Memória: Cartola

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Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve

(Cazuza)

 

Cartola nasceu em 11 de outubro de 1908, na cidade do Rio de Janeiro. Sua obra é peça fundamental para a evolução do samba. Segundo alguns estudiosos, Cartola tem um estilo inconfundível em suas harmonias, melodias e letras. Elas traduzem a poética do trovador da Mangueira, que, trabalhou sozinho ou em parceria, com Carlos Cachaça, Elton Medeiros, Hermínio Bello de Carvalho. Intérpretes como: Beth Carvalho, Elis Regina, Ney Matogrosso, Marisa Monte, Paulinho da Viola, Cazuza foram influenciados por seus versos.

Diante da grandeza de sua obra, a forma mais singela que encontrei de homenageá-lo, é trazer um texto do nosso grande poeta Carlos Drummond de Andrade, escrito para o Jornal do Brasil, em 27 de novembro de 1980, três dias antes da morte de Cartola.

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Cartola, no moinho do mundo

(Carlos Drummond de Andrade)

 

Você vai pela rua, distraído ou preocupado, não importa. Vai a determinado lugar para fazer qualquer coisa que está escrita na sua agenda. Nem é preciso que tenha agenda. Você tem um destino qualquer, e a rua é só a passagem entre sua casa e a pessoa que vai procurar. De repente estaca. Estaca e fica ouvindo.

  

Eu fiz o ninho
Te ensinei o bom caminho,
Mas quando a mulher
Não tem brio,
É malhar em ferro frio.

 

Aí você fica parado, escutando até o fim o som que vem da loja de discos, onde alguém se lembrou de reviver o velho samba da Cartola: Na floresta (na interpretação de Sílvio Caldas).

  

Esse Cartola! Desta vez está desiludido e zangado, mas em geral a atitude dele é de franco romantismo, e tudo se resume num título: Sei sentir. Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando. Assim, quando ele nos anuncia: “Tenho um novo amor”, é como se desse a senha para a renovação geral da vida, a germinação de outras flores no eterno jardim. O sol nascerá, com a garantia de Cartola. E com o sol, a incessante primavera.

 

 A delicadeza visceral de Angenor de Oliveira (e não Agenor, como dizem os descuidados) é patente quer na composição, quer na execução. Como bem me observou Jota Efegê, seu padrinho de casamento, trata-se de um distinto senhor emoldurado pelo Morro da Mangueira. A imagem do malandro não coincide com a sua. A dura experiência de viver como pedreiro, tipógrafo e lavador de carros, desconhecido e trazendo consigo o dom musical, a centelha, não o afetou, não fez dele um homem ácido e revoltado. A fama chegou até a sua porta sem ser procurada. O discreto Cartola recebeu-a com cortesia. Os dois convivem civilizadamente. Ele tem a elegância moral de Pixinguinha, outro a quem a natureza privilegiou com a sensibilidade criativa, e que também soube ser mestre de delicadeza.

 

Em “Tempos idos”, o divino Cartola, como qualificou Lúcio Rangel, fez o histórico poético da evolução do samba, que se processou, aliás, com sua participação eficiente.

 

Depois, aos poucos, o nosso samba
Sem sentirmos se aprimorou
Pelos salões da sociedade
Sem cerimônia ele entrou
Já não pertence mais à Praça
Já não é mais samba de terreiro
Vitorioso ele partiu para o estrangeiro

Pode-se dizer que esta foi também a caminhada de Cartola. Nascido no Catete, sua grande experiência humana se desenvolveu no Morro da Mangueira, mas hoje ele é aceito como valor cultural brasileiro, representativo do que há de melhor e mais autêntico na música popular. Ao gravar seu samba “Quem me vê sorrir” (com Carlos Cachaça), o maestro Leopold Stockwski não lhe fez nenhum favor: reconheceu, apenas, o que há de inventividade musical nas camadas mais humildes da nossa população.

Mas então eu fiquei parado, ouvindo a filosofia cética do Mestre Cartola, na voz de Sílvio Caldas. Já não me lembrava do compromisso que tinha de cumprir, que compromisso? Na floresta, o homem fizera um ninho de amor, e a mulher não soubera corresponder à sua dedicação. Inutilmente ele a amara e orientara, mulher sem brio não tem jeito não. Cartola devia estar muito ferido para dizer coisas tão amargas. Hoje não está. Forma um par feliz com Zica, e às vezes a televisão vai até a casa deles, mostra o casal tranquilo.

 

Compreendi o erro de toda humanidade

Uns choram por prazer e outros com saudade

Jurei e a minha jura jamais eu quebrarei
Todo pranto esconderei

Quem me ver sorrindo” (Cartola / Carlos Cachaça)

Cartola discorrendo com modéstia e sabedoria sobre coisas da vida. “O mundo é um moinho…” O moleiro não é ele, Angenor, nem eu, nem qualquer um de nós, igualmente moídos no eterno girar da roda, trigo ou milho que se deixa pulverizar.

Ouça-me bem, amor

Preste atenção, o mundo é um moinho

Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho

Vai reduzir as ilusões a pó

(O mundo é um moinho-Cartola)

 

Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante. A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida. O nobre, o simples, não direi o divino, mas o humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada. O som calou-se e “fui à vida”, como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia. Mas levava uma companhia, uma amizade de espírito, o jeito de Cartola botar em lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da poesia, essa iluminação.

Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão
Enfim

(As rosas não falam-Cartola)

Texto e pesquisa: Christina Eloi

Fonte: http://www.cartola.org.br/cartola.html

http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa11957/cartola

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