantar mesmo. Aí eu aceitei, pensando que era só pra cantar mesmo. Cheguei lá e vi que tinha texto! César Prates foi um amigo muito fiel de JK. Eu fui muito ajudado por atores novos também, mas atores de verdade, como Murilo Gross, que fez o papel do meu pai, o Juliano Righetto, de São Paulo. Eu também tenho um primo no Rio que é ator, o Marcelo Novaes. Eu perguntei a ele o que eu fazia e ele disse: você não vai aprender a ser ator em um mês, então aja como você mesmo. Tenta decorar o texto e tal. Aí eu fiz do meu jeito e fico pensando, ou eu era muito ruim e o Dênis Carvalho que era o diretor não quis me dar bronca ou então acho que fiz direitinho minha parte porque não levei bronca… (risos) Foi uma experiência muito boa, mas eu prefiro continuar na música mesmo.

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D. Walkyria Heliodoro dos Santos, mãe de Affonsinho e o próprio. Foto  Arquivo de família

FCEF – Fale um pouco sobre os seus discos e o novo trabalho.

AH – Quando eu saí do Hanói, em 1988, eu montei uma banda de rock e blues autoral e fiquei tocando no Rio e em São Paulo. Chamava-se Os Senhores. Tentamos arrumar gravadora na época e não conseguimos. Na verdade, conseguimos um selo que era da Globo, chamado Selo Chorus e gravamos um disco que não foi lançado. Esse disco teve a participação do Frejat, que eu convidei, do Arnaldo Brandão, que convidei, e um convidado que se convidou mesmo. Ele ouviu uma das letras do Chico Amaral, antes mesmo dele ser conhecido pelo trabalho no Skank. Uma letra linda chamada “Me digam os senhores” que o Chico fez uma coisa bem Bob Dylan e o Erasmo quis gravar com a gente. Ele apareceu no estúdio. Eu era amigo do filho dele, o Gil que tocava no Blues Etílicos. O Erasmo gostou da letra, gravou com a gente e foi uma glória. Ele elogiou muito a banda, a musica e tal. Depois ele ouviu uma outra minha, chamada “Horóscopo chinês” e disse que queria ter cantado essa também. Acabou que esse selo não podia lançar música vocal, houve alguma burocracia lá e perdemos esse trabalho já todo gravado, faltando apenas mixar e masterizar. Eu fiquei apenas com uma cópia disso, sem mixagem. A qualidade é até boa, mas não tem a masterização, não tem agudos e graves direito.

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Affonsinho e Fred Heliodoro –   Foto de Élcio Paraíso

Depois disso eu voltei pra BH porque eu estava me separando e não daria conta de ficar longe do Fred. Eu já estava há 10 anos no Rio, meu filho estava indo pra BH e decidi que não ia ficar longe dele. Me lembro que o Tavito me falou na época. Você vai estar jogando 10 anos de investimento em sua carreira profissional fora. BH não vai rolar nada. Eu disse que não, que tinha o Skank…Mas eu não daria conta de ficar longe do meu filho nem que fosse para tocar com o Paul McCartney…(risos). Eu vim embora, fiquei aqui e acho que fiz certo, Não me arrependo de jeito nenhum. Montei um estúdio pequeno e falei agora vou parar de tocar profissionalmente e vou ficar só com o estúdio. Mas acontece que a gente não aguenta! Eu fiz um disco independente chamado “Tudo certo” , meio rock, meio MPB misturado, me descobrindo ainda. Nesse disco tinha uma canção com uma letra maravilhosa do Chico Amaral chamada ” A última vez que eu olhei o Rio” que o Ronaldo Bastos pegou e colocou no “Zum Zum”. É uma letra que fala do Rio de uma forma muito bonita. Essa canção tocou muito em uma rádio aqui de Minas. Tocou bastante. As pessoas começaram a me elogiar cantando Bossa Nova e me empolguei com isso.  Fiz um outro disco depois chamado “Sambando assim meu rock and roll” que era já uma mistura de rock com bossa nova e tentei levar nas gravadoras do Rio e ninguém quis. Fiquei meio chateado e as pessoas diziam que já tinha um cara parecido comigo que era o Paulinho Moska. Aí eu resolvi que ia fazer um disco acústico apenas para dar para s minhas tias, minha mãe, minhas ex namoradas… Aí fiz o “Zum Zum”. Bem suave e um cara que trabalhava com o Ronaldo Bastos, um mineiro,  levou uma demo desse disco e levou pro Ronaldo Bastos no Rio. Em uma viagem que o Ronald fazia do Rio para Friburgo, onde ele tem casa, ele me ligou da estrada e disse que tinha adorado o disco, a letra de “Escândalos de Luz” e comentou que queria ter feito aquela letra.  E disse que queria me contratar para a Dubas.  Explicou que era um selo pequeno mas com um ótimo contato no Japão. Eu topei. estava procurando uma gravadora há tempos. 12 anos! O Ronaldo pegou as músicas do “Zum Zum”, incluiu  duas desses outros discos independentes: “A última vez que eu olhei o Rio” e “O Amor não acaba pra quem é do bem”.  Convidou a Fernanda Takai pra gravar. Foi a primeira bossa nova que ela gravou, sem saber ainda que tinha uma voz de bossa nova. Aí me empolguei, depois que o Ronaldo me contratou. Estava louco para fazer o “Belê”, que tem “Vagalumes”. Esse é o meu disco mais conhecido até hoje. Mas o Ronald me pediu pra fazer uma coisa que eu morria de medo de fazer. Gravar o “Esquinas de Minas” com releituras de músicas consagradas do Clube da Esquina. Eu estava preocupado de mexer em pérolas. Músicas do Milton, do Lô, do Beto Guedes…que as pessoas já conhecem daquelas versões. Aí o Ronaldo disse: eu quero que você faça com a sua versão delas, com a mesma sonoridade do “Zum Zum”.  Pode fazer que eu garanto, eu sou o Clube da Esquina. Ele me disse. Eu fiz assim, pisando em ovos, morrendo de medo de mexer em pérolas. Mas acho que em algumas músicas a gente acertou, nas releituras. Eu jamais faria algo copiando porque eu nunca conseguiria fazer algo como eles fizeram, então tentei botar o meu jeito.  Eu gostei que o Tavito comentou que achava o disco a minha cara, a minha personalidade. O Ronaldo lançou o primeiro no Japão, esgotou, vendeu tudo. Aí ele me pediu para fazer o volume dois. Eu já tava louco pra fazer o “Belê”, então fiz rápido o volume dois do “Esquinas de Minas. Lembro que o Washington Olivetto curtiu muito o disco, escreveu um negócio pra pregar na capa do disco. O “Zum Zum” foi lançado em 2000, os dois Esquinas em 2002/2003/2004. Os dois “Esquinas” esgotaram no Japão, venderam bem aqui também e aí fiz o “Belê”. Nesse tem o “Vagalumes”, tem “Aquela bossa axé”, parceria com o Ronaldo, tem “Nuvem Boa”. Também esgotou no Japão.  Foi um disco que me deu muito trabalho para fazer. O Ronaldo me exigiu muito. Eu vinha pra BH e ia pro Rio com as demos. E voltava para gravar. Demoramos uns 2 anos pra decidir o repertório, gravar e lançar. E foi nesse período que teve a minissérie o que atrasou também o lançamento. Depois do “Belê” eu peguei gosto pela coisa. Aí eu fiz o “Meu Plano”, logo depois. E na sequência eu quis fazer o “Voz e viô”. Aí o Ronaldo achou que para a gravadora não interessava eu ficar fazendo um disco atrás do outro. Você tem que trabalhar um disco e tal e eu naquela ansiedade de compor, que eu gosto bastante. Aí não dei conta de ficar seguindo os padrões da gravadora. Eu não sou um cara assim famoso, pop, não tenho interesse nesse mercado pop, eu tenho interesse em fazer música. Não vou ficar seguindo  regras. Tem que fazer um disco, esperar dois anos, trabalhar… Eu sou meio rebelde com isso  e decidi sair da Dubas  e voltar a ser independente para fazer o tanto de discos que eu quiser. Eu lembrei de uma frase do Ezra Pound: Artistas são antenas. Se você tem a ideia de fazer uma música e não faz ou não lança, aí outro artista tem a ideia e lança e você perde. Você passa a ser o cara que está copiando o outro. Eu queria fazer mais discos. Então eu fiz os dois independentes : “Tudo certo”, “Sambando assim meu rock and roll”, o primeiro na Dubas que foi o “Zum Zum”, os dois “Esquinas de Minas”, o “Belê”, o “Meu Plano”, depois o “Voz e Viô” (que esgotou e é um disco que gosto  muito. Tem uma música que fiz para a minha mãe – Acontece que). Depois veio o “Zague Zeia”, “Trópico de peixes”, “Depois de agora” , “Lá de um lugar”, “Blusing” e o mais recente “Certeza ?”, produzido pelo Frederico Heliodoro, meu filho. 

O Fred está com um trabalho muito bacana instrumental, mas também cantado. Ele está tocando com um americano bem conhecido e considerado um grande músico: Kurt Rosenwinkel . Estão fazendo turnê mundial.

A ideia do Fred foi fazer desse meu mais recente disco um marco em minha carreira. Um tipo “turning point” como foi o “Belê”. Ele quis mexer nas harmonias, nas melodias. A intenção dele era fazer um disco diferente de tudo que eu já tinha feito.  Eu acho que ele conseguiu porque ele mudou muita coisa, mas respeitou meu jeito de compor, de cantar. Eu gostei da parceria. Mesmo porque ele toca comigo desde que nasceu (risos). Foi muito fácil a gente trabalhar junto. Eu entreguei a produção para ele e não dei palpite em nada. Não quis ser pai. Disse pra ele: faça o que você achar que tem de fazer. E eu acatei tudo porque não vi nada que achasse ruim ou esquisito.

FCEF – A seu ver, qual o papel do artista no contexto politico/social  atual, em especial com relação a tudo que estamos vivenciando no Brasil ?

AH – Penso que cada um tem o seu papel. Tem que procurar saber qual o seu. Tem uns que tem mais talento para falar sobre um determinado tema, tem que explorar aquele tema e falar. Como o Chico Buarque por exemplo que tem o jeito dele. Na época da ditadura ele falou muita coisa legal com as metáforas dele. A Rita Lee já era o oposto, ela debochava, ironizava a seriedade da música brasileira. O Caetano sempre soube falar muito bem de várias coisas, muitas metáforas, mas sempre com aquela coisa da esperança que já falei anteriormente e eu procuro falar do meu jeito. Não acho que conseguiria ser muito panfletário. Eu procuro falar de coisas que acho importantes e minha preocupação é sempre com as letras. Eu tenho que falar algo que vai gerar em quem vai escutar aquilo ali alguma coisa boa. Eu tenho essa pretensão. Mesmo que sejam 10 pessoas aqui em BH, eu quero que a minha música provoque nessas pessoas  alguma coisa boa. Se eu conseguir mudar o jeito delas verem algo pra melhor. Se for produzir 3 minutos de leveza, de tranquilidade, de não estar pensando em coisas ruins naquele momento já valeu.  Eu fiz algumas músicas falando sobre essa coisa do preconceito. Me incomoda muito pensar que estamos em 2017 e tanta gente preconceituosa. Eu penso que o Brasil, o mundo está vivendo um negócio meio estranho, de muita gente dando palpite em tanta coisa que não entende. As redes sociais mostraram isso. Eu venho fazendo algumas músicas sobre isso, criticando do meu jeito, não de forma agressiva, mas de um jeito mais suave, talvez.

No “Zague Zeia” tem uma música chamada “Um tanto de coisas” que fala das diferenças. Outra cança~se chama “Deixa” onde eu convidei a Marina Machado pra cantar comigo. No “Lá de um lugar” eu fiz uma canção chamada “Que diferença faz” e no “Certeza” agora eu fiz a canção título que é “Certeza ?” com ponto de interrogação no final onde eu falo sobre a mudança dos conceitos , da educação que tivemos, etc. O jeito que eu achei de dizer as coisas que eu penso foi através da minhas letras, mas sem agressividade. Todas as vezes , na minha vida, em que eu briguei eu não gostei dos resultados.  Eu prefiro falar de uma forma mais suave, tenta chegar no coração das pessoas. Como eu não sou um cara nacionalmente conhecido, não vou mudar muita coisa, mas fico feliz, das poucas pessoas que conhecem o meu trabalho quando entendem, compreendem a letra. Quando a pessoa coloca um pedacinho da letra no facebook… Hoje mesmo eu ganhei uma caixinha com vários trechos de minhas músicas. Fico feliz porque vi que elas entenderam. Isso é muito legal pra mim, por eu ser um artista que não está no “Faustão”, por exemplo. É como aquelas pessoas que tem muito dinheiro. Não sabem nunca se alguém está ali apenas por interesse. Eu não tenho isso. Não sou famoso, não sou conhecido nacionalmente. Não estou na moda. Nunca tive essa pretensão e hoje menos ainda. Quem gosta da minha música é porque gosta mesmo. Quem está gostando está gostando de verdade mesmo. Isso me deixa muito feliz. Lógico que eu queria que minha mensagem fosse pra mais pessoas, mas nunca batalhei muito pra isso. Nunca corri atrás de ficar famoso. Nunca fiz as coisas que são necessárias pra isso. Me expor demais…Preferi me dedicar a fazer minhas músicas. São perto de 150 canções. 14 discos em cerca de 17 anos de carreira solo.

FCEF – Quem quiser conhecer mais o trabalho de Affonsinho, como faz?

AH – Tenho facebook, instagram. Minhas canções estão no itunes, deezer, spotify, amazon.

Eu amo música. Não conseguiria fazer outra coisa que não fosse música. Tem aquela coisa que sempre alguém da família perguntava: como você vai fazer para sobreviver de música? E a minha resposta era sempre: eu não sei como vou fazer para viver sem a música! Ela é que segura a minha onda, me orienta, me tira das tristezas, que me leva para a esperança. Eu tenho uma atração física pela música.

 

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