MEMÓRIA – CAZUZA

eternoCazuza é um artista atemporal. Mesmo passados 25 anos de sua morte, ele continua vivo e atuante na cena da música brasileira. Suas letras, suas opiniões parecem escritas para os tempos atuais.

Para que ele continue assim, vivo e reverenciado como um grande artista deve ser, reunimos aqui, textos de nossos colaboradores, de diversas idades, nascidos entre as décadas de 1950 e 1990, falando sobre a importância de Cazuza em suas vidas e comprovando que, de fato, Cazuza é eterno.


50

Klaudia Alvarez, 1956

25 anos! Inacreditável. Uma geração inteira que nunca viu Cazuza ao vivo, mas a Arte tem dessas mágicas. Basta acessar o Youtube e ele está ali, inteiro, pleno e com toda a força e luz. Já se foi meio século e mais alguns virão e ele nunca passará. Sua verve, ironia e poesia sempre serão. Parece que agora, infelizmente, o Brasil tem mostrado a sua pior cara e ele já nos dizia isso há tempos. Eterno Caju. Para sempre em nossas mentes e corações.


60Christina Eloi, 1964

“Vida louca vida

Vida breve

Já que eu não posso

Te levar

Quero que você me leve”.

O poeta está vivo

Cazuza jovem, lindo, irreverente, desbocado, contraditório. Sedutor ao extremo. Irresistível com sua língua presa, seus cabelos encaracolados e seu sorriso sensual. Uma voz que se destacava num período difícil de liberdades restritas. Onde tudo era proibido. Palavras e ações eram censuradas abertamente. Onde qualquer posicionamento era encarado como subversão. E ele realmente subverteu a ordem e mostrou a todos, principalmente aos jovens, que se expor não era errado. Nós não éramos alienados e precisávamos ser ouvidos. Ele era tudo o que eu gostaria de ter sido; ele me representava. Meu amor, meu ídolo primeiro, me ensinou a amar livremente, conceito que só agora entendo. Deixou muita saudade. O que me conforta é que sua obra toca as gerações mais jovens que não o conheceram. VIVA CAZUZA!


70

Cláudia Takano, 1970

Muitos te conhecem por Cazuza, mas prá mim, teu nome é coragem.

Rompeu paradigmas.
Viveu intensamente.
Mostrou a cara, a mente e o coração.

Cantou o amor, cantou a dor.
Cantou sobre si e sobre o povo.

Como poucos, usou sua música para clamar verdades, verdades muitas vezes incompreendidas…nem todos estavam prontos para você.

Sua arte vive, porque é sincera.
Suas ideias são jovens, porque são visionárias.

Suas causas ainda são as nossas lutas.
Seus sentimentos, os nossos, universais, atemporais.

Passou por aqui como um furacão, forte, pungente.
Deixou sua marca.
Partiu brevemente, prova de que para deixar um legado, mais que tempo, é preciso vontade e ela, a coragem.

Angel Officinalis, 1976

Que vida louca hein,meu poeta exagerado?
Se alguém amou nessa vida breve foi você!
Do Toddy ao tédio, passando pelo uísque, verteu a taça até o fim.
Ouviu mentiras baratas tão breves quanto um sonho bom.
E gritou “Eu preciso dizer que te amo!”, mas sob um codinome beija-flor
Falou da burguesia e clamou por uma ideologia pra viver
sem perder a poesia
Viveu uma vida breve e nada fácil
Até que a luz negra se apagou
E esse Brasil, azul e amarelo, ainda sente sua falta
Mas o tempo não para e não é hora para um Blues de piedade
Aqui estamos para declarar a ti todo amor que houver nesta vida
A saudade só aumenta, já que o nosso amor a gente inventa
Agenor, você faz parte do nosso show!
Viva Caju! Viva Cazuza!


80

Cristiana Oliveira, 1980

25 anos sem Cazuza. Interessante como mesmo sendo uma criança na época, tenho tantas impressões a seu respeito. Lembro-me de suas apresentações nos programas de tevê. Já com as vestes brancas, os cabelos lisos, os lenços. Um rapaz bonito, cheio de vivacidade, mas que a cada dia se apresentava mais fragilizado. Ele assumira estar com Aids, uma doença que eu não entendia muito bem, mas percebia o quanto amedrontava o mundo.

No dia de sua partida, 07 de julho de 1990, tinha dez anos de idade. Minha mãe costumava ouvir rádio AM, e foi assim que recebemos a notícia. Eu ainda não tinha uma total compreensão do que era Cazuza. Na simplicidade da minha visão de criança, doía a partida daquele artista que eu admirava, daquela pessoa tão intrigante, que demonstrava tanta força por trás da aparente fragilidade. Após a notícia, a rádio tocou “Faz parte do meu Show”, minha música preferida dele até então. O coração apertou, me afastei, e chorei escondida em algum canto. Confesso que demorou algum tempo até eu ouvir essa música sem chorar.

Conforme eu crescia e conhecia seu trabalho e sua história, a admiração aumentava. Infelizmente não assisti a nenhum show do Cazuza, mas guardo com carinho o dia 30 de Novembro de 2013, em que presenciei o Tributo com sua imagem holográfica. Foi o mais próximo que eu pude chegar do que era estar em um show dele. E foi emocionante olhar para os lados e ver tantas pessoas, de idades diversas, unidas na saudade, na admiração, no desejo de que ele realmente ali estivesse. E houve uma troca de energia tão mágica ali, que tenho certeza que ele se fez presente.

25 anos sem Cazuza? Não. Cazuza vive em cada nova geração conquistada, vive em seu legado atemporal.

Os GRANDES não partem jamais. VIVA CAZUZA, nosso eterno menino poeta.


90

Gabriela Santos, 1993

Falar de Cazuza é falar de um anjo!

Cazuza não morreu, ele vive em forma de poesia e música nos corações dos seus fãs e da sua mãe Lucinha Araújo. Vive também dentro de cada criança que mora na Sociedade Viva Cazuza. Crianças soropositivas, crianças com o vírus da AIDS, que têm assistência médica e social, carinho e amor para que possam ter uma melhor qualidade de vida.

Queria ter conhecido Cazuza, queria ter vivido naquele tempo, mas não deu tempo. Cazuza sofreu na terra, mas também viveu do jeito que queria, sempre estava acompanhado do seu whisky, sua máquina de escrever e seus cigarros.

Quem ama o Caju de verdade, sente sua falta, sente um vazio que tantas vezes se faz presente. Muitos queriam ver como ele escrevia, queriam estar ao seu lado em momentos importantes, que para quem ama, não seriam suficientes.

Ele era o rapaz que escrevia como ninguém, só que não gostava de ser chamado de poeta. Era o rapaz que teve um romance com Ney Matogrosso. Aprendeu a cantar, tinha o palco como um altar.

Cazuza era dono de muitos corações, mas nunca deu o seu por completo. Ele chorava sozinho. Por orgulho, ele rabiscou seus amores e rasgou suas dores. Hoje faz 25 anos que Cazuza virou anjo, 25 anos que ele vive no coração de quem amou e continua amando. O tempo não parou com sua ausência física. A mensagem que gostaria de deixar pra ele é:

Ah, é que eu preciso dizer que te amo, tanto!

Cazuza não morreu. Cazuza Vive.

Erick Figueredo, 1995

Existem pessoas transgressoras. Gente que parece vir ao mundo transmitir a mensagem de que não importa quem és. O importante é ser, sem medo da felicidade. Caju foi uma destas pessoas. Autêntico, expressivo, intenso, exagerado.

Não pude viver sua época, nem tampouco vê-lo atuar no cenário musical brasileiro. E uma das coisas que mais impressiona é justamente o quanto ele me parece vivo, até hoje. Parece que tudo o que ele disse ou cantou é muito atual. Todas as palavras, uma entrevista largada.

Tudo isso não morreu há 25 anos. De um jeito tão próprio, Cazuza conseguia ser sabiamente um revolucionário, estava em sua natureza.

A arte está aqui. Sua música ainda resiste. O poeta, realmente, vive!

Mariana Porto, 1996

Minha história com Cazuza começou quando eu ainda era criança, num apartamento pequeno onde minha mãe morava e eu passava os fins de semana. Cazuza é uma das lembranças que tenho muito nítidas dessa época.

Era domingo, e enquanto eu tentava ajudar com o almoço, ouvíamos música. Sempre os mesmos CDs de MPB que minha mãe guarda na estante até hoje, mas um dia decidimos ousar e procuramos playlists novas na internet medieval da época. Entre Renatos, Humbertos, Chicos e Marisas – todos novidade para mim, uma música em especial: Codinome Beija-Flor, que eu quis colocar de novo quando acabou. E de novo, e de novo, e de novo. Depois do almoço colocamos mais… Exagerado, Ideologia, Brasil talvez, não sei, nem me lembro. Mas era oficial: no auge dos meus 10 anos, eu estava apaixonada por Caju.

Comprei todos os discos que encontrei por aí, assisti a todas as entrevistas possíveis e, tempos depois, me interessei pela história verdadeira do cara. Acho que com 10 anos eu não conseguia compreender nem metade dela – pra ser sincera, com quase 20, eu ainda não consigo dimensionar muita coisa do que li/ouvi/assisti. Cazuza é uma revolução. Cazuza me fez questionar a vida e a morte, meu país e meus pais, todas as alegrias e desgraças de dias e noites sobre as quais já refleti foram intermediadas por seus pensamentos, direta ou indiretamente.

Cazuza tornou-se diário pra mim. Diário, não rotina, pois essa remete à monotonia e Cazuza jamais o será. Consigo encaixar suas canções nos momentos mais importantes da minha vida. Tem uma pra amar e ser amada, uma pra sentir saudade, outra de pura felicidade, aquela de esperança e a outra de revolta… Se minha vida fosse um filme, a trilha sonora seria de um só artista.

Em 2013, tive a experiência estranha de ir ao show em que decidiram homenageá-lo com um holograma no palco. Nunca formei uma opinião sobre isso, mas que seja, a energia ali foi uma das coisas mais intensas que já senti. Toda  aquela gente junta, cantando as músicas da minha vida em uma só voz… E no auge dos meus 18 anos, era oficial: eu estava apaixonada por Caju e sempre estarei.

Thainá Contessoto, 1997

Impossível escrever sobre você sem me emocionar, impossível não cantar em todos os lugares as coisas que você me ensinou mesmo sem saber, mesmo sem querer. Impossível não admitir que você foi a voz de uma geração e que sua poesia tão contemporânea continua sendo a voz de muitas gerações que não podem mais te ver no palco. Impossível não chorar ao lembrar de quem você foi, de quem você é, de tudo que você deixou pra nós.

O poeta está vivo dentro de todos nós e continuará impulsionando a grande roda da história. O poeta me ensinou que todo dia é dia, e tudo, absolutamente tudo, vale a pena em nome do amor. O poeta me ensinou que todos podemos ser heróis, mesmo que tristes. O poeta me acalantou quando estive sozinha e fiz uma personagem chamada Quarta-feira, nome de sua música. Às vezes, o poeta me faz lembrar que o banheiro é a igreja de todos os bêbados. Ele me fez perceber que dementes, porra-loucas e inconsequentes também sabem amar, mesmo que exageradamente. Que o destino de todos que eu quero bem foram traçados junto ao meu na maternidade. O poeta me fez saber criticar a alta burguesia da forma mais inteligente, cantando um blues para os miseráveis e mesquinhos. Só as mães são felizes, mas o dia pode nascer feliz para todos que vão a luta.

Me deixa te parafrasear, Cazuza, me deixa dizer o quanto você é importante pra mim e o quando eu choro e sorrio te ouvindo cantar. Me deixa ensinar as suas músicas para os meus filhos, para que eles ensinem aos filhos deles e você nunca pare de cantar o que tem para ensinar para todos nós que procuramos uma ideologia para viver. Me deixa te amar sem saber que o tempo não para e que você não está mais nesse plano conosco, me deixa te dar a trilha sonora da minha vida e proteger o seu nome por amor. Amor que eu sinto e que só você pode entender como eu sinto por ser o amor que você canta. E a tristeza que você canta. E a emoção que você canta. E a coragem. E tudo, Agenor, tudo que você sempre cantará.

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