Memória: Maysa

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Crédito da Foto: maysamonjardimoficial.blogspot.com

Há 39 anos o Brasil perdia uma de suas intérpretes mais viscerais e uma figura feminina que marcou sua época.  Depois de tanto tempo de sua passagem, ela continua a fazer novos fãs e conquistar um público extremamente jovem com seu talento.  A arte atemporal.  Como deve ser.  Maysa vive!


Meu primeiro contato com a arte de Maysa foi por intermédio de trechos da minissérie “Maysa – Quando Fala o Coração” transmitida pela Rede Globo, no ano de 2009. Em um primeiro momento fiquei encantada e escandalizada com a mulher Maysa, que não possuía papas na língua e que me dava a impressão de ser uma pessoa forte, e ao mesmo tempo frágil. Lembro que fui à procura de algumas músicas, porém não me aprofundei. Acredito que na época não compreendi a magnitude de seu trabalho.
Passados alguns anos, em um passeio por um shopping, me deparei com o livro do autor Lira Neto “Maysa – Só, numa multidão de amores” (ótimo livro, recomendo a todos) e comentei com a minha mãe: “Olha, é o livro da moça que compôs aquela música que o Filipe canta (Meu mundo caiu)”. Levei o livro e o guardei em um canto. Depois de alguns meses, tive a oportunidade de assistir novamente a minissérie (agora de forma completa) que mostrou somente a superfície do furacão que era ela, e a fascinação por essa mulher me pegou de jeito, e lá fui eu tirar o livro do seu esquecimento. Li-o em dois dias, assisti todos os especiais e entrevistas e baixei todos os álbuns disponíveis. Enfim, a arte de Maysa penetrou fundo em mim.
Maysa era uma pessoa consciente do mundo que a cercava, e era vista com maus olhos por pessoas que não entendiam a sua complexidade e a taxavam de uma estrela inconsequente e explosiva. Maysa, sem sombra de dúvida, foi uma pessoa bem à frente do seu tempo. Em uma época em que  as mulheres ainda eram muito submissas aos seus maridos, ela simplesmente o largou para seguir o caminho que queria traçar, e não o que a sociedade lhe impunha, rompendo com todas as convenções e se jogando em sua louca e intensa vida.
Como artista era intensa e visceral, possuía uma voz forte e avassaladora, interpretava com profunda maestria, e também compunha lindas canções. Além de fazer diversos poemas, ela também se aventurou pelas artes plásticas quando deu um tempo com a música.
Maysa foi muito mais que olhos intensos ou o temperamento explosivo. Atravessou barreiras, foi pioneira em muitas coisas, além de abrir portas para a música brasileira fora do país, e se tornou uma das maiores personalidades da historia da música.
Infelizmente seu tempo entre nós foi breve, e a sua vida terrestre foi-se por uma fatalidade, mas mesmo depois de 39 anos da sua partida deste plano, sua luz permanece forte entre nós por meio de sua arte.
Viva  Maysa!
Texto de Emilly Luciana Barbosa

Escrever sobre um mito como Maysa não é nada fácil.  Pesquisei e li sobre sua vida e sua obra. E ainda assim, o processo de escrita não foi facilitado pelo simples fato de não desejar cair no lugar comum e abordar sua passionalidade, sua profundidade de entrega à arte, sua personalidade fortíssima ou sua sensibilidade exarcebada. Resolvi então escrever sobre mim, sobre minha “experiência pessoal” com Maysa.

Desde pequena, talvez lá por volta dos 6 ou 7 anos de idade, sempre ouvi meu pai falar que meu avô paterno adorava Maysa. Quando meu avô faleceu, meu pai herdou os LP’s mais queridos de meu avô, inclusive os de Maysa. Vez por outra, ele resolvia trabalhar ouvindo música. Ele era mecânico de máquinas de lavar e ligava a vitrola onde transitavam os mais diversos cantores e estilos musicais. A maratona musical ia de Trio Los Panchos com seu “Quizás, quizás, quizás” (também gravada por Maysa), perpassava por Nelson Gonçalves e sua versão definitiva de “A volta do boêmio” e sempre encontrava, dentre outras, “Meu mundo caiu” de Maysa. Não que as outras músicas não fossem interessantes, mas as canções de Maysa sempre me faziam parar e prestar atenção àquela voz encantadoramente expressiva, na letra e na interpretação repleta de intensidade e sentimentos. O que alguns desavisados chamariam de música de fossa ou “dor de cotovelo”, eram enfim músicas que mexiam com a sensibilidade do ouvinte e, inevitavelmente, faziam o pranto rolar.

Lembro que eu sempre pedia pra ver a capa do LP e o que me marcou muito foi aquele olhar e também aqueles olhos verdes, que hoje me fazem lembrar a descrição feita por Machado de Assis para os olhos de Capitu: “[…] olhos de cigana oblíqua e dissimulada ou olhos de ressaca”.

Sem dúvida alguma, Maysa faz parte das minhas memórias afetivas, e embora não possua mais uma vitrola, ainda guardo, com carinho, os LP’s de Maysa que acabei herdando de meu pai.

Em 2009, voltei a “revisitar” Maysa através da Minissérie “Maysa: Quando Fala o Coração” e me vi apaixonada por sua obra e fascinada por sua história. Em 2011, Filipe Catto me fez chorar ao vê-lo interpretar “Meu mundo caiu” e minha admiração por ele, que já não era pequena, agigantou-se.

Vou contar um fato curioso… Em 2014, tive a oportunidade de assistir ao show da turnê “Entre Cabelos, Olhos e Furacões, realizado no SESC Quitandinha, em Petrópolis-RJ, onde Filipe nos lembrou que aquele palco tinha sido locação dos grandes shows de Maysa retratados na minissérie.

Filipe tem uma capacidade enorme de reinvenção, uma sensibilidade artística gigantesca, possui a liberdade de ser quem é, tem a ousadia de não se acomodar e a consciência plena do talento que tem e outras tantas qualidades, que só os grandes artistas possuem. Não tenho dúvida alguma de que Filipe Catto despertaria a admiração de Maysa, pois estrelas se reconhecem.

Texto de Angel Officinalis


“Não sei se me explico bem…”

Falar sobre Maysa é tão complicado quanto expressar um sentimento em palavras, falar de uma sensação que está bem longe de ser tangível. Maysa transcende qualquer capacidade minha de discurso.

Sensível e romântica, sendo ao mesmo tempo extremamente transgressora, ousada e intensamente profunda na dor. Sofreu e fez sofrer. Tudo o que fez foi com o coração e toda entrega; fazia-se ouvir (mesmo que pra isso tivesse que lançar sapatos na plateia), pagava o preço por quebrar tabus, por viver como uma mulher forte e expressiva. Duramente criticada por quase todos – mídia, família e amigos –, Maysa respondia com sua arte e seu talento, tornando-se uma das maiores cantoras do Brasil!

“Ninguém pode calar dentro em mim
Esta chama que não vai passar
É mais forte que eu
E não quero dela me afastar

Eu não posso explicar quando foi
E nem quando ela veio
E só digo o que penso, só faço o que gosto
E aquilo que creio

Se alguém não quiser entender
E falar, pois que fale
Eu não vou me importar com a maldade
De quem nada sabe
E se alguém interessa saber
Sou bem feliz assim
Muito mais do que quem já falou
Ou vai falar de mim”

“Resposta” é uma composição totalmente autobiográfica e expressa toda a autenticidade e entrega nas letras em que compunha. Maysa tansmitia dor, tristeza, alegria, raiva, numa só canção de forma singular e esplêndida! Mas além de compositora, Maysa era uma intérprete incrível e visceral, e ouso dizer que foi a maior de todos os tempos. Ela tinha a  capacidade de tornar pessoal qualquer canção, tornar quase paupável tudo o que sentia em cada show, cada “simples” performance que realizava (capacidade familiar para os que acompanham Filipe Catto).

Eu vou pra sempre admirar esta mulher transgressora, forte, talentosa, e, além de tudo, visceral! Eternamente Maysa.

“Hallarás aquí el más hermoso canto al amor y la más dulce protesta por el sufrimento. En definitiva, te hallarás tú, en tu dolor, tu amor y tu soledad.” (Pablo Neruda, 14/07/62)

Texto de Erick Figueredo

2 thoughts on “Memória: Maysa

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